Capítulo 64 Capítulo 64

Ruby

Eu disse a mim mesma que aquele encontro no restaurante tinha sido só um susto. Um pedaço do passado tentando voltar. Mas a verdade é que ficou preso na pele, no peito, no jeito como meu coração acelerava do nada.

A cruz de prata estava no bolso do meu roupão desde que saí do restaurante. Eu não sabia por quê. Só sabia que, quando meus dedos tocavam o metal frio, eu me sentia um pouco menos sozinha. E isso me irritava, porque eu não queria que Ethan Storm tivesse nenhum poder sobre mim. Nem como lembrança, nem como proteção.

Andrew entrou no quarto com uma sacola de loja de bebê e um sorriso um pouco sem brilho, mas sincero. Colocou tudo na cama e me olhou como se eu fosse a coisa mais preciosa que ele já teve.

— Está tudo bem? — perguntou.

Eu forcei um sorriso.

— Sim… só estou pensando no que ainda falta para comprar para a chegada do Dustyn.

Ele passou o dedo na minha bochecha, leve, cuidadoso.

— Você está longe. Eu te chamei duas vezes.

— Desculpa. Eu estava fazendo uma lista na cabeça.

— Então faz em voz alta — ele disse, brincando. — Eu vou anotando.

Eu ri, mesmo sem vontade. Andrew tinha esse dom, pegava a parte pesada do mundo e deixava um pouco mais leve só por existir perto de mim.

Ele veio por trás, me envolveu sem pressionar a barriga, e a mão dele repousou no meu ventre.

— O Dustyn mexe mais quando você fica assim — ele falou no meu ouvido.

— Assim como?

Ele beijou meu pescoço, devagar, e eu senti o arrepio subir.

— Pensativa. Com essa carinha de quem está carregando o mundo nos ombros.

Eu ri de verdade dessa vez.

— Acho que ele reconhece sua voz — eu disse, tocando a mão dele. — E seu jeito de grudar em mim.

— Ele puxou a mãe — Andrew respondeu, rindo baixo.

O bebê se mexeu e eu prendi o ar.

— Viu? Ele fez de propósito.

Andrew encostou a testa na minha nuca.

— Ei, campeão — ele falou para a minha barriga. — Dá mais um chute pro teu pai saber que você está aí.

O movimento veio de novo, forte, e eu dei um pequeno grito.

— Aí!

— Ele é perfeito — Andrew disse, e eu senti o peito apertar.

Perfeito. A palavra me trouxe de volta ao que eu vinha tentando ignorar: Andrew estava diferente. Pálido, sem fome, sorrindo com esforço.

Eu fui para o banheiro tomar banho para aliviar a cabeça. Andrew entrou comigo, ajustou a água e me deu um beijo rápido.

— Vou buscar toalhas limpas — avisou.

Fiquei sozinha no vapor e tentei relaxar. Foi quando ouvi um barulho do lado de fora do box, como se ele tivesse batido em algo.

— Andrew? — chamei.

Silêncio por um segundo. Depois a voz dele, alta demais:

— Está tudo bem!

Só que não soou bem. Soou apertado. Como se ele estivesse se segurando em alguma coisa.

Eu desliguei o chuveiro na hora e abri a porta do box, ainda pingando.

Andrew estava de costas, com as duas mãos no vidro, respirando devagar. O rosto pálido, os olhos perdidos por um instante.

— Andrew! O que foi?

Ele virou com um sorriso rápido, falso.

— Nada, ruivinha. Só senti o coração correr um pouco. Deve ser o calor.

Eu encostei a mão no peito dele. As batidas estavam aceleradas, irregulares.

— Você está tremendo.

— Eu estou bem — ele insistiu. — Olha pra você. Molhada, com frio. Vem, antes que pegue uma gripe.

Eu segurei os braços dele.

— Você tem que parar de falar isso. “Estou bem” não explica esse suor.

Andrew passou a mão no rosto, cansado.

— Eu te prometi que não ia te preocupar.

— E eu não te pedi essa promessa — eu respondi, sentindo a garganta fechar. — Eu pedi a verdade.

Por um segundo, eu pensei que ele ia ceder. Mas ele respirou fundo e escolheu o sorriso outra vez.

— Eu só preciso dormir mais. Você já passou por tanta coisa… eu não posso virar mais um motivo pra você ter medo.

Eu peguei uma toalha e sequei o rosto dele com cuidado.

— Você não é um motivo. Você é a minha casa. E se a casa estiver rachando, eu preciso saber.

Ele segurou meu pulso e beijou minha mão.

— Amanhã eu descanso. Fico o dia inteiro com você. Sem reuniões. Sem escritório. Só nós três.

