Capítulo 56 Capítulo 56
Ruby
Estou no sétimo mês de gravidez e meu corpo já não me pertence do mesmo jeito de antes. Cada passo é mais lento, cada respiração vem acompanhada de um peso diferente no peito. Dustyn se mexe com força, como se quisesse lembrar o tempo todo que está ali, vivo, crescendo, ocupando cada espaço de mim.
O médico pediu repouso. Andrew pediu duas vezes mais do que isso. Mas eu não consigo simplesmente parar.
Passo algumas horas do dia organizando os projetos da fundação infantil que Andrew criou em nome do nosso filho. Escolhemos ajudar crianças em situação de risco, com foco em saúde e educação. Talvez porque, no fundo, eu precise acreditar que algo bom pode nascer mesmo quando o medo tenta se instalar.
— Você devia descansar mais. — Andrew diz, apoiado na porta do escritório improvisado que montamos em casa para assuntos da fundação.
— Eu estou descansando. — respondo, salvando um arquivo e fechando o notebook. — Só organizei algumas coisas.
Ele suspira, daquele jeito que faz quando quer reclamar, mas não quer discutir.
— Eu sei que você precisa se sentir útil. Só não quero que se canse.
— Eu fico bem fazendo isso. — sorrio, tocando a barriga. — Dustyn gosta quando eu fico concentrada.
Andrew se aproxima e coloca a mão sobre meu ventre. O bebê responde com um chute firme, como se concordasse comigo.
— Viu? — provoco.
Ele ri baixo, mas o sorriso dura pouco. Algo no rosto dele muda rápido demais. A cor some, os ombros enrijecem. Ele leva a mão ao peito de forma quase instintiva.
— Andrew? — pergunto, levantando da cadeira na mesma hora.
— Estou bem. — ele responde rápido demais. — Só… um mal-estar.
Dou dois passos até ele e seguro seu rosto entre as mãos.
— Você está pálido.
— É impressão sua. — ele tenta brincar, mas a voz falha um pouco. — Acho que comi rápido demais no almoço.
— Você está suando. — insisto, sentindo a pele quente sob meus dedos.
Andrew segura meu pulso com cuidado, como se não quisesse me afastar, mas também não quisesse que eu percebesse mais do que já vi.
— Está tudo bem, ruivinha. — diz, beijando minha mão. — Não quero te preocupar.
Eu não gosto do jeito que ele evita meus olhos.
— Quer que eu chame alguém? Um médico?
— Não. — responde de imediato. — Já passou.
Ele força um sorriso, mas eu conheço Andrew o suficiente para saber quando ele está fingindo. Ainda assim, aceita sentar comigo à mesa para o jantar.
Durante a refeição, ele quase não toca na comida. Bebe água em pequenos goles, respira fundo com frequência. Tento puxar conversa, contar algo da fundação, mas minha atenção está presa nele.
— Andrew… — digo de novo. — Isso não é normal.
— Ruby. — ele segura minha mão sobre a mesa. — Promete que vai confiar em mim?
— Confio. — respondo, mesmo com o nó apertando no peito. — Mas isso não significa ignorar o que estou vendo.
Ele se inclina e beija minha testa.
— Se não melhorar até amanhã, eu procuro um médico. Prometo.
Aceito a promessa porque sei que insistir agora só vai deixá-lo mais fechado.
Mais tarde, já no quarto, Andrew adormece rápido demais. O corpo pesado afunda no colchão, a respiração profunda, mas irregular. Eu me deito ao lado dele, mas o sono não vem.
Fico observando.
O peito dele sobe devagar, depois parece hesitar antes de descer. O maxilar se contrai em alguns momentos, como se estivesse lutando contra algo até mesmo dormindo.
Estendo a mão e acaricio seus cabelos.
— Por favor… fica bem. — peço baixo, quase com medo de que ele me ouça.
Dustyn se mexe de novo, forte. Levo a mão ao ventre e fecho os olhos por um instante.
— Está sentindo também? — sussurro para meu filho. — Alguma coisa não está certa.
Levanto devagar e vou até a janela. A noite está estranhamente silenciosa. Nenhum carro passando, nenhum som distante da cidade. Apenas o vento leve balançando as cortinas.
Tenho a sensação incômoda de estar sendo observada. Fecho a cortina rapidamente e volto para a cama.
Deito de lado, de frente para Andrew, e encosto minha testa na dele. A pele está mais quente do que o normal. Coloco a mão sobre o peito dele e sinto o coração bater forte demais, rápido demais.
— Andrew… — chamo em um fio de voz.
Ele se mexe um pouco, mas não acorda.
O medo cresce dentro de mim de um jeito que não sei explicar. Não é pânico. É algo mais silencioso, mais profundo. Um aviso.
Como se tudo estivesse calmo demais para ser verdade. Como se o susto não fosse o que aconteceu hoje, mas o que ainda está por vir.
Fico ali, acordada, contando as batidas do coração dele, sentindo cada movimento do meu bebê, tentando convencer a mim mesma de que é só cansaço, só preocupação de grávida.
Mas no fundo, bem no fundo, algo me diz que esse foi apenas o começo. E pela primeira vez desde que Dustyn começou a crescer dentro de mim, eu sinto medo não por mim. Sinto medo por nós três.
Andrew desperta devagar, como se sentisse meu olhar antes mesmo de abrir os olhos. Ele inspira fundo, passa a mão pelo próprio peito, depois me encara.
— Você está me olhando assim há quanto tempo? — pergunta, com a voz rouca de sono.
— Tempo demais. — confesso. — Você me assustou hoje.
Ele se aproxima, apoiando o antebraço ao meu lado. Os olhos estão atentos, presentes. Não há fraqueza neles agora.
— Eu estou bem. — diz, firme. — Quero que sinta isso.
Andrew me beija devagar, sem pressa, como se cada segundo fosse uma promessa. A mão dele desliza pela minha cintura, segura, quente, possessiva. Não há urgência. Há certeza.
— Andrew… — sussurro, quando ele encosta a testa na minha.
— Shh. — ele pede. — Deixa eu cuidar de você agora.
O beijo muda. Fica mais profundo, mais intenso. Sinto o peso do corpo dele sobre o meu, controlado, atento ao meu ventre. A mão dele repousa na minha barriga por um instante, como se pedisse permissão.
— Sempre. — respondo, sem pensar.
Ele sorri contra minha boca antes de continuar. Cada toque é pensado. Cada movimento é feito para me lembrar que ele está ali, inteiro, presente. Que não vai quebrar. Que não vai cair.
Meu corpo responde com facilidade demais. Talvez porque eu precise disso tanto quanto ele. Talvez porque, no meio de tanto medo, seja ali que eu ainda me reconheça.
— Eu estou aqui. — ele diz, com a boca junto ao meu ouvido. — Não vou a lugar nenhum.
Quando nos movemos juntos, é lento, profundo, cheio de cuidado e desejo contido. Não é só prazer. É afirmação. É proteção.
No fim, fico abraçada a ele, com a cabeça em seu peito. O coração bate forte, constante.
— Viu? — ele pergunta. — Estou bem.
Fecho os olhos, tentando acreditar. Por nós.
