Capítulo 60 Capítulo 60

Ruby

Eu não dormi.

Rolei de um lado para o outro da cama enquanto a madrugada avançava lenta demais, pesada demais. Andrew estava deitado ao meu lado, rígido, distante. Não me tocou. Não virou o rosto para mim. A respiração dele era controlada, como se cada inspiração fosse calculada para não transbordar algo que ele não queria mostrar.

O segurança contou. Contou tudo. Ethan tinha me beijado.

Mesmo que tivesse sido no meio do caos, do medo, do sangue e das sirenes, o beijo existiu. E agora queimava na minha mente como uma lembrança que eu não conseguia apagar.

Fechei os olhos e vi de novo.

A mão dele no meu rosto. O desespero. A urgência. O gosto familiar que meu corpo reconheceu antes da minha razão.

Senti Dustyn se mexer levemente, como se reagisse ao meu turbilhão interno. Levei a mão à barriga, tentando me acalmar.

— Desculpa, meu amor… — sussurrei no escuro.

Andrew se mexeu do outro lado da cama, virando-se de costas para mim. Aquilo doeu mais do que qualquer palavra.

Quando o dia clareou, eu já estava sentada na cama, abraçando os joelhos. Ele saiu do banheiro vestido, o rosto sério, os olhos fundos. Parou perto da janela, sem me olhar diretamente.

— Eu quero aumentar a segurança. — disse, a voz baixa, tensa.

Engoli em seco.

— Não precisa.

Ele virou o rosto devagar, finalmente me encarando.

— Precisa sim. — respondeu. — Você carrega meu filho, Ruby. Ou quer ser beijada por Ethan de novo?

A frase me acertou em cheio. Senti como se o ar tivesse sido arrancado dos meus pulmões.

— Não… — minha voz saiu fraca. — Não é isso.

Ele respirou fundo, passando a mão pelos cabelos, como se estivesse lutando para manter o controle.

— Eu não estou dizendo isso por ciúmes. — continuou. — Estou dizendo porque ele é perigoso. Porque ele não respeita limites. E porque qualquer brecha é tudo o que ele precisa.

Me levantei devagar e caminhei até ele.

— Eu sinto muito pelo beijo, Andrew. — falei, com os olhos ardendo. — Sinto por ter te magoado. Você não merece isso.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos que pareceram eternos. Depois, desviou o olhar novamente.

— Não pense mais nisso… — disse. — Não vou brigar com você por causa disso. Tenho certeza que é isso que ele quer. Criar conflito. Se aproximar mais de você. Eu não vou dar essa brecha.

A maturidade na voz dele me fez chorar.

— Andrew… — sussurrei.

Ele se virou e me abraçou. Não forte como antes. Não possessivo. Foi um abraço contido, cuidadoso, como se estivesse segurando algo frágil demais.

— Eu sei que você está confusa. — disse perto do meu ouvido. — Depois de tudo o que você passou… eu sei.

Minhas lágrimas molharam a camisa dele.

— Eu só quero viver essa nova vida com você. — confessei. — Com calma. Com paz. Eu quero ser só a Ruby que espera o nosso filho.

Ele levou a mão até minha barriga, sentindo Dustyn se mexer.

— Eu vou te dar isso. — garantiu. — Nem que pra isso eu tenha que enfrentar o inferno.

Aquilo me aqueceu por dentro. Mas não apagou o peso.

Mais tarde, Andrew saiu para resolver questões de segurança. A casa ficou silenciosa demais. Os seguranças estavam do lado de fora. Eu fiquei sozinha comigo mesma, o que às vezes é o lugar mais perigoso para se estar.

Fui até o banheiro e parei diante do espelho.

Meu rosto estava mais cheio por causa da gravidez. Os olhos, cansados. A mão foi direto para a barriga, num gesto automático.

— Você sente tudo isso também, né? — falei em voz baixa.

Encostei a testa no espelho e fechei os olhos.

O beijo voltou.

Não como desejo puro. Mas como memória. Como algo mal resolvido. Ethan sempre foi assim na minha vida, uma ferida que nunca fechava por completo.

— Eu odeio você, Ethan Storm. — sussurrei. — Odeio o que você fez comigo. Odeio o que você despertou em mim.

Abri os olhos e encarei meu reflexo.

— Mas parte de mim ainda te reconhece. — admiti, com vergonha. — E isso me assusta.

Sentei-me na poltrona do quarto e deixei o choro vir. Não era por amor. Era por tudo o que não foi. Pelo casamento frio. Pela solidão. Pela mulher que eu fui tentando agradar um homem que se recusava a me amar em voz alta.

E agora… ele aparecia quando já era tarde demais. O celular vibrou ao meu lado. Meu coração acelerou antes mesmo de eu olhar. Era uma mensagem de um número desconhecido.

— “Você está viva. Isso é tudo o que importa.”

Fechei os olhos por um instante. Não precisava de nome. Eu sabia. Digitei com os dedos trêmulos.

— “Isso não muda nada, Ethan. Eu escolhi seguir em frente.”

A resposta veio rápido demais.

— “Eu sei. Mas não vou fingir que não existo dentro de você.”

Suspirei fundo.

— “Você precisa ir embora da minha vida.”

Alguns segundos se passaram. Quando a mensagem chegou, meu peito apertou.

— “Eu já fui embora uma vez. E te deixei sozinha. Não repito esse erro.”

Bloqueei o número.

Joguei o celular longe e me levantei, andando pelo quarto, inquieta. Dustyn se mexeu forte, como se sentisse minha agitação.

— Calma… — pedi, acariciando a barriga. — A mamãe vai proteger você.

Mas a verdade era dura, eu estava dividida entre o que fui, o que sou e o que preciso ser. Andrew voltou no fim da tarde. Trouxe flores. Não rosas vermelhas. Eram brancas.

— Pra você. — disse, simples.

— Obrigada. — respondi, com um sorriso pequeno.

Ele me beijou a testa e sentou ao meu lado.

— Os homens vão dobrar a vigilância. Não é negociável. — falou. — Mas isso não muda nada entre nós.

— Eu sei. — respondi. — Eu confio em você.

Ele segurou minha mão.

— E eu confio em você. Mesmo com medo.

Isso me partiu por dentro e me colou ao mesmo tempo.

À noite, deitada novamente ao lado dele, senti o braço de Andrew passar pela minha cintura. Um gesto carinhoso, mas cheio de significado.

Fechei os olhos.

O beijo de Ethan ainda estava lá. Como uma cicatriz recente. Mas também estava ali a promessa de Andrew. O futuro. O filho que crescia dentro de mim.

Entre passado e presente, eu precisava escolher todos os dias. E naquela noite, mesmo confusa, eu escolhi ficar.

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