Capítulo 58 Capítulo 58
Ruby
Eu estava no sofá, com o celular na mão, revendo pela quarta vez os vídeos que Andrew gravou. No jardim, dentro da tenda, as lanternas deixavam tudo dourado e eu ria como se o mundo não tivesse maldade. No terraço, o vento batia no meu cabelo e ele dizia que queria guardar “a gente” para sempre.
Eu parava em uma cena específica: a mão dele na minha barriga e o sorriso de quem já ama antes de conhecer o rosto do filho.
Eu devia ficar feliz. Mas aquele excesso de registro me dava a sensação de despedida, e eu odiava sentir isso.
A porta abriu e Andrew entrou com um buquê de rosas vermelhas grande demais para o corpo dele.
— Trouxe pra você.
— Estou virando um jardim. — tentei brincar.
— Ainda bem. — ele respondeu, e me puxou pela cintura com cuidado por causa do ventre. — Quero você cercada de coisas bonitas.
Ele me beijou com calma, mas com um peso por trás, como se estivesse confirmando que eu estava ali.
— Você está diferente hoje. — eu falei quando ele se afastou.
— Diferente como?
— Como se estivesse tentando me convencer de alguma coisa.
Andrew riu, porém os olhos não riram junto.
— Eu só estou feliz. Só isso.
Eu não insisti. Eu queria paz, e insistir em medo parecia provocar o destino.
— Vou sair rapidinho. Preciso comprar umas coisas pro quarto do Dustyn. — avisei.
— Eu tenho reunião daqui a pouco, mas vai com o Dan e dois seguranças. Sem discutir. Sem ficar muito tempo em pé.
— Você é mais mandão quando vira pai.
— Eu sou mandão quando eu amo. — ele disse, e beijou minha testa. — Me manda mensagem quando estiver voltando.
— Eu mando.
Quando ele saiu, eu respirei fundo. O silêncio da mansão sempre voltava como um bicho grande.
No carro, Dan dirigia com cuidado demais, como se cada buraco na rua fosse uma ameaça. Atrás, Richard, o segurança de Andrew, estava ao lado de um homem novo, calado, com ombros largos e olhos atentos.
— Você é novo, né? — perguntei.
— Sou, senhora. — ele respondeu.
— Seu nome?
— Tomas.
Richard me olhou de canto, desconfiado. Eu fingi que não vi. Eu já estava cansada de desconfiar de tudo.
A loja de bebê era pequena e cheirava a algodão. Eu escolhi uma luminária em formato de lua, dois paninhos bordados e almofadas para a poltrona de amamentação. Eu me peguei sorrindo, e por alguns minutos esqueci que existia Ethan, existia Astrid, existia ameaça.
Na volta, o trânsito parou sem aviso. Dan reduziu e franziu a testa.
— Não tem acidente. — ele comentou.
Eu apertei o cinto no peito, sentindo o bebê se mexer.
O primeiro impacto veio com o som do vidro estourando. Uma mão enluvada quebrou a janela do meu lado e estilhaços caíram no meu colo.
Eu gritei.
— Sai do carro! — um homem ordenou, com uma arma apontada para dentro. — Agora!
Richard abriu a porta e tentou avançar, mas outro homem bateu nele e o jogou no asfalto. Tomas sacou a arma, rápido, porém um terceiro surgiu atrás e encostou algo na nuca dele.
— Larga ou morre.
O sequestrador que me puxava segurou meu braço com força.
— Anda, ruiva. É rápido.
Eu abracei a barriga com a outra mão, desesperada.
— Eu estou grávida! — eu gritei, mais para o mundo do que para eles.
— Melhor ainda. — ele debochou.
Meu pé escorregou e eu quase caí. O medo subiu pela garganta como vômito. Eu vi Dan imóvel no volante, pálido, sem saber se respirava.
E então o som de tiros cortou o ar.
O sequestrador me soltou por reflexo. Um carro preto derrapou, bloqueando a rua, e a porta abriu como se fosse uma sentença.
Ethan Storm desceu.
Ele estava de preto, com o olhar mais frio que a cidade inteira. A arma dele parecia extensão do corpo. Dois disparos, um homem no chão. Outro disparo, o segundo correu. O terceiro tentou usar Tomas como escudo, mas Ethan acertou a mão dele e a arma caiu.
Tudo aconteceu rápido, mas eu senti cada segundo.
Ethan veio até mim e segurou meus ombros com força demais, como se eu fosse sumir.
— Você está bem, amor? — ele perguntou, ofegante.
Eu tremia.
— O bebê…
Os olhos dele desceram para a minha barriga. Por um instante, eu vi algo raro: medo.