— Promete?

— Prometo. E pro Dustyn também.

Eu deixei passar. Não porque eu acreditei. Mas porque eu não queria brigar ali, com o bebê quieto como se pedisse paz.

Mais tarde, na cama, Andrew me abraçou por trás, forte, como se quisesse me prender ao peito dele.

— Desculpa por te assustar — ele falou.

— Você me assusta quando finge — eu respondi.

Ele ficou quieto. Eu senti o cansaço me derrubar.

No meio da noite eu acordei e toquei a testa dele. Quente demais. Suor frio. Respiração pesada. Eu fiquei olhando o rosto dele e o medo cresceu.

— Andrew… você está mentindo pra mim? — eu perguntei bem baixo.

Ele não respondeu. Estava dormindo. Ou fingindo. Eu não sabia.

De manhã, ele acordou com um ânimo estranho, como se nada tivesse acontecido. Fez café, colocou música baixa, falou do quarto do Dustyn como se a vida fosse só isso.

Quando ele entrou no escritório para uma reunião rápida, eu fiquei na sala com o celular na mão. Lembrei do nome do médico que ele tinha citado uma vez: doutor Michael. Eu tinha anotado por instinto. Agora eu tinha o número.

Meu coração bateu acelerado quando eu disquei.

— “Clínica do doutor Michael, bom dia.”

Eu engoli seco.

— Eu sou a esposa de Andrew Sinclair.

Houve um silêncio curto.

— “Ah, sim. Ele está bem, senhora Sinclair… apenas sob observação.”

Meu estômago virou.

— Observação de quê?

— “Apenas cuidados gerais” — a voz respondeu rápido demais. Ensaiada demais. — “Rotina, exames preventivos.”

Eu apertei o celular com força.

— Ele recebeu alguma medicação na última vez que esteve ai? Alguma injeção?

— “A senhora está preocupada. É normal…”

— Eu não perguntei isso — eu cortei. — Eu perguntei o que está acontecendo.

Mais um silêncio. E a mesma frase, como se fosse uma gravação:

— “Apenas cuidados gerais, senhora.”

Eu senti a mentira como um tapa.

— Eu quero falar com o doutor Michael.

— “Ele está em procedimento no momento.”

— Então eu vou passar aí ainda hoje.

— “Não é necessário… o senhor Sinclair pediu discrição.”

Discrição. A palavra caiu como uma pedra.

— Ele pediu, ou vocês estão me impedindo? — eu perguntei.

— “Senhora, por favor…”

Eu desliguei.

Fiquei com o celular na mão e senti o bebê mexer, como se respondesse ao meu nervosismo. A cruz de prata estava no bolso do meu vestido. Eu toquei nela sem pensar, e odiei de novo.

Eu odiei precisar de qualquer coisa que me lembrasse Ethan Storm.

Mas, naquele instante, o que eu mais odiei foi a certeza de que Andrew estava se afundando em algo e tentando me manter sorrindo em cima de uma mentira.

Andrew saiu do escritório no fim da tarde e me encontrou na varanda, olhando o jardim sem realmente ver nada. Ele trouxe uma caneca de chá e colocou na minha mão como se fosse um remédio.

— Você está quieta demais — ele disse.

— Estou pensativa — respondi, e foi metade verdade.

Andrew sentou ao meu lado e respirou fundo.

— Eu sei que você tem medo — ele falou. — Por tudo que aconteceu. Por ele. Por Astrid.

Eu engoli seco.

— “E por você” — eu pensei, mas não disse.

Ele pegou minha mão e levou até o peito dele, como se quisesse me provar alguma coisa.

— Está vendo? Estou aqui. Eu sou forte. — A voz dele falhou no final, quase imperceptível.

Eu senti a batida. Não estava normal. E ele percebeu que eu percebi, porque tirou minha mão rápido e beijou meus dedos.

— Não faz essa cara, ruivinha — ele pediu. — Hoje eu só quero te ver em paz.

— Você foi ao médico de novo? — perguntei, direta.

Andrew hesitou um segundo. Um segundo só. O suficiente para doer.

— Foi só uma consulta de rotina — respondeu. — Nada demais.

Eu não discuti. Só encostei a cabeça no ombro dele e fingi que aceitava. Porque eu entendi, ele não escondia por maldade. Ele escondia por amor. E isso me deixou ainda mais assustada.

Eu respirei fundo, tentando ser forte, tentando ser mãe.

— Tem alg

uma coisa muito errada — eu falei para mim mesma. — E eu vou descobrir.

Dustyn se mexeu de novo, forte, como um aviso. Eu coloquei a mão sobre a barriga, firme, e decidi… eu não ia esperar o pior bater na minha porta.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo