Capítulo 68 Capítulo 68
Ethan
O copo escapa da minha mão e se espatifa na parede do escritório. O barulho seco ecoa pelo ambiente vazio, mas não é nada comparado ao que continua batendo dentro da minha cabeça desde ontem.
— “Se eu morrer, não deixe Ruby sozinha.”
A voz de Andrew Sinclair não sai de mim. Não importa quanto eu beba. Não importa quantos cigarros eu acenda. Não importa quantas vezes eu tente lembrar de tudo o que eu odeio naquele homem.
Ele me fez um pedido que virou uma sentença.
Eu encaro a arma sobre a mesa. Limpa. Fria. Sempre pronta. Um reflexo fiel de quem eu sou. Ou de quem eu sempre fui.
— Eu devia odiar você. — falo para o nada. — E você me obriga a prometer cuidar da única coisa que me mantém vivo.
A lembrança do beijo ainda está fresca. O jeito como Ruby tremia. O gosto dela. A maneira como me empurrou e, ainda assim, demorou um segundo a mais do que deveria para se afastar.
Esse segundo me condenou.
Passo a mão pelo rosto, sentindo o cansaço pesar nos ossos. Não durmo direito desde a tentativa de sequestro. Não durmo desde que percebi que, mesmo casada, grávida de outro homem, ela ainda ocupa cada espaço dentro de mim.
— Ela é minha. — rosno baixo. — Sempre foi.
Empurro a cadeira para trás e me levanto. Caminho pelo escritório, inquieto, como um animal preso. Abro a janela, deixo o ar frio bater no rosto. A cidade está silenciosa demais para alguém que vive do caos.
Pego o telefone e disco um número que não precisa estar salvo.
— Preciso de você focado.
— “Boa noite, Don.” — a voz do outro lado é firme, alerta. — “Algum problema?”
— A partir de agora, quero vigilância vinte e quatro horas na casa dos Sinclair.
Há uma breve pausa.
— “Ordem de proteção?”
Fecho os olhos por um segundo.
— Não. — respondo. — Ordem de dívida.
— “Entendido.”
— Quero dois homens fixos no perímetro, trocando turnos. Outros dois em rotas móveis. Nada ostensivo. Se ela perceber, vocês falharam.
— “E quanto ao marido?”
Meu maxilar se fecha.
— Ele não é o alvo. Pelo menos não agora.
Desligo antes que venha outra pergunta. Não devo explicações. Nem a eles. Nem a mim.
Volto para a mesa e encaro a arma de novo. Pego, sinto o peso familiar na mão, e depois a guardo na gaveta. Hoje, não. Hoje não é sobre matar. É sobre esperar.
O dia amanhece escuro, como se o mundo estivesse em luto antes mesmo da morte acontecer. Estou dentro do carro, parado do outro lado da rua da clínica. Vidros escuros. Motor desligado. Café frio no porta-copos que eu não bebo.
Ruby sai acompanhada de uma enfermeira. Anda devagar, a mão protegendo a barriga grande demais para alguém que deveria estar em paz. Ela agradece, sorri educadamente, e segue para o carro.
Meu corpo se move antes da cabeça. A porta quase se abre. Minha mão chega à maçaneta.
— Não. — sussurro, forçando o controle. — Por enquanto, ela ainda tem ele.
Ela entra no carro. O motorista arranca. Dois dos meus homens seguem à distância, do jeito combinado. Ninguém percebe. Ninguém nunca percebe.
Encosto a cabeça no banco e fecho os olhos. A imagem de Andrew volta. Pálido. Cansado. Orgulhoso até o fim.
— “Se eu morrer…”
Ele não disse “quando”. Mas eu vi nos olhos dele. Aquele homem sabe que está contando o tempo em batidas fracas. E, contra tudo o que eu sou, sinto respeito.
— Você não devia ter feito isso. — sussurro. — Não devia ter me escolhido.
Mas ele escolheu. Porque sabe que eu sou o monstro que protege. O homem que mata antes de perguntar. O último muro entre Ruby e o mundo.
Meu telefone vibra. Mensagem de um dos vigias.
— “Movimentação limpa. Astrid não apareceu.”
O nome dela faz meu sangue ferver.
— Se chegar perto… — falo sozinho. — Não vai ter acordo, não vai ter inferno suficiente.