— Você está sangrando? Está com dor?
— Não… eu acho que não.
Ele soltou o ar, mas não me soltou. Richard se levantou com o rosto marcado, cambaleando.
— Senhora Sinclair, entra no carro. Agora.
Tomas ainda apontava a arma para o homem ferido, e a mão dele não tremia. Isso me deu outro tipo de arrepio.
Ethan encarou Tomas. Foi um olhar curto, pesado, como se se reconhecessem.
— Some. — Ethan mandou, sem desviar de mim.
Tomas assentiu e recuou para o outro lado da rua. Richard arregalou os olhos, mas não falou nada.
— Ethan, o que você está fazendo aqui? — eu consegui dizer, tentando afastá-lo.
— Te salvando. Como eu devia ter feito em muitas coisas.
— Você não devia me tocar assim. — minha voz falhou. — Eu sou casada.
— Eu sei. — ele respondeu, duro. — E eu continuo olhando pra você como se o mundo fosse meu inimigo.
— Porque você faz ele ser. — eu rebati. — Você some e volta quando quer, decide o que eu sinto, decide o que eu devo.
Ele apertou o maxilar.
— Eu não decido o que você sente. Eu só sei o que eu sinto.
Eu me soltei o suficiente para respirar.
— Então sente de longe. Me deixa em paz.
Ethan riu sem humor.
— Paz não existe pra gente, Ruby.
— Existe, sim. Estou tentando construir uma. Eu agradeço por me salvar, mas preciso que entenda que entre nós… não existe um “nós”.
Ele olhou para os meus lábios, e eu soube antes de acontecer.
— Não. — eu pedi, com o coração correndo. — Não faz isso.
Ele tocou meu rosto com a mão e eu odiei o quanto meu corpo reagiu.
— Eu achei que ia te perder de novo. — ele disse baixo. — Eu não aguento mais essa sensação.
— Isso não te dá direito…
— Na minha vida, direito sempre foi uma arma. — ele respondeu. — E eu estou cansado de perder você.
Eu levantei a mão para empurrá-lo, mas ele segurou meu pulso com cuidado, sem machucar.
— Não encosta em mim. — eu pedi, chorando. — Por favor.
Os olhos dele ficaram brilhando por um segundo, e isso me deixou ainda mais nervosa.
— Eu ainda te amo. — ele falou, simples, como se dissesse que o céu estava nublado.
Eu balancei a cabeça, perdida.
— Para com isso.
Ethan se aproximou e me beijou.
Foi um beijo desesperado, quente, cheio de medo e saudade. A boca dele tomou a minha como se eu fosse a última coisa viva no mundo dele. Eu senti meu corpo responder por instinto, e isso me deu vontade de chorar mais.
Eu empurrei o peito dele, com força.
— Eu sou casada, Ethan!
Ao longe, eu ouvi sons diferentes. Gente abriu janelas. Um celular começou a filmar do outro lado da rua. Richard se aproximou de novo, ainda tonto, e falou num tom urgente:
— Senhora Sinclair, por favor… entra no carro. A polícia vai chegar, e isso aqui vai virar um circo.
Eu não conseguia me mover. Meu braço ainda doía onde o homem me puxou. O bebê mexia, como se reclamasse da minha respiração curta.
— Ethan, você vai embora. — eu disse, tentando colocar firmeza na voz. — Não chega mais perto de mim. Não hoje.
Ele encostou a testa na minha, como se não ligasse para o mundo.
— Eu não vim pra fazer cena. Eu vim pra te manter viva.
— Viva pra quê? Pra você continuar me perseguindo?
Ele me encarou, e o olhar dele parecia uma sombra antiga voltando para cobrir tudo.
— Viva pra eu ter chance de consertar. Mesmo que você não acredite.
— Eu não acredito. — respondi, com a garganta apertada. — Você sempre promete tarde demais.
Ethan passou o polegar no canto da minha boca, limpando uma lágrima que eu nem tinha percebido.
— Pode me odiar, Ruby. Pode gritar. Pode correr. Mas isso não muda a verdade.
— Que verdade?
Eu senti o frio da rua entrar pelos estilhaços, senti o gosto de metal na boca, senti minha mão suada na barriga. O mundo ao redor era barulho, gente chamando, pneus cantando, Richard falando ao rádio, Dan pedindo para eu entrar. Mas ali, a poucos centímetros do rosto dele, tudo parecia pequeno demais. E eu queria sumir e respirar direito.
Ele respirou fundo, como se fosse doloroso.
— Eu vou te amar até o fim. E se alguém tentar te tirar de cena, eu vou fazer essa cidade inteira pagar.
