Capítulo 59 Capítulo 59
Ethan
Eu ia beijar Ruby de novo. Ia ignorar as sirenes distantes, os curiosos começando a se aproximar, o caos que sempre me seguiu como uma sombra. Ia puxá-la de volta pra mim, provar que ainda existia algo ali, mesmo que ela gritasse o contrário.
Mas algo dentro de mim travou. Meu instinto gritou mais alto. Isso ainda não tinha acabado.
O som de motores acelerando veio pela lateral da rua. Dois carros surgiram rápido demais, abrindo caminho entre os veículos parados, vindo direto na nossa direção.
— Abaixa, amor. — ordenei, já puxando Ruby com força contra meu corpo.
Ela resistiu, assustada.
— Ethan, você enlouqueceu?! — gritou, tentando olhar. — Vai se matar?!
Eu a empurrei para o banco traseiro do meu carro e me coloquei na frente, usando meu corpo como escudo.
— Fica abaixada, ruivinha.
— Para! — ela gritou, chorando. — Você vai morrer!
— Cala a boca e me deixa te salvar, pelo menos uma vez direito, amor.
Ela me acertou no braço, desesperada.
— Eu não sou teu amor!
Eu respirei fundo, sentindo o peito queimar.
— Me desculpa… razão da minha existência. — respondi, sem tirar os olhos dos carros que se aproximavam. — Melhor assim?
Ela não respondeu. Só soluçava, abraçando a própria barriga. Eu saquei a arma com calma. Minha mente entrou naquele lugar frio e calculado que eu conhecia desde muito jovem. O mundo ficou lento. Mudo.
Mirei no primeiro carro. O tiro acertou o tanque de gasolina.
A explosão veio imediata, violenta, jogando destroços para todos os lados. O segundo carro tentou frear, mas já era tarde. Ajustei a mira e atirei novamente.
Outra explosão.
O impacto sacudiu a rua inteira. Vidros estouraram. Pessoas gritaram. O cheiro de fumaça e metal queimado tomou o ar.
Eu não me mexi. Só voltei para o carro e me inclinei até Ruby, que tremia inteira.
— Olha pra mim. — pedi, segurando o rosto dela com cuidado. — Você está bem?
Ela chorava sem som, os olhos arregalados.
— Eu… eu achei que ia morrer…
— Não ia. — respondi firme. — Enquanto eu respirar, isso não acontece.
As sirenes chegaram de vez. Polícia, ambulância, tudo misturado. Alguns dos homens do primeiro ataque ainda estavam no chão. Um deles respirava com dificuldade, sangrando. Outro tentava se arrastar.
A polícia chegou rápido demais para que alguém fugisse. Algemas, gritos, ordens. Ruby saiu do carro amparada por um paramédico. Eu acompanhei, atento a cada movimento em volta.
Ela me olhou como se não soubesse onde eu começava e onde terminava o perigo.
— Você devia ter me deixado… — disse, a voz quebrada. — Eu não sou mais a senhora Storm.
Eu senti aquilo como uma facada.
— Nunca mais. — respondi sem pensar. — Eu não deixo mais ninguém tocar em você.
Ela respirou fundo, passando a mão pela barriga.
— Você não pode decidir isso.
— Posso decidir quem morre tentando. — rebati. — E logo meu sobrenome vai estar no seu de novo. É só questão de tempo.
Ela balançou a cabeça, perdida.
— Você não entende…
Antes que dissesse mais alguma coisa, ouvi passos apressados e uma voz que eu reconheceria até no inferno.
— Ruby!
Andrew atravessou o bloqueio policial quase derrubando um agente. O rosto dele estava branco de raiva e medo. Quando me viu ao lado dela, o controle dele foi embora.
— O que esse desgraçado está fazendo aqui? — gritou. — Eu tenho certeza que isso é culpa dele!
Eu dei um passo à frente, pronto pra responder à altura, mas Ruby foi mais rápida. Ela segurou o braço dele.
— Andrew… — pediu, chorando. — Ele me salvou.
Andrew travou. Olhou para ela, depois para mim, depois para os carros queimados.
— Salvou do quê? — perguntou, incrédulo.
Eu não me contive.
— Talvez se você tivesse homens suficientes cuidando dela, isso não teria acontecido. — falei, o sangue ainda quente. — Me culpar não vai mudar o fato de que ela quase foi levada debaixo do seu nariz.
Andrew avançou um passo, os punhos cerrados.
— E talvez se você soubesse amar sem destruir, ela não teria fugido de você. — rebateu. — Isso é culpa sua sim. Controle seus inimigos e diga que ela não faz mais parte da sua vida!
Eu ri sem humor.
— Você acha mesmo que eu consigo desligar isso aqui? — bati no peito. — Ela é minha desde antes de você saber o nome dela.
Ruby se colocou entre nós dois, erguendo as mãos.
— Chega! — gritou. — Chega os dois!
Ela estava pálida, tremendo, respirando com dificuldade.
— Eu estou viva. — disse, a voz firme apesar do medo. — E é isso que importa agora.
Andrew respirou fundo e a puxou para os braços com cuidado, como se ela pudesse quebrar. Senti ciúmes, raiva, despeito e dor.
— Você me deu dez anos de vida hoje. — murmurou, beijando o cabelo dela. — Nunca mais sai sem escolta reforçada.
Eu observei os dois. O jeito como ele a segurava. O jeito como ela se permitia descansar ali. Aquilo doeu. Doeu mais do que qualquer tiro que eu já levei.
Enquanto os policiais recolhiam os destroços e levavam os presos, senti algo me incomodar. Um arrepio estranho, o tipo que não vem do medo, mas da experiência.
Levantei o olhar.
Entre os curiosos, perto de uma viatura, vi uma mulher de cabelo loiro demais, óculos grandes, postura relaxada demais para alguém diante de uma cena daquelas.
Astrid. Ela estava sorrindo.
Não um sorriso aberto. Um sorriso satisfeito. Como quem assiste a um jogo que ainda não acabou. Nossos olhares se cruzaram por um segundo.
Ela inclinou a cabeça, como se me cumprimentasse. E então desapareceu entre as pessoas. Meu maxilar travou.
Andrew não percebeu. Ruby estava ocupada demais sendo examinada pelos médicos. Mas eu vi. E eu soube. Isso não era o fim.
Quando Andrew levou Ruby para a ambulância, eu fiquei para trás. Um policial se aproximou.
— Senhor, preciso do seu depoimento.
— Depois. — respondi. — Agora preciso fazer uma ligação.
Afastei-me alguns passos, peguei o celular e liguei para o meu homem mais antigo.
— Ela tentou de novo. — falei direto.
— “Astrid?”
— Sim. — respondi. — Quero todos os rastros dela. Onde dorme, com quem fala, quem paga, quem obedece.
— “Quer que a gente finalize?”
Fechei os olhos por um segundo, lembrando do olhar de Ruby quando quase foi arrancada de mim.
— Ainda não. — respondi. — Mas se ela chegar perto da Ruby mais uma vez… não vai sobrar nada pra enterrar.
Desliguei e observei a ambulância se afastar com as luzes ligadas. Eu tinha acabado de confessar, para mim mesmo, algo que tentei negar por tempo demais.
Eu não estava lutando por posse. Eu estava lutando por sobrevivência. Porque sem Ruby… eu já estava morto há muito tempo.
