Capítulo 67 Capítulo 67

Andrew

O volante parecia mais pesado do que deveria enquanto eu dirigia de volta para casa. O céu estava cinza, e a cidade parecia ter perdido a cor junto comigo. Eu tinha acabado de sair do antigo cassino de Ethan e, por alguns minutos, ainda sentia o cheiro de fumaça preso na roupa. Não era o cigarro dele que me incomodava. Era o que eu tinha dito.

Eu estou doente.

Eu tinha colocado essas palavras no mundo. Não para Ruby, não para minha família, mas para o homem que mais odeio e mais temo ao mesmo tempo.

Parei no sinal. Minha mão direita apertou o volante, a esquerda foi até o peito sem que eu percebesse. Uma fisgada curta, como um aviso. Eu respirei fundo e soltei devagar, fingindo que era só tensão.

— Aguenta mais um pouco. — falei sozinho, com a voz baixa, como se meu corpo fosse uma criança teimosa.

O celular vibrou no painel. Uma mensagem do meu chefe de segurança.

— “Área limpa. Duas movimentações suspeitas na madrugada. Nada chegou perto.”

Respondi apenas:

— Quero relatório completo. Hoje.

Eu não podia relaxar. Astrid estava rondando. Ethan estava por perto mesmo quando dizia estar longe. E agora tinha algo pior rondando, algo que ainda não tinha nome, mas já tinha intenção.

Quando finalmente vi os portões da mansão, meu coração apertou por outro motivo. Não era dor física. Era medo de que um dia eu chegasse ali e não conseguisse entrar. Medo de que Ruby abrisse aquela porta e eu não estivesse do lado de fora.

Estacionei com calma, como se eu fosse um homem normal voltando de um dia normal. Ajustei o paletó, respirei fundo, e desci.

A porta principal abriu antes mesmo de eu tocar nela. Ruby apareceu com um sorriso que sempre me desarma, usando um vestido confortável, o cabelo preso de qualquer jeito, e aquela barriga enorme que parecia carregar o mundo inteiro.

— Demorou. — ela disse, cruzando os braços, fingindo bravura. — Eu já estava te esperando pra jantar.

Inclinei o rosto e beijei a boca dela com cuidado, do jeito que faço quando quero sentir e não assustar.

— Tive uma reunião longa. — respondi. — Daquelas que parecem não acabar.

— Você está com cheiro de rua. — ela observou, apertando meus ombros. — E com essa cara de quem quer desmaiar de cansaço.

— Eu quero é comer. E depois deitar com você.

Ruby riu e me puxou pela mão.

— Então vem. Eu fiz sua comida favorita.

Na mesa, ela me contou coisas pequenas, do jeito que ela faz quando tenta manter o mundo normal. Falou da fundação infantil, de um e-mail que recebeu de uma mãe agradecendo, de um fornecedor que atrasou, de um enfeite pro quarto do Dustyn que ela achou “fofo demais pra ser de menino”.

Eu ouvia tudo, prestando atenção, porque eu sabia que um dia essas histórias seriam lembrança.

— E o Dustyn… — ela colocou minha mão sobre a barriga. — Ele ficou agitado hoje.

Senti um chute forte na palma da minha mão. Meu peito apertou de emoção.

— Esse garoto é insistente. — eu disse, e minha voz saiu mais quebrada do que eu queria.

Ruby me olhou com carinho.

— Ele puxou você. Teimoso.

Eu ri baixo.

— Espero que ele puxe a você no que importa.

Ela inclinou a cabeça, curiosa.

— No que importa?

Passei o polegar pela bochecha dela.

— No coração.

Ruby sorriu, sem perceber a ironia dolorosa por trás daquela palavra. Depois, bocejou.

— Eu estou cansada. — confessou. — Hoje ele pesou mais.

— Eu levo você. — levantei e a ajudei a ficar de pé com calma, como se ela fosse a coisa mais valiosa da casa. — Vem.

No quarto, ela se deitou devagar. Eu tirei os sapatos, apaguei metade das luzes e deitei ao lado. Ela encaixou a mão no meu peito, como se quisesse sentir meu coração.

— Você ainda está quente. — ela comentou. — Tem certeza que está bem?

Beijei a testa dela.

— Tenho. Só trabalhei demais. Amanhã eu diminuo.

— Você prometeu isso semana passada. — ela reclamou, mas sem força.

— Eu prometo de novo. — respondi, e tentei não sentir o peso da mentira.

Ruby fechou os olhos. Em poucos minutos, estava dormindo. A mão dela continuou no meu peito, e eu fiquei encarando o teto, sem coragem de me mexer. Eu queria ficar parado para sempre, naquele instante, com ela respirando ao meu lado e nosso filho se movendo entre nós.

