Capítulo 61 Capítulo 61

Ruby

Eu comecei a perceber antes mesmo de querer admitir.

Andrew sempre foi intenso. Trabalhou demais a vida inteira, dormiu pouco, carregou responsabilidades grandes demais para um homem só. Mas o que eu via agora não era apenas cansaço. Era algo diferente. Algo que não combinava com ele.

Ele chegava em casa no fim da tarde com os ombros caídos, o rosto pálido demais, os olhos fundos. Ainda sorria para mim, ainda me beijava a testa, ainda perguntava como eu estava. Mas era um sorriso que parecia colado à força, como se ele precisasse se lembrar de sorrir.

— Eu estou bem, amor. — repetiu pela terceira vez naquela semana, quando perguntei. — Só dormi pouco e trabalhei demais.

Eu assenti, mesmo sem acreditar.

Naquele dia, durante o jantar, percebi que ele mal tocou na comida. Empurrou o prato devagar, bebeu água demais, respirou fundo algumas vezes como se o ar não fosse suficiente.

— Andrew… — falei com cuidado. — Você quase não comeu.

— Não estou com fome. — respondeu rápido demais.

— Isso não é normal pra você.

Ele sorriu pequeno e segurou minha mão por cima da mesa.

— Não quero te preocupar. — disse. — Promete que vai pensar só no Dustyn, tá?

Meu coração apertou.

— Mas você não parece bem.

Ele respirou fundo, como se escolhesse cada palavra.

— Eu sou apenas um ser humano, ruivinha. — falou, tentando brincar. — Meu corpo exige cuidados às vezes. É só isso.

Forcei um sorriso, mas por dentro algo gritava que não era só isso.

Mais tarde, quando ele já estava dormindo, fiquei sentada na beira da cama observando seu rosto. A respiração estava pesada, irregular. A testa brilhava levemente de suor.

Estendi a mão devagar e toquei seu rosto.

Quente demais.

— Andrew… — sussurrei, com medo de acordá-lo. — Você está mentindo pra mim?

Ele se mexeu um pouco, murmurou algo inaudível e virou de lado. Fiquei ali, olhando, sentindo um nó se formar no meu peito.

Dustyn se mexeu forte dentro de mim, como se sentisse minha angústia. Levei a mão à barriga e respirei fundo, tentando me acalmar.

— Vai ficar tudo bem. — falei mais para mim do que para ele.

Na manhã seguinte, Andrew parecia outro homem.

Acordou antes de mim, abriu a janela, deixou o sol entrar. Quando me levantei, ele estava deitado com a cabeça próxima à minha barriga, sorrindo enquanto sentia os movimentos do bebê.

— Bom dia, campeão. — falou baixo. — Dormiu bem?

Dustyn respondeu com um chute forte, e Andrew riu.

— Viu só? Ele já gosta de conversar comigo.

— Hoje você parece melhor. — observei.

— Dormi como uma pedra. — respondeu. — Acho que você tinha razão, eu precisava descansar.

Quis acreditar.

Durante o café, ele estava mais animado, contou uma história boba do trabalho, me fez rir. Por alguns minutos, senti que talvez eu estivesse exagerando. Gravidez deixa a gente mais sensível, mais alerta. Talvez fosse só isso.

— Temos consulta hoje, lembra? — falei.

— Claro que lembro. — respondeu. — Não perderia isso por nada.

No caminho até a clínica, tudo parecia normal demais. O trânsito fluía, o céu estava limpo, Andrew dirigia com uma mão no volante e a outra segurando a minha.

Mas foi quando paramos em um sinal que senti algo estranho.

Olhei pelo retrovisor e vi um homem parado na calçada. Usava boné baixo, óculos escuros, o corpo virado levemente para o nosso carro. Não parecia um pedestre comum. Estava… atento.

— Andrew… — murmurei.

— O que foi?

Quando olhei de novo, o homem já não estava mais lá.

— Nada. — respondi, engolindo seco. — Acho que foi impressão.

Ele apertou minha mão.

— Está tudo bem. — garantiu. — Você anda muito tensa.

Talvez ele estivesse certo. Mesmo assim, levei a mão à barriga num gesto de proteção.

— Ninguém vai te tirar de mim, Dustyn. — sussurrei.

Na clínica, o médico sorriu ao nos ver entrar.

— Como a futura mamãe está hoje?

— Um pouco cansada. — respondi.

— Normal nessa fase. — disse ele. — E o papai?

Andrew abriu um sorriso bonito, mas vi o médico observá-lo com atenção por alguns segundos a mais do que o normal. E decidiu verificar a pressão de Andrew.

— Pressão um pouco alta. — comentou depois de medir. — Andando muito estressado, senhor Sinclair?

— Coisa de trabalho. — respondeu Andrew, com naturalidade. — Nada fora do comum.

O médico assentiu, mas anotou algo no prontuário.

O exame correu bem. Dustyn estava forte, ativo, com o coração batendo firme. Aquilo me deu um pouco de paz.

— Está tudo ótimo com o bebê. — disse o médico. — Mas quero que a senhora continue evitando estresse.

Andrew passou o braço pelos meus ombros.

— Eu cuido disso. — garantiu.

No caminho de volta para casa, o silêncio se instalou no carro. Andrew parecia concentrado demais na estrada, as mãos firmes no volante.

— Você promete que vai me contar se não estiver bem? — perguntei, quebrando o silêncio.

Ele respirou fundo antes de responder.

— Prometo.

Mas algo na voz dele me fez duvidar.

Quando chegamos em casa, Andrew subiu para tomar banho. Fiquei na sala, sentada no sofá, olhando pela janela. O jardim estava tranquilo demais. Bonito demais.

Foi então que vi um carro parado do outro lado da rua. Preto. Vidros escuros.

Meu estômago revirou.

Piscar de olhos. O carro ligou e saiu devagar, como se nunca tivesse estado ali.

— Isso não é normal… — sussurrei.

Subi para o quarto pensando em tudo que aconteceu nos últimos dias. Andrew saiu do banho com uma toalha no pescoço.

— O que foi?

— Nada. — respondi rápido demais. — Só… cansaço.

Ele me observou por alguns segundos, como se quisesse dizer algo, mas acabou apenas me abraçando.

— Vem deitar um pouco. — sugeriu. — Descansa comigo.

Deitei ao lado dele e senti seu braço ao meu redor. O coração dele batia forte. Rápido demais. Fechei os olhos, tentando ignorar os sinais, tentando acreditar que tudo ficaria bem.

Mas dentro de mim, a inquietação não ia embora. Algo estava se aproximando. E eu sentia que o tempo estava correndo contra nós.

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