Dirijo sem rumo por horas. Acabo passando pelos portões da mansão Storm, mesmo sem intenção de entrar. As luzes externas ainda estão acesas, iluminando o jardim impecável onde Ruby costumava caminhar quando não conseguia dormir.
Lembro dela ali, de camisola clara, esperando que eu chegasse do escritório. Sempre acordada. Sempre silenciosa.
Eu entrava frio, distante, fingindo não sentir nada. Ela sorria mesmo assim.
Fecho os olhos por um instante e quase consigo vê-la refletida no vidro do carro. Mais magra. Com aquela esperança tola no olhar… como se ainda acreditasse que um dia eu deixaria de ser um muro.
E fui eu quem quebrou isso.
— Eu estraguei tudo. — admito em voz alta.
Ela tentou. Mais de uma vez. Tentou sorrir. Tentou me tocar. Tentou amar um homem que tinha medo de amar de volta.
— Agora você carrega o filho de outro. — continuo. — E mesmo assim… ainda é você.
Anoitece quando volto ao cassino. O lugar está funcionando, cheio de gente que não imagina o tipo de promessa que foi feita ali dentro. Entro no escritório, me sirvo de outro copo, mas paro antes de beber.
— Chega. — digo para mim mesmo.
Abro a gaveta, tiro a arma de novo, mas não é nela que penso. É na cruz de prata que deixei com Ruby. Um pedaço da minha história agora no bolso dela.
— Você não faz ideia do que me pediu, Sinclair. — sussurro. — Você transformou amor em maldição.
Sento e fico ali, no escuro, lembrando do jeito como Ruby disse meu nome no dia do sequestro. Não como acusação. Não com ódio. Mas como quem reconhece alguém que nunca deixou de existir.
— Eu vou cumprir. — prometo para o vazio. — Mesmo que isso me destrua.
O telefone vibra de novo.
— “Tudo calmo na mansão.”
Respondo apenas:
— Continuem.
Encosto na cadeira e fecho os olhos. Pela primeira vez em muito tempo, não penso em poder, nem em vingança, nem em território. Penso em um menino que ainda não nasceu.
Penso em uma mulher que me odeia e me reconhece ao mesmo tempo. Penso em um homem que vai morrer acreditando que fez a escolha certa.
— Quando ele cair… — sussurro, abrindo os olhos. — Eu estarei aqui.
Não como herói. Não como marido. Não como salvador. Mas como o inferno que promete proteger aquilo que ama. E dessa promessa… eu não volto atrás.
Puxo o aparelho do bolso, sem pensar, como se já soubesse exatamente para quem enviar mensagem. O nome dela não aparece mais ali, nunca aparece, mas eu sei. Sempre sei. Digito antes que a razão me alcance.
— Você estava especialmente linda hoje, amor. Como está nosso pequeno?
Vejo o “digitando…” surgir quase de imediato. Meu peito aperta.
— “Para de me chamar de amor.” — a resposta vem seca. — “E esse filho não é seu, é do Andrew. Desiste logo e para de me enviar mensagem.”
Solto uma risada baixa, amarga, sozinho no escritório escuro. Ela sempre foi assim. Direta. Cortante. Honesta até quando dói.
Me inclino na cadeira, olhando para o teto, e respondo devagar, escolhendo cada palavra como quem provoca um incêndio sabendo exatamente onde o fogo vai pegar.
— Não quer que eu te chame de amor? Então posso chamar de ruivinha? Ruiva? Bebê? Razão da minha falta de controle? Amor da minha vida?
Faço uma pausa curta.
— As opções são muitas… mas todas dizem a mesma coisa: eu amo você.
O silêncio dura alguns segundos. Longos demais. Imagino o rosto dela, a respiração acelerada, o conflito estampado nos olhos. Não paro.
— Eu sei que você me odeia, pequena. Sei que escolheu outro caminho. Mas isso não apaga o que fomos. Nem o que eu sinto quando penso em você deitada, com a mão na barriga, protegendo o mundo inteiro aí dentro.
Mais alguns segundos.
— Para, Ethan, por favor. — ela escreve por fim. — Você não tem esse direito… não mais.
Antes que eu responda, a foto apaga. A mensagem não enviada. O nome dela some.
Bloqueado.
Fico olhando para o telefone, sem raiva. Sem surpresa.
Só com a certeza pesada no peito de que, mesmo bloqueado, mesmo longe, mesmo proibido… eu ainda sou o erro que ela sente dificuldade de apagar.
