Capítulo 66 Capítulo 66

Andrew

Eu sinto quando algo está prestes a sair do controle. Sempre senti. Nos negócios, nas decisões difíceis, nas perdas inevitáveis. Mas dessa vez não é sobre dinheiro, poder ou contratos. É sobre tempo. O meu tempo.

Nos últimos dias, a dor no peito deixou de ser um aviso distante e passou a ser presença constante. Não é só física. É a sensação de que algo está correndo mais rápido do que deveria. De que existe uma linha invisível se aproximando e eu não sei exatamente quando vou cruzá-la.

E é isso que me assusta.

Não a morte em si. Mas a ideia de não estar aqui quando Ruby precisar. Quando Dustyn nascer. Quando o mundo resolver ser cruel de novo.

Por isso, tomo a decisão mais difícil da minha vida.

Falar com Ethan Storm.

Dirijo sozinho até o antigo cassino que leva o nome dele sem carregar oficialmente o sobrenome. O céu está cinza, pesado, como se o dia também estivesse cansado. O tipo de fim de tarde que não promete nada bom.

Estaciono o carro e fico alguns segundos parado, com as mãos apoiadas no volante. O coração bate irregular, como se reclamasse da escolha. Ignoro.

— Aguenta mais um pouco — digo para mim mesmo. — Só mais um pouco.

Desço do carro.

O segurança da porta me reconhece imediatamente. O corpo dele fica rígido. Ele hesita. Não é comum eu estar ali. Muito menos sozinho.

— Senhor Sinclair… — ele começa.

— Estou sendo esperado — minto com tranquilidade.

Ele avalia meu rosto por alguns segundos, depois abre caminho. Não pergunta mais nada. Aqui, perguntas demais custam caro.

O ambiente interno do cassino ainda carrega o cheiro de cigarro, álcool e dinheiro. Um lugar feito para homens que não acreditam em redenção. Ethan acredita que pertence a esse mundo. Talvez pertença mesmo.

Quando ele me vê, se levanta na mesma hora. O movimento é automático, defensivo. A mão vai até o bolso do paletó antes de parar no meio do caminho.

— Veio agradecer por ter salvado sua mulher? — ironiza, já acendendo um cigarro. — Não precisa. Eu faria de novo.

— Não vim agradecer. — respondo, firme. — Vim te pedir uma coisa.

Isso o desarma por um segundo. Não muito. Mas o suficiente para apagar o sorriso torto do rosto.

— Você? — ele solta uma risada curta. — O grande Andrew Sinclair veio me pedir um favor? Está aí algo que eu nunca pensei ver acontecer.

Dou alguns passos e me sento à frente dele, sem pedir permissão. Meus movimentos são calculados, mas o corpo não ajuda como antes.

— É sobre o futuro da Ruby… — digo. — E do meu filho.

O tom sério faz Ethan apagar o cigarro no cinzeiro. Ele não responde de imediato. Apenas me observa com mais atenção do que antes.

— Fala logo, Sinclair — ele diz. — Você não é homem de rodeios.

Respiro fundo. O ar entra com dificuldade, mas entra.

— Eu estou doente, Ethan.

O silêncio que se instala não é confortável. É pesado. Denso.

— Que porcaria é essa? — ele pergunta, franzindo o cenho.

— Um problema no coração. — continuo. — Não é algo que dá pra tratar de verdade. Dá pra adiar. Fingir. Mas não dá pra consertar.

Ethan se levanta devagar, como se as pernas tivessem decidido agir sozinhas. Dá um passo para trás, me encarando como se eu tivesse acabado de quebrar uma regra invisível.

— Você está brincando comigo?

— Não brinco com esse tipo de coisa. — respondo. — Já tenho diagnóstico. Um ano e meio, se tudo correr bem.

Ele passa a mão pelo cabelo, claramente irritado.

— E você está aqui andando, trabalhando, engravidando a minha mulher como se fosse eterno?

— Ex-mulher! Talvez eu seja arrogante — digo. — Ou talvez só esteja tentando viver o máximo possível enquanto ainda posso.

Ele me encara em silêncio. O olhar dele não é de raiva. É de confusão.

— Recentemente eu piorei — continuo. — O que faz esse tempo diminuir. Eu sinto isso no corpo.

— E por que diabos você está me contando isso? — ele pergunta, finalmente.

Levanto o olhar e sustento o dele.

— Porque quando eu me for… Ruby vai ficar sozinha.

Ele aperta o maxilar.

— Ela me odeia.

— Não odeia. — respondo sem hesitar. — Está magoada. Ferida. Mas não odeia.

— Você não sabe do que está falando.

— Sei mais do que você imagina.

Ethan cruza os braços, claramente tentando se proteger.

— Ela sabe disso? — pergunta.

— Não. — respondo. — E não vai saber.

— Você está maluco?

— Não quero que a última lembrança que ela tenha de mim seja de um homem esperando morrer. — minha voz falha por um segundo, mas continuo. — Quero que ela lembre de alguém forte. Presente. Do pai que esteve ali até o último dia.

Ele balança a cabeça, incrédulo.

— Então você veio aqui pra quê, afinal? Quer que eu case com ela de novo? — ele solta uma risada amarga. — Porque se isso fosse possível, eu já teria feito. Mesmo sabendo que ela não me quer.

— Não. — digo. — Não vim pedir isso.

Ele me encara, desconfiado.

— Quero que cuide dela. — falo, direto. — Que garanta que ela e o meu filho vivam em paz quando eu não puder mais fazer isso.

O riso dele some.

— Você confia em mim pra isso?

— Não. — respondo com honestidade. — Mas você ama ela o suficiente pra tentar. Ama o suficiente para matar qualquer um que tente fazer mal a eles.

O silêncio volta a se instalar. Dessa vez mais longo.

Ethan desvia o olhar por um segundo. Quando volta, há algo diferente ali. Não é orgulho. Não é fúria. É responsabilidade. Mesmo que ele não admita.

Me apoio na mesa para me levantar. O esforço é maior do que deveria ser.

— Só quero uma coisa enquanto eu ainda estiver aqui — digo. — Fique longe dela.

Ele arqueia uma sobrancelha.

— E se eu não quiser?

— Aí eu vou morrer tentando te impedir de se aproximar antes da hora.

Nos encaramos. Não há ameaça vazia ali. Ele sabe disso. Eu também.

— Você devia contar pra ela — ele diz, por fim. — Ela merece saber.

— Eu sei. — respiro fundo. — Mas não consigo. Ela olha pra mim como se eu fosse o futuro… e eu não quero tirar isso dela.

Dou as costas e começo a caminhar em direção à saída.

— Sinclair… — Ethan chama.

Viro o rosto.

— Quando o médico te deu esse prazo… o que você pensou?

Penso por alguns segundos antes de responder.

— Que se eu conseguir ver meu filho nascer… — digo, com a voz baixa. — Já posso morrer em paz.

Saio sem olhar pra trás.

Dentro do cassino, Ethan fica parado, o cigarro tremendo entre os dedos. Ele não sente raiva. Não sente vitória. Sente algo que não costuma sentir.

Peso.

Porque agora ele entende. Se eu cair, ele será o único homem entre Ruby… e o mundo.

E, pela primeira vez desde que entrei naquele lugar, saio sentindo que fiz a coisa certa. Mesmo que isso me custe tudo.

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