Mas eu precisava fazer uma coisa.

Saí devagar, em silêncio, e fui para o escritório. A casa parecia maior de madrugada. Mais fria. A luz do abajur iluminou a mesa e, por um segundo, eu me vi refletido no vidro: um homem pálido demais para a própria idade.

Sentei, peguei papel e caneta. Minha mão ficou suspensa no ar por alguns segundos. Eu não queria escrever. Escrever era admitir que aquilo podia acontecer.

Mesmo assim, escrevi.

— “Se um dia eu não acordar, diga ao Dustyn que o pai o amou em cada batida fraca do coração.”

As palavras doeram ao sair. Continuei, porque parar seria covardia.

— “Diga que eu lutei para ficar. Que eu tentei ser forte. Que eu queria ver o primeiro sorriso dele, ouvir a primeira palavra, segurar a primeira queda de bicicleta.”

Engoli seco. A garganta queimou.

— “Diga pra Ruby que eu amei ela demais quando precisei, e alto quando pude. E que o meu maior medo não foi morrer. Foi deixar vocês sem proteção.”

Dobrei a folha com cuidado, como se eu pudesse proteger aquelas frases também. Coloquei no envelope. Abri a gaveta, peguei um livro antigo de capa dura e escondi o envelope dentro dele, bem no meio, onde ninguém abre por acaso. Fechei a gaveta e fiquei alguns segundos com a mão no puxador, respirando devagar.

— Vai com calma. — falei para mim mesmo. — Não pode tirar de mim o privilégio de pelo menos ver meu filho nascer.

Voltei para o quarto e deitei de novo. Dormi pouco. Acordei várias vezes, sentindo o peito apertar e depois aliviar, como um jogo cruel.

De manhã, Ruby me acordou com beijos no rosto e uma risada baixa.

— Você tem olheiras. — ela disse. — E tá com essa cara de quem ficou acordado pensando.

— Eu pensei em você. — respondi. — E no nosso filho. E em como eu sou sortudo por ter vocês.

Ela apertou minha bochecha.

— Você é um exagerado.

— Não. — eu disse. — Eu sou um homem apaixonado.

Ruby corou, mesmo depois de tanto tempo ouvindo coisas assim. Ela era linda até corando. Ela se levantou devagar e esticou os braços.

— Vou descer e fazer café. Você vem?

— Vou. — respondi, sem hesitar.

Levantei rápido demais. A cabeça girou. Eu fingi que estava ajustando o lençol para ganhar tempo, respirei fundo e segui.

Descemos juntos. No meio da escada, o chão inclinou de novo, como se eu estivesse num barco. Meus dedos agarraram o corrimão. Eu parei por um segundo.

Ruby olhou para trás.

— Andrew?

— Só escorreguei. — menti, sorrindo. — Estou bem.

— Você anda dizendo isso todo dia. — ela disse, séria, voltando dois degraus.

Eu subi um degrau de volta e encostei a testa na dela.

— Hoje estou melhor. — garanti. — Hoje eu quero você sorrindo. Só isso.

— E se eu não conseguir?

Segurei o rosto dela com as duas mãos.

— Então eu faço você conseguir. Nem que eu conte piada ruim o dia inteiro.

Ela riu, apesar de preocupada, e isso me deu uma vitória pequena.

Na cozinha, ela preparou o café e eu fiquei observando de longe, como se estivesse assistindo a uma cena que eu precisava guardar dentro de mim. Ruby cantarolava baixinho enquanto mexia a colher. Dustyn se mexeu e ela passou a mão na barriga, sorrindo sozinha.

— Ele está acordado. — ela comentou, como se falasse de alguém sentado à mesa.

— Ele sente sua alegria. — respondi.

Ruby me olhou.

— E você? Você sente a minha alegria?

Eu demorei um segundo.

— Eu sinto tudo o que vem de você.

Ela veio até mim e me abraçou, encaixando a barriga no meu corpo com cuidado. Eu a segurei firme, como se aquele abraço fosse um jeito de prender o tempo.

— Promete que hoje você vai descansar um pouco? — ela pediu.

Beijei o topo da cabeça dela.

— Prometo. Um pouco.

Ela se afastou, satisfeita. Eu fiquei sozinho por alguns segundos, encarando a janela.

Lá fora, o mundo continuava rodando. Havia perigos escondidos em carros, em pessoas. Havia Ethan, havia Astrid, havia alguém pior. Mas aqui dentro, por enquanto, eu ainda era o escudo.

E eu

não podia quebrar.

Respirei fundo, toquei o próprio peito por baixo da camisa, senti o coração bater fraco, mas presente.

— Só mais um pouco... até o meu filho nascer, por favor.

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