Capítulo 69 Capítulo 69

Ruby

Tento convencer a mim mesma de que as mensagens de Ethan não significam nada além de ego ferido.

Repito isso como um mantra enquanto dobro as roupinhas do Dustyn pela terceira vez naquela tarde. Ele não suporta o fato de eu ter seguido em frente. Não aceita não ter mais controle sobre mim. Não aceita que eu pertença a outro homem. É só isso. Precisa ser só isso.

Mas meu corpo não obedece tão bem quanto minha razão.

Cada palavra que ele escreveu ainda ecoa na minha cabeça, como se tivesse sido sussurrada perto demais do meu ouvido. Não por desejo. Por memória. E isso me assusta mais do que qualquer coisa.

— Chega, Ruby. — falo para mim mesma, fechando a gaveta com força.

Respiro fundo e volto minha atenção para o que realmente importa.

Andrew.

Vou até a sala de jantar. Ele está sentado à mesa, com o prato quase intacto à sua frente. O garfo repousa entre os dedos, imóvel. Os ombros estão levemente curvados, como se carregar o próprio corpo estivesse exigindo mais esforço do que deveria.

— Você não vai comer? — pergunto, tentando manter a voz leve.

— Já estou comendo, amor. — ele responde, forçando um sorriso enquanto leva um pequeno pedaço de comida à boca.

Observo com atenção. Ele mastiga devagar demais. Engole com dificuldade. Quando abaixa o garfo, leva a mão ao peito por um segundo rápido, quase imperceptível.

Meu coração dispara.

— Andrew… — minha voz sai mais aguda do que eu gostaria.

Ele ergue o olhar imediatamente.

— O quê?

— Você largou o garfo.

Antes que eu termine de falar, ele solta uma risada curta, daquelas que ele usa quando quer desviar de algo.

— Eu mastiguei rápido demais. Engasguei um pouco. — explica, com naturalidade ensaiada. — Nada demais, ruivinha.

Levanto da cadeira sem pensar.

— Você está pálido.

— Estou cansado. — responde. — Foi um dia longo.

— Você levou a mão ao peito.

Ele suspira, como quem percebe que não vai escapar fácil.

— Amor… — estende a mão para mim. — Eu estou bem.

— Não parece.

— Parece sim. Você que está sensível. Gravidez faz isso.

Sento de novo, mas não consigo relaxar.

— Andrew, vamos ao hospital.

— Não. — a resposta vem rápida demais.

— Por quê?

— Porque não precisa. — ele diz, firme, mas sem agressividade. — Já fiz exames. Já estou sendo acompanhado. Está tudo sob controle.

— Então por que você não come direito há dois dias? — questiono, sentindo a garganta apertar.

Ele inclina o corpo para frente e sorri daquele jeito que sempre consegue me desmontar.

— Porque eu fico cheio só de olhar pra você.

Reviro os olhos.

— Não brinca comigo agora.

— Não é brincadeira. — responde, tocando minha mão. — Sei que você se preocupa. Mas temos nosso pequeno chegando. Ele é o mais importante agora.

Engulo em seco.

— Você também é importante.

Ele segura minha mão com mais força.

— Eu sei. — diz, baixo. — Mas você precisa estar tranquila. Pelo Dustyn.

Concordo com a cabeça, mesmo sem acreditar completamente.

Mais tarde, no banho, deixo a água cair sobre o rosto para esconder as lágrimas. Encosto a testa na parede do box e fecho os olhos.

— Tem alguma coisa errada… — sussurro. — E ele não quer me contar.

Saio do banho tentando parecer normal. Andrew já está deitado, lendo algo no tablet, mas percebo que os olhos dele não acompanham a tela.

— Está tudo bem? — pergunto.

— Sempre. — responde, desligando o aparelho. — Vem dormir comigo.

Deito ao lado dele. Ele me puxa para perto, com cuidado, como se tivesse medo de me apertar demais. Sua mão repousa sobre minha barriga, quente.

Alguns segundos depois, sinto um chute forte.

— Andrew… — sorrio. — Ele está brincando com você ao invés de dormir.

Ele reage imediatamente, abrindo um sorriso genuíno, daqueles que só aparecem quando fala do nosso filho.

— Oi, campeão. — sussurra, aproximando o rosto do meu ventre. — Aguenta firme aí dentro.

Outro chute. Ele ri baixo.

— Ele te escuta.

— Ou escuta você. — digo.

Andrew fecha os olhos por um instante, respirando fundo.

— Aguenta firme, pequeno. — repete, agora com a voz mais fraca. — Papai está tentando.

Algo naquela frase me arrepia.

— Tentando o quê? — pergunto.

Ele abre os olhos e me encara.

— Tentando ser forte o bastante.

Passo o braço ao redor dele, abraçando com cuidado.

— A gente vai vencer tudo isso junto. — digo, convicta. — Eu, você e o Dustyn.

Andrew fecha os olhos outra vez. Seu corpo parece pesado contra o meu.

— Queria que fosse verdade. — sussurra.

— O quê?

— Nada. — responde rápido demais. — Só estou divagando.

O silêncio se