Capítulo 63 Capítulo 63
Ethan
O bar da mansão Storm estava escuro, com uma única luz sobre a bancada. Eu fiquei ali, encarando o copo, sem pressa de beber, como se o gelo derretendo pudesse levar embora a imagem de Ruby sendo puxada no meio do trânsito.
— Eu devia ter ficado longe. — falei para o vazio.
Mas era mentira. Eu não conseguia. Desde a tentativa de sequestro, eu não dormia direito. Quando fechava os olhos, via o vidro estourando, o grito dela, a mão indo instintivamente para a barriga. E eu chegando tarde… mesmo tendo chegado.
A porta abriu sem barulho. Miguel entrou, sério, impecável, como se o mundo queimasse lá fora.
— Don, os homens já estão nos pontos. — informou.
— Ela saiu hoje? — perguntei.
— Saiu cedo. Pequenos trajetos. Em alguns, o pessoal do Sinclair relaxou.
Meu maxilar travou.
— Relaxaram com ela grávida?
— Sim, senhor.
Eu apoiei o copo na bancada com força.
— Então compensa. Quero dois carros no perímetro da mansão, e dois na rota da clínica. E você fica perto dela, mas sem aparecer.
Miguel assentiu.
— E o Sinclair? — perguntou.
Aquele nome arranhava meu peito.
— Deixa ele. — respondi, seco.
Miguel não se convenceu.
— Ele está pálido. Tem dias que parece que vai cair.
— Não é problema meu. — cortei, mesmo sabendo que era.
O telefone vibrou. Mensagem curta de um dos meus homens.
— “Ela saiu agora. Restaurante coreano. Só com o motorista e um segurança do Sinclair.”
Meu corpo levantou antes da cabeça decidir. Liguei imediatamente para ele.
— Fica no perímetro. — falei ao homem, já me preparando para sair. — Não entra em ação sem meu sinal.
Desliguei, peguei o casaco e a arma. Não por coragem. Por hábito. Por instinto.
O restaurante coreano era pequeno, aconchegante, cheio de conversas baixas e cheiro de comida quente. Eu estacionei longe, observei o carro dela parar e Ruby descer com cuidado. Ela estava de rosa, o ventre redondo marcando o tecido, uma mão apoiando a barriga como se já fosse mãe há anos.
Meu peito apertou com uma raiva que eu não sabia para quem era: para o mundo, para Andrew, para mim.
Entrei.
Ruby estava num canto. O motorista aguardava ao fundo, de olho na porta. O segurança do Sinclair se mantinha do lado de fora, fingindo olhar o celular.
Eu parei a dois passos dela, para que ela me visse sem eu invadir. O olhar dela subiu para mim, e tudo nela endureceu.
— Você? Aqui? — a voz saiu baixa, mas cortante.
— Eu não vim causar cena. — respondi.
— Então por que veio? — ela perguntou, empurrando o prato de leve. — Você não desiste.
— Não. — falei, direto.
Ruby soltou o ar, como se segurasse a vontade de gritar.
— Ethan, você está passando de todos os limites.
— Eu sei. Mas eu também sei que alguém tentou te levar. E vai tentar de novo.
Ela riu sem humor.
— Você falando isso é quase cruel.
Eu me sentei na cadeira em frente, sem tocar nela.
— Eu estou te protegendo, ruiva. Você querendo ou não.
— Eu não pedi sua proteção. — ela respondeu. — Para mim isso é desculpa pra você não sumir.
— Eu não preciso de permissão para manter viva a mulher que eu amo.
O olhar dela vacilou por um segundo, como se aquela frase puxasse um fio antigo. Depois ela cortou o fio com força.
— Vou dizer mais uma vez… eu sou casada, Ethan.
— Eu sei. E isso não muda o fato de que tem gente rondando você.
Ruby se levantou.
— Eu vou embora.
Eu segurei a mão dela, só o suficiente para pedir atenção, sem apertar.
— Um minuto. Só isso.
Ela ficou parada, respirando pesado, irritada com ela mesma por ainda me escutar.
— Fala.
Eu olhei ao redor. Lugar cheio, gente normal, mundo normal. O nosso era outro.
— Astrid está no meio. — eu disse. — E tem mais alguém. Não é da minha gente. Não é do Sinclair.
Ruby empalideceu.
— Como você sabe?
— Porque eu conheço meus métodos. — respondi. — Se fosse meu, eu teria percebido antes de acontecer. Não percebi.
Ela engoliu seco e baixou a mão para a barriga, automática.
— Então por que está me dizendo isso?
— Porque eu vi o que acontece quando você fica no meio de fogo cruzado. — falei, sem conseguir disfarçar a tensão. — E eu não vou assistir de novo.
