Capítulo 62 Capítulo 62

Andrew

Eu acordei antes do despertador tocar.

O peito ainda estava estranho, pesado, como se algo estivesse pressionando por dentro. Não era exatamente dor. Era uma sensação constante, incômoda, que eu vinha ignorando há semanas. Levantei devagar para não acordar Ruby e fiquei alguns segundos sentado na beira da cama, respirando fundo.

— Aguenta mais um pouco coração idiota. — sussurrei para mim mesmo.

Olhei para ela dormindo, a mão pousada sobre a barriga grande, protegendo Dustyn mesmo enquanto sonhava. Aquela imagem sempre me dava força. Era por eles que eu continuava.

Tomei banho rápido, me vesti e desci sem fazer barulho. O motorista já me esperava.

— Consultório do doutor Michael. — avisei.

O trajeto foi quieto. A cidade ainda estava acordando, e eu aproveitei aquele tempo para tentar organizar os pensamentos. Ruby estava desconfiada. Eu via nos olhos dela. Mas eu não podia contar. Não agora. Não quando ela já carregava tanto peso emocional.

O consultório era o mesmo de sempre. Limpo, organizado, cheiro de álcool e café forte. A secretária sorriu ao me ver.

— Bom dia, senhor Sinclair. O doutor já vai atendê-lo.

Assenti e me sentei. Passei a mão pelo peito sem perceber. A sensação de pressão voltava em ondas.

— Senhor Sinclair? — a secretária chamou.

Entrei no consultório e encontrei Michael em pé, folheando meu prontuário. Ele levantou os olhos e franziu levemente a testa.

— Você parece pior, Andrew.

— Só estou cansado. — respondi, sentando. — Trabalho demais, pouco descanso.

Ele se aproximou, colocou o estetoscópio no meu peito, pediu que eu respirasse fundo. O silêncio se alongou mais do que o normal.

— Está se alimentando direito? — perguntou, enquanto anotava algo.

— Sim. — menti. — Ruby não me deixa pular refeições.

Ele sorriu de canto, mas não pareceu convencido.

— E o sono?

— Irregular.

— Estresse?

— Sempre. — respondi, dando de ombros.

Michael se afastou e abriu um pequeno armário. Pegou uma seringa e começou a preparar a injeção com movimentos tranquilos, experientes.

— Vamos fazer um reforço vitamínico. — disse. — Vai te ajudar a recuperar energia, fortalecer o organismo.

— Isso resolve essa sensação estranha no peito? — perguntei.

— Ajuda bastante. — respondeu rápido demais. — Confie em mim.

Confiei. Sempre confiei. Ele limpou meu braço com algodão e álcool.

— Pode arder um pouco.

A agulha entrou, e eu senti um leve ardor, nada fora do normal. O líquido foi injetado devagar. Uma sensação fria percorreu meu braço.

— Pronto. — disse ele, retirando a agulha. — Em algumas horas você vai se sentir melhor.

— Ótimo. — respondi. — Preciso estar bem.

— Por causa do bebê, eu sei. — ele completou.

— Por causa da minha família. — corrigi.

Michael assentiu, mas havia algo no olhar dele que me incomodou. Um brilho estranho. Algo que não consegui decifrar.

— Continue evitando esforços exagerados. — orientou. — E nada de contar preocupações desnecessárias para sua esposa.

— Não pretendo. — garanti. — Ela já carrega peso demais.

Saí do consultório sentindo uma leve tontura, mas ignorei. Entrei no carro e pedi para voltar direto para casa.

No caminho, a tontura aumentou. Minha visão embaçou por alguns segundos, e precisei fechar os olhos.

— Senhor Sinclair? — o motorista perguntou pelo retrovisor. — Está tudo bem?

— Sim. — respondi, respirando fundo. — Só… calor.

Quando cheguei em casa, mal consegui subir os degraus da entrada. O chão parecia instável.

— Andrew?

A voz de Ruby veio carregada de preocupação. Ela apareceu na porta, pálida, assustada.

— O que aconteceu? — perguntou, correndo até mim.

— Nada demais. — tentei sorrir. — Só uma tontura.

Ela segurou meu rosto com as duas mãos.

— Você está pálido.

— Amor, está tudo bem. — insisti.

Mas minhas pernas fraquejaram, e ela teve que me apoiar para que eu não caísse.

— Meu Deus, Andrew. — disse, aflita. — Vem, senta.

Ela me ajudou a deitar no sofá, ajeitou almofadas, trouxe água. Sentou-se ao meu lado e começou a acariciar meus cabelos, como fazia quando eu estava sobrecarregado.

— O que o médico disse? — perguntou.

— Que eu preciso descansar mais. — respondi. — E me deu uma vitamina.

— Só isso?

— Só isso. — menti novamente.

Ela me observou em silêncio por alguns segundos, os olhos marejados.

— Você promete que se sentir mal de novo vai me deixar te levar ao médico? — pediu, a voz baixa.

Olhei para ela. Para o ventre grande. Para a vida que crescia ali.

— Prometo, meu amor. — respondi.

Ela respirou aliviada, mas ainda não parecia convencida.

— Você me assusta quando faz isso. — confessou. — Eu preciso de você.

Passei a mão pelo rosto dela.

— E eu preciso de você sorrindo pra mim amanhã. — falei, tentando brincar. — Promete?

Ela soltou um riso fraco.

— Você é impossível.

— E completamente teu. — respondi, inclinando-me com esforço para beijar a barriga dela.

Dustyn respondeu com um movimento forte, e Ruby sorriu apesar das lágrimas.

— Ele sabe que você está aqui. — disse ela. — Ele sente você.

Fechei os olhos por alguns segundos, sentindo o peso no peito aumentar, mas não disse nada. Não podia estragar aquele momento.

— Descansa. — pediu ela. — Eu fico aqui.

— Fica comigo. — pedi.

Ela se acomodou ao meu lado, a cabeça apoiada no meu ombro, a mão sobre o próprio ventre. Fiquei ali, sentindo o cheiro dela, o calor do corpo dela, tentando ignorar a tontura que insistia em voltar.

Horas depois, acordei com o sol já baixo no céu. Ruby dormia sentada ao meu lado, exausta. Observei seu rosto sereno e senti uma pontada de culpa atravessar o peito.

— Me perdoa. — sussurrei.

Levantei com cuidado e fui até a janela. O jardim estava quieto. Bonito. Tranquilo demais. A sensação no peito voltou mais forte dessa vez. Precisei me apoiar no vidro por alguns segundos.

— Não vou desistir. — murmurei. — Ainda não. Sou teimoso o suficiente para ver pelo menos o rosto do meu filho.

Voltei para perto dela e a cobri com uma manta. Antes de sair da sala, olhei mais uma vez para minha esposa e para o ventre que carregava meu filho.

— Eu vou ficar mais tempo por aqui, ruivinha. — prometi em silêncio. — Mesmo que isso me custe tudo.

Sem saber que, naquele mesmo momento, algo já estava sendo roubado de mim. Pouco a pouco. Em silêncio.

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