Capítulo 57 Capítulo 57
Andrew
Acordei antes do amanhecer, com o corpo pesado e a respiração curta. O quarto ainda estava mergulhado naquela penumbra tranquila que só existe antes do dia nascer. Ruby dormia de lado, uma mão sobre o ventre, como se protegesse Dustyn mesmo enquanto sonhava.
Três horas antes, eu estava dentro dela. Fazendo amor. Tentando ignorar o esforço que aquilo exigiu de mim. Não foi dor. Foi limite. Meu corpo avisou. E eu fingi não ouvir.
Levantei devagar, com cuidado para não acordá-la. Cada movimento parecia exigir mais do que devia. O peito apertou de leve quando fiquei em pé, como um lembrete insistente.
— Não agora… — sussurrei para mim mesmo, passando a mão pelo rosto. — Ainda não.
No banheiro, encarei meu reflexo no espelho. A pele estava mais pálida do que o normal. Os olhos fundos. O brilho cansado de alguém que vem empurrando o próprio corpo além do que deveria.
Abri a torneira e lavei o rosto com água fria, tentando acordar não só o corpo, mas a coragem.
— Você consegue. — falei para o reflexo. — Só precisa aguentar mais um pouco.
Quando me virei, Ruby estava encostada no batente da porta, os olhos ainda pesados de sono, o cabelo caindo pelos ombros.
— Te acordei? — eu perguntei, com a voz baixa.
Força. Normalidade. É isso que ela precisa ver.
— Não, amor. — respondeu com um sorriso controlado. — Só tive um pesadelo.
Ela caminhou até mim sem dizer nada, me abraçou por trás e encostou a barriga nas minhas costas. O peso suave do ventre me ancorou no chão. Me lembrou do motivo de tudo.
— Dustyn vai nascer logo. — ela disse, num tom tranquilo. — Você tem que estar bem pra isso. Resumindo, precisa descansar, você trabalha demais.
Segurei as mãos dela sobre meu abdômen e fechei os olhos por um segundo.
— Eu vou estar. — garanti. — Prometo.
Era uma promessa perigosa. Mas era a única que eu podia fazer.
— Vou diminuir o ritmo de trabalho. — continuei. — Deve ser isso. Muito estresse.
Ela assentiu, confiando em mim como sempre confiou.
— Depois do café, tenta dormir mais um pouco. — pediu. — Você anda acordando cedo demais.
— Vou tentar.
Ela me beijou no ombro e voltou para a cama. Esperei ouvir a respiração dela se estabilizar antes de me apoiar na pia.
O ar ficou curto de novo. Precisei segurar com as duas mãos para não ceder.
— Só mais um pouco… — falei baixo, sentindo o peito apertar. — Me deixa ficar mais um pouco com eles.
Respirei fundo, devagar, até a tontura passar.
No escritório, horas depois, fechei a porta antes de pegar o telefone. Não queria nem a chance de alguém ouvir.
— Doutor. — disse assim que a ligação foi atendida. — Preciso continuar mantendo isso em sigilo.
Houve silêncio do outro lado.
— “Andrew…” — ele começou, com cautela. — “A situação está se agravando.”
— Eu sei. — respondi, firme, antes que ele pudesse continuar. — Mas até o meu filho nascer, ninguém vai tirar essa felicidade dela. Nem de mim.
— “Você está colocando sua vida em risco.”
— Estou colocando tudo em risco desde o dia em que escolhi amar aquela mulher. — respondi. — E faria de novo.
Ele suspirou.
— “Precisamos ajustar a medicação. Pelo menos isso.”
— Faça o que for necessário. — concordei. — Desde que ela não saiba.
Desliguei e fiquei alguns segundos olhando para a tela apagada do celular. Não era medo de morrer. Era medo de não estar lá.
Quando voltei para o quarto à noite, Ruby estava sentada na cama, lendo para a barriga. Falava baixo, contando ao nosso filho como seria o quarto dele, como o mundo podia ser bonito apesar de tudo.
Encostei na porta e fiquei observando em silêncio. Eu aguentaria. Pelo tempo que fosse preciso. Porque alguns segredos não são covardia. São amor. E eu faria qualquer coisa para ver Dustyn nascer.
Naquela noite, eu não queria apenas tocá-la. Queria guardar cada segundo dela dentro de mim.
Mandei montar tudo no jardim depois que Ruby adormeceu no sofá. Luzes baixas entre as árvores, velas protegidas do vento, uma tenda branca discreta, quase invisível no escuro. Dentro, uma cama baixa, lençóis claros, almofadas espalhadas. Do lado de fora, uma mesa simples com frutas, vinho sem álcool, música baixa.
Quando a acordei, ela me olhou confusa.
— Confia em mim? — perguntei.
Ela sorriu, aquele sorriso que sempre me desmonta.
— Sempre.
Conduzi Ruby até o jardim de mãos dadas. Quando ela viu a tenda, levou a mão à boca.
— Andrew… o que é isso?
— Uma noite só nossa. Sem paredes. Sem medo.
Ela me abraçou ali mesmo, forte, como se tivesse entendido algo que eu ainda não disse em voz alta.
Dentro da tenda, deitei com cuidado ao lado dela. Toquei seu rosto devagar, como se estivesse aprendendo de novo cada linha. Beijei sua testa, depois o nariz, depois a boca. Um beijo lento, profundo, cheio de tudo o que eu não conseguia dizer.
Minhas mãos percorreram o corpo dela com calma, respeitando cada curva, cada mudança. Ruby respondeu com o mesmo cuidado, me tocando como se quisesse me manter inteiro.
Fizemos amor ali sem pressa. Sem urgência. Sem dor. Só conexão.
Ela se arqueou sob mim, gemendo baixo, e eu me perdi naquele som. Entrei nela devagar, guiando o ritmo para que fosse intenso e seguro. Cada movimento era uma delícia só nossa.
Quando tudo terminou, ficamos abraçados, respirando juntos. Peguei o celular e tirei algumas fotos. Não explícitas. Apenas nós dois, suados, sorrindo, a luz suave envolvendo o rosto dela.
— Por que está gravando isso? — ela perguntou, rindo.
— Pra quando eu estiver longe… — respondi. — Quero que você assista e lembre que eu estou aqui.
Ela franziu a testa, confusa, mas assentiu. Três dias depois, fiz de novo. Dessa vez no terraço. A mesma tenda. Outro céu. Outras estrelas. Ruby riu quando viu.
— Você vai me viciar nisso.
— Esse é o plano.
O vento estava mais frio, então fiquei atrás dela, cobrindo seu corpo com o meu. Beijei seus ombros, desci lentamente até o ventre, com cuidado, respeito, devoção.
Dentro da tenda, repeti o ritual. Fotos. Vídeos. Beijos longos. Amor sem pressa.
— Andrew… — ela disse depois, com a testa encostada na minha. — Por que isso tudo?
Abracei Ruby com força.
— Porque se um dia eu não puder te tocar… quero que você nunca esqueça como foi ser amada assim.
Ela me beijou, intenso, profundo, como se quisesse apagar qualquer pressentimento. E por alguns minutos… funcionou. Por alguns minutos, eu consegui fingir que o tempo estava do nosso lado.