Ruby puxou a mão de volta, com cuidado.
— Você não tem o direito de aparecer e despejar medo em mim.
— Eu sei. — admiti. — Mas se eu te perder de novo…
A frase morreu na minha garganta. Eu odiei a fraqueza, mas foi verdade.
— Eu não sobrevivo, Ruby.
Ela me encarou, e por um segundo eu vi a antiga Ruby, aquela que tentava entender minhas distâncias quando era tarde demais. Depois ela virou o rosto.
— Não coloca isso nas minhas costas. Eu já tenho o Dustyn.
Eu assenti, porque ela tinha razão.
— Eu não estou te pedindo nada. Só estou avisando.
Ruby respirou fundo, tentando se recompor.
— Andrew está cuidando de mim. — ela disse. — Ele me ama.
A frase doeu, mas eu não briguei com ela. Eu apenas aceitei o golpe, porque eu merecia.
— Então deixa ele cuidar. — respondi. — E deixa eu ficar no fundo, garantindo que ninguém chegue perto.
— Você nunca fica no fundo. — ela rebateu. — Você sempre vira problema.
— Eu sou o problema. — concordei. — E, mesmo assim, eu ainda posso impedir um pior.
Ruby ficou em silêncio por alguns segundos. Então falou, cansada:
— Vai embora. Por favor.
Eu levantei sem discutir. Peguei do bolso uma cruz de prata pequena, antiga, simples. Coloquei sobre a mesa.
— Leva com você. É da minha família. Não é charme. É sorte.
Ruby olhou para a cruz, como se fosse uma coisa que queimasse.
— Eu não quero nada seu.
— Eu quero que você viva. Só isso.
Ela pegou a cruz com a ponta dos dedos e fechou a mão, sem olhar para mim.
— Agora vai.
Eu dei um passo para trás.
— Come direito. Descansa. E não sai sem segurança. — falei rápido, antes que eu me arrependesse.
— Cuida da sua vida. — ela respondeu, mas a voz falhou.
— Eu estou cuidando. — devolvi. — Do jeito que eu sei.
Saí.
Lá fora, o frio bateu no meu rosto. Miguel apareceu do lado do carro, atento.
— Don, tinha um homem observando do outro lado. Sumiu quando o senhor entrou.
Meu sangue gelou.
— Descreve.
— Magro, alto, boné escuro, jaqueta preta. Não é nosso. E não é do Sinclair.
Eu respirei fundo para não sair caçando no meio da rua.
— Dobra a atenção hoje. — ordenei. — E se ele voltar, vocês seguem. Sem que ninguém veja… elimine.
Miguel assentiu.
Eu entrei no carro e esperei.
Ruby saiu alguns minutos depois, escoltada pelo motorista e pelo segurança. Eu não me mostrei. Apenas observei ela entrar com cuidado, uma mão na barriga, a outra fechada em volta da cruz.
Eu segui o carro dela a distância. Não por ciúme. Por instinto. Porque, se alguém tentasse tocar nela de novo, eu queria ser o primeiro a ver.
E o primeiro a responder.
No caminho, meu telefone tocou. Número restrito. Atendi no viva-voz.
— “Don, aqui é o Léo. Tem movimentação estranha perto do portão da mansão Sinclair. Um carro sem placa parou duas vezes e foi embora.”
— Marca o modelo. — ordenei. — E não encosta. Só registra.
— “E se voltar?”
— Segue. E me liga na hora.
Desliguei e apertei o volante, com a culpa subindo. Lembrei do início do meu casamento: Ruby tentando se aproximar, oferecendo carinho, e eu virando o rosto, fingindo que não precisava. Eu me escondi atrás de “negócio” porque tinha medo de amar de verdade. Medo de precisar dela.
Agora eu via aquela barriga de longe e entendia o tamanho do estrago.
Quando o carro dela entrou na rua da mansão, eu parei mais atrás e observei. Miguel estava no banco de trás.
— Ela entrou. — ele disse.
— Bom.
— Vai fazer o quê agora, Don?
Eu engoli seco.
— Proteger sem exigir nada em troca. — respondi.
Miguel hesitou.
— E se o Sinclair descobrir que o segundo segurança é nosso outra vez?
— Ele vai querer guerra. — falei. — Então a gente luta, mas longe dela.
Dei a volta no quarteirão, já montando o tabuleiro na cabeça. A ruiva podia me odiar. Podia me expulsar do mundo dela.
Eu ainda ia manter ela viva.
E, se o inimigo fosse alguém usando rosto emprestado e jaleco limpo, eu ia achar. Eu ia puxar fios, abrir gavetas, quebrar portas. Eu podia ter sido um marido ruim, mas como sombra eu era perfeito. Para ela, para Dustyn, para pagar meus pecados.
