Capítulo 54 Capítulo 54
Ruby
Eu nunca imaginei que um dia diria isso, mas estou vivendo uma fase calma. Não perfeita, não completamente livre de sombras… mas calma.
Dustyn mexe quase o dia todo, como se estivesse avisando que está forte, crescendo e ansioso para chegar.
E Andrew… Andrew está diferente de tudo que eu já conheci. Ele trabalha de casa, se levanta mais cedo para preparar meu café, insiste em me acompanhar toda vez que preciso ir ao médico, e faz questão de ler histórias para o bebê antes de dormirmos.
Às vezes, fico olhando para ele e tentando entender como o mesmo homem que um dia me assustou com o jeito de me pedir em casamento agora se tornou esse porto seguro macio, quente, tão meu.
Mesmo assim, algo dentro de mim não descansa.
— Você acha que dá pra sentir quando algo ruim vai acontecer? — perguntei, apoiando a cabeça no ombro dele.
Andrew estava massacrando um relatório no notebook quando levantou os olhos.
— Às vezes dá. — respondeu, com calma. — Mas hoje, só o que vai acontecer é você sorrir.
— Andrew…
— Sem “Andrew” preocupado. — ele fechou o notebook, colocou ao lado e segurou meu rosto entre as mãos. — Você está segura. Você e Dustyn.
Eu queria acreditar sem hesitar. Eu queria sentir exatamente o que ele dizia. Mas havia algo… uma pontada leve, insistente. Como se o mundo estivesse prendendo a respiração.
No meio da tarde, desci as escadas com cuidado, apoiando uma mão no corrimão. Minha barriga cresceu tanto que agora minha coluna protesta a cada passo. Ouvi risos abafados na sala. Voz baixa.
— Andrew? — chamei.
Silêncio por um segundo. Depois, ele apareceu no corredor, com uma expressão que tentava esconder entusiasmo.
— Não venha ainda! — disse, rindo. — Fecha os olhos.
— O quê?
— Fecha os olhos, Ruby.
Suspirei, sentindo meu coração acelerar. Fechei os olhos e ouvi seus passos se aproximarem. Andrew segurou minha mão e me guiou lentamente. Senti o chão mudar, tapete grosso da sala, cheiro de algo doce no ar. Ele me posicionou no meio do ambiente.
— Pode abrir.
Abri. E perdi o fôlego.
A sala estava cheia de balões em tons pastéis, azul, branco e verde. Uma mesa pequena com bolo, docinhos e um arranjo com flores delicadas. Sobre a mesa, um embrulho pequeno, alinhado com perfeição.
— Andrew… — minha voz falhou. — O que é isso?
— Uma comemoração. — ele disse, ajeitando meu cabelo atrás da orelha. — Você passou por tanta coisa… agora quero que cada dia seja leve. Pra você e pro Dustyn.
Meus olhos encheram de lágrimas antes mesmo de tocar o presente.
— Amor… eu nem sei o que dizer.
— Então não diz. Só abre.
Com as mãos tremendo, desamarrei a fita do pacote e encontrei uma caixinha de veludo. Quando abri, vi uma pulseira fina de ouro. No centro, uma plaquinha com o nome gravado:
Dustyn.
— Então já temos um nome. — falei baixinho, tocando a plaquinha como se fosse vidro prestes a quebrar.
— Nosso Dustyn. — Andrew sorriu, tocando a minha barriga. — Eu não consigo explicar. Só… parecia certo. Parecia ele.
As lágrimas caíram antes que eu pudesse evitar. Ele me puxou para perto com cuidado, como se eu fosse algum tesouro frágil.
— Obrigada. — sussurrei, afundando o rosto no peito dele. — Obrigada por tudo isso.
— Eu faria mil vezes mais. — respondeu, beijando o topo da minha cabeça.
A festa foi pequena, delicada, leve como um suspiro. Só nós dois.
E, pela primeira vez em muito tempo, senti que talvez eu pudesse ter uma vida completa. Talvez Dustyn pudesse mesmo nascer numa casa cheia de amor. Talvez meu passado estivesse realmente atrás de mim.
Andrew tirou fotos minhas, da barriga, da pulseira, das flores. Falou sobre montar um álbum, tirar aquelas fotos mensais de gestação, registrar tudo.
— Quero lembrar desse momento pra sempre. — ele disse, tirando mais uma foto enquanto eu ria, tentando tampar o rosto.
E quando a noite chegou, meus olhos estavam pesados, o corpo cansado, mas a alma leve.
Acordei assustada.
Não sei dizer quanto tempo dormi. Só sei que despertei com o coração acelerado e uma sensação estranha… como se alguém tivesse chamado meu nome dentro do quarto.
Andrew dormia profundamente ao meu lado, respirando de forma lenta, serena. Olhei ao redor. As cortinas estavam abertas. Uma brisa fria circulava, fazendo o tecido balançar.
— Ruby… — ouvi na minha cabeça, um pensamento que não parecia meu.
Balancei a cabeça.
— É só cansaço. — murmurei, levando a mão ao ventre. Dustyn mexeu, como se respondesse.
Levantei devagar e fui até a janela. A rua estava silenciosa. Somente luzes amareladas dos postes iluminando o caminho vazio. Nenhum carro passando. Nenhum movimento.
Mas mesmo assim… algo me observava. Eu sentia.
Respirei fundo e ia fechar a cortina quando notei um carro estacionado do outro lado da rua. Um carro escuro. Janelas escuras. Silencioso demais.
Minha pele formigou.
— Não… — sussurrei.
Acenei para um dos seguranças que ficava na guarita. Ele levantou a cabeça, como se tivesse pressentido alguma coisa, mas não notou nada de imediato.
Fechei a cortina.
— Isso é paranoia. — disse a mim mesma, apertando o peito.
Deitei de novo, tentando ignorar a sensação crescente de alerta.
Acordei no dia seguinte com uma sensação de peso no peito, não física, mas emocional. Andrew já estava acordado, sentado na beira da cama, digitando algo no telefone.
— Dormiu bem? — perguntou, levantando os olhos.
— Acho que sim. — respondi, mesmo sabendo que era mentira.
Ele me estendeu a mão.
— Vem comer alguma coisa. Fiz panquecas.
Fui com ele até a cozinha, observando o quanto aquele homem tentava todos os dias me dar paz. E talvez isso fosse o que mais doía, porque eu ainda sentia que algo estava errado e não conseguia explicar.
Enquanto comíamos, Andrew me olhou de forma mais séria.
— Ruby, você está mais quieta hoje. Aconteceu alguma coisa durante a noite?
Suspirei.
— Acho que tive um pesadelo. Só isso.
— Com o quê?
Eu quase disse “com alguém me olhando”. Quase.
Mas ele já estava carregando peso demais.
— Com nada específico. Só… uma sensação ruim.
Andrew segurou minha mão sobre a mesa.
— Eu estou aqui, tá? Tudo que você sentir, me diz. Não guarda sozinha.
Assenti, mas a culpa me arranhou por dentro. Eu já estava guardando demais.
À tarde, sentei no sofá para bordar o nome de Dustyn em um paninho. Andrew estava no escritório, resolvendo questões da empresa. Tudo estava em silêncio. Tranquilo. Perfeito… demais.
Até meu celular vibrar. O número era desconhecido. Por um segundo, pensei em ocultar a tela. Mas abri. E li apenas uma frase:
— “Durma tranquila, ruiva. Hoje eu vou estar lá.”
Meu corpo gelou. O celular caiu da minha mão. Meu coração disparou. E, naquele instante, percebi. A paz que eu achava que estava vivendo… não era paz. Era a preparação para algo muito pior.
Dustyn se mexeu forte, como se também tivesse sentido. Apertei a barriga, respirando fundo, tentando não entrar em pânico.
— Eu vou te proteger. — sussurrei. — Eu prometo, meu filho… eu prometo.
Mas uma parte de mim sabia. Eu podia prometer, mas não podia controlar o que vinha chegando. E estava chegando muito perto.
