Capítulo 55 Capítulo 55
Andrew
Eu estava dormindo profundamente quando o telefone tocou. O som cortou a madrugada como uma faca afiada. Acordei confuso, tateando o aparelho na mesinha ao lado da cama. Olhei o relógio: 03:00. Número desconhecido. Atendi.
— Alô?
A respiração do outro lado veio pesada, masculina, carregada de algo que não sei se era raiva ou excitação.
— “Cuide da sua mulher.” — a voz disse, fria, quase sem emoção. — “Alguém quer terminar o que começou.”
Meu corpo despertou inteiro na mesma hora.
— Quem é você? — rosnei, levantando-me na cama. — Fala agora!
Mas a linha ficou muda. Depois, o som seco da ligação encerrada. Fiquei parado por alguns segundos, ouvindo meu próprio coração batendo forte demais.
Virei o rosto e vi Ruby dormindo profundamente, a mão apoiada sobre a barriga redonda, como se instintivamente já soubesse proteger nosso filho até enquanto sonha.
Sentei ao lado dela e passei a mão por seus cabelos.
— Eu juro que ninguém vai tocar em vocês dois. — sussurrei, sentindo o peso da promessa se firmar dentro de mim.
Era como se alguém tivesse acendido um instinto que eu nem sabia que existia. Um instinto feito de fogo e medo. O tipo que transforma um homem em arma.
Passei o resto da madrugada acordado, observando cada movimento dela, cada respiração, cada leve mexida do bebê. E quando o sol começou a nascer, eu já sabia o que teria de fazer.
No dia seguinte, deixei a mansão com os seguranças reforçados. Ruby achou que eu ia apenas resolver coisas do trabalho. Eu não corrigi. Não queria preocupá-la ainda mais.
Eu sabia onde precisava ir. E sabia com quem precisava falar.
Ethan estava em um galpão onde a máfia Kostov realizava reuniões com famílias aliadas. Um lugar sujo, cheio de fumaça, música baixa, gente que não devia estar viva… e Ethan, sentado como se fosse dono de tudo aquilo.
Ele percebeu minha chegada no mesmo instante. É como se ele tivesse um radar interno que reage sempre que meu nome passa perto do dela.
— Sinclair. — ele disse, levantando uma sobrancelha. — Que prazer inesperado.
— Vamos conversar. — respondi, tenso.
Os capangas ao redor dele se mexeram, mas Ethan levantou a mão, mandando todos ficarem onde estavam.
— Dá licença, rapazes. O papai preocupado quer falar.
Eu ignorei o deboche. Andamos para um canto mais afastado. Assim que ficamos frente a frente, falei sem rodeios:
— Fica longe dela.
Ethan riu. Um riso curto, sem humor.
— Eu já estou longe. — disse. — Você é que ainda não entendeu que o perigo não sou eu.
— Então quem é?
Ele estalou a língua, impaciente.
— Alguém pior. Bem pior. Uma pessoa que você não vê chegando… mas que nunca perde a chance de terminar o que começou.
Senti o estômago afundar.
— Se sabe de algo, fala agora.
— Pra quê? — ele balançou a cabeça. — Você acha que se eu disser o nome, as coisas vão parar de acontecer? Você é inteligente, Sinclair. Sabe que algumas pessoas não precisam de motivo pra destruir. Algumas fazem só pelo prazer.
— Você está falando de Astrid?
Ele sorriu de canto, quase com pena de mim.
— Astrid é só uma faísca. Tem gente que nasceu incêndio.
Me aproximei dele, irritado.
— Se ela cair, eu caio junto. — falei, firme.
Ethan inclinou a cabeça. Pela primeira vez desde que o conheço, ele pareceu sincero.
— Então somos dois.
Essa frase ficou entre nós por alguns segundos. Pesada. Inesperada. Respirei fundo.
— Eu só não te faço deixar esse mundo agora porque sei que ela vai precisar de você.
Os olhos dele estreitaram.
— O que quer dizer com isso, Sinclair?
— Você vai saber… na hora certa. Mas até lá, fica longe da minha mulher.
Ele segurou meu braço antes que eu pudesse sair.
— Eu amo ela. — disse, firme, pela primeira vez sem esconder, sem desviar. — E se ela gritar meu nome um dia… eu volto.
Me desvencilhei devagar.
— Ela não vai gritar.
— Você não sabe do que ela é feita. — ele rebateu.
Antes que eu pudesse responder, um dos homens dele se aproximou.
— Don, os crates chegaram.
Ethan me lançou o último olhar.
— Cuida dela, Sinclair. Porque se você falhar… eu destruirei quem falhou e reconstruirei o resto com minhas próprias mãos.
Eu virei as costas e saí sem olhar para trás.
Voltei pra casa com o coração pesado. O tipo de peso que não desaparece nem quando se respira fundo. Ruby estava na sala, sentada no sofá, com a mão apoiada na barriga enquanto falava com o bebê.
— Você vai ser forte igual ao papai, sabia? — dizia ela, sorrindo.
Esse sorriso… era por isso que eu mataria sem pensar. Por isso que eu morreria sem hesitar.
— Andrew! — ela se levantou devagar, vindo até mim. — Você demorou. Aconteceu alguma coisa?
— Nada demais. — respondi, beijando sua testa. — Só um dia cheio.
Ela não acreditou. Ruby sempre sente quando algo me afeta. Mas não insistiu. Em vez disso, puxou minha mão e a colocou sobre o ventre.
— Dustyn está agitado hoje. — disse.
No mesmo instante, o bebê chutou, firme e decidido, como se estivesse respondendo. Meu sorriso saiu natural.
— Ele vai ser o melhor de nós.
— Ele já é. — ela acariciou meu rosto.
Nos sentamos no sofá. Ruby apoiou a cabeça no meu ombro e começou a falar sobre a consulta marcada para a próxima semana, sobre as roupinhas que queria comprar, sobre uma manta azul que viu online. Mas eu estava ali só pela metade.
A outra metade estava analisando possibilidades, rostos, ameaças. Aquilo que Ethan disse não saía da minha mente.
— “Tem gente que nasceu incêndio.”
E também havia a ligação da madrugada. Uma voz que eu nunca tinha ouvido antes.
— “Cuide da sua mulher. Alguém quer terminar o que começou.”
Eu não sabia quem estava vindo, mas sabia que estava chegando perto. E perto demais da mulher que eu amava.
Quando Ruby adormeceu no sofá, tirei os sapatos dela com cuidado e a carreguei até a cama. Ela se ajeitou instintivamente, colocando a mão sobre a barriga. Acariciei seu rosto.
— Eu vou proteger vocês dois, meu amor. — sussurrei. — Mesmo que eu tenha que destruir metade da cidade pra isso.
Fui até a janela e olhei para a escuridão lá fora. As luzes do jardim estavam acesas. Os seguranças circulavam em silêncio. As câmeras captavam cada movimento.
Mas nada disso tirou o pressentimento que se instalou em mim.
— Eu não sei quem está vindo além de Ethan e Astrid… — murmurei para mim mesmo. — mas vai ter que passar por mim primeiro.
A noite parecia prestar atenção. E eu não senti medo. Senti guerra.
