Capítulo 65 Capítulo 65
Andrew
Acordei com a sensação de que algo estava errado antes mesmo de abrir os olhos. Não foi um pensamento, foi o corpo avisando. Um aperto no peito, profundo, pesado, como se alguém tivesse colocado a mão ali dentro e fechado os dedos devagar. Respirei fundo, mas o ar não veio como deveria. Veio curto. Insuficiente.
Abri os olhos com esforço e encarei o teto do quarto. A luz da manhã começava a entrar pelas frestas da cortina. Olhei para o relógio na mesa de cabeceira.
05:57.
Ruby ainda dormia, abraçada a mim, a cabeça apoiada no meu peito. A mão dela estava sobre o ventre, protegendo nosso filho mesmo dormindo.
Passei os dedos pelo cabelo dela com cuidado, como se qualquer movimento brusco pudesse acordá-la… ou quebrar aquele momento.
— Se eu cair, você continua… — sussurrei, tão baixo que talvez nem eu tenha ouvido direito. — Promete?
Ela se mexeu levemente, mas não acordou. O rosto tranquilo, sereno. A imagem de alguém que confia completamente em quem está ao lado. Isso me atingiu mais forte do que a dor no peito.
Com cuidado, me desvencilhei do abraço dela e coloquei os pés no chão. O quarto girou por um segundo. Fechei os olhos, respirei fundo outra vez.
— Não agora… — falei, mais uma vez. — Por favor, não agora.
Caminhei até o banheiro apoiando a mão na parede. Cada passo parecia exigir mais esforço do que o normal. Quando cheguei à pia, me inclinei para frente e apoiei as duas mãos no mármore frio.
Foi ali que o mundo quase apagou.
A tontura veio forte, repentina. As luzes pareceram distantes. O coração disparou descompassado, como se estivesse perdido dentro do próprio peito. O suor brotou na testa, nas costas, no pescoço.
Levantei o rosto e encarei meu reflexo no espelho.
Pálido. Olheiras fundas. Os olhos cansados demais para alguém que deveria estar no auge da própria felicidade.
— Droga… — falei, respirando com dificuldade. — Droga… para, por favor. Só… para.
Molhei o rosto com água fria, várias vezes, até a sensação diminuir um pouco. Endireitei a postura, forcei os ombros para trás e ensaiei um sorriso no espelho. O mesmo sorriso que eu vinha usando há semanas.
O sorriso que dizia “está tudo bem” quando claramente não estava. Quando Ruby apareceu na porta do banheiro, eu já tinha me recomposto o suficiente para enganar.
— Andrew! — ela falou assustada ao me ver. — Você está suando de novo!
— É só a pressão — respondi rápido demais. — Nada demais.
Ela se aproximou e tocou meu rosto.
— Você está gelado… e quente ao mesmo tempo. Isso não é normal.
— Amor… — segurei a mão dela e beijei os dedos. — Eu prometo que estou bem. Deve ser ansiedade. Eu acordo pensando em tudo que ainda tenho pra resolver antes do Dustyn nascer.
Ela me encarou por alguns segundos, como se quisesse atravessar a minha resposta.
— Você não precisa carregar tudo sozinho.
— Eu sei — respondi. — Mas eu quero.
Ela suspirou, claramente insatisfeita, mas não insistiu. Ainda.
Mais tarde, enquanto ela se arrumava para a consulta de rotina do pré-natal, eu sentei na cama tentando recuperar o fôlego. Cada movimento parecia um lembrete de que algo estava errado, mas eu empurrava isso para longe.
Eu precisava estar inteiro. Pelo menos por mais um tempo.
— Você não precisa ir comigo hoje — Ruby disse, ajustando o vestido. — Pode descansar.
— Nem pensar — respondi, levantando com cuidado. — Eu faço questão.
Ela sorriu, daquele jeito que me desmonta.
— Você é teimoso.
— Sou um pai dedicado — corrigi.
No caminho até a clínica, o silêncio dentro do carro era confortável. Ruby segurava minha mão e falava sobre pequenas coisas… a decoração do quarto, as roupinhas novas, o dia em que Dustyn começou a mexer mais forte.
Eu respondia, ria, participava… mas por dentro estava atento demais ao próprio corpo. Ao coração batendo fora do ritmo. À respiração curta.
O carro reduziu de repente e parou no sinal.
Foi quando eu a vi.
Na calçada oposta, de óculos escuros, postura relaxada demais para alguém que só estivesse passando… Astrid.
Ela não olhou diretamente para nós no início. Fingiu mexer no celular. Mas eu senti. Aquela sensação antiga de perigo, de algo errado. Quando ela levantou o rosto e sorriu discretamente, meu estômago revirou.
Ruby não percebeu. Estava distraída olhando uma vitrine.
— Andrew, olha aquele conjunto azul… — ela começou.
— Ruby… — falei, apertando a mão dela sem querer.
— O que foi?
— Nada — respondi rápido, quando o carro voltou a andar e Astrid ficou para trás. — Nada.
Mas eu sabia. Aquela mulher ainda estava jogando. E eu não tinha forças sobrando para mais uma guerra.
A consulta transcorreu normalmente. O médico falou que o bebê estava ótimo, forte, ativo. Ruby chorou ao ouvir o coração de Dustyn. Eu sorri, emocionado, mesmo sentindo o peito apertar de novo.
Na volta para casa, meu celular vibrou. Número conhecido. O médico. Atendi assim que Ruby saiu para pegar água.
— “Senhor Sinclair” — a voz dele veio calma demais. — “Recomendo reforçar o tratamento. Os sintomas que o senhor descreveu indicam que o organismo não está respondendo como esperado.”
— Certo — respondi, sem pensar muito. — O que o senhor recomenda?
— “Aumentar a dosagem. Vou preparar tudo.”
— Faça isso — falei. — Só… mantenha isso em sigilo.
— “Claro. Como sempre.”
Desliguei sem desconfiar. Confiava nele há meses. Confiava porque precisava confiar em alguém.
À noite, já em casa, Ruby se aninhou ao meu lado no sofá. A mão dela estava sobre a barriga, e eu coloquei a minha por cima.
Dustyn se mexeu, forte.
— Ele vai ser forte como você — Ruby disse, sorrindo.
Eu engoli seco.
— Tomara.
Ela virou o rosto para mim.
— Eu quero que ele tenha o seu coração.
Sorri automaticamente, mas desviei o olhar por um segundo.
— Espero que não — respondi, tentando brincar. — O meu anda falhando ultimamente.
Ela riu, achando que era piada.
— Para com isso. Você é exagerado.
Talvez eu fosse. Ou talvez estivesse sendo honesto pela primeira vez sem perceber.
Mais tarde, no quarto, apaguei a luz e deitei ao lado dela. Ruby adormeceu rápido, exausta. Eu fiquei acordado, encarando o escuro.
O peito voltou a apertar, dessa vez mais lento, mais profundo. Como algo cedendo aos poucos. Fechei os olhos e respirei fundo, tentando controlar.
— “Aguenta” — pensei. — “Só aguenta mais um pouco.”
Porque eu sabia. Sabia que algo dentr
o de mim estava quebrando em silêncio. E, pela primeira vez, tive medo real de não conseguir chegar inteiro até o nascimento do meu filho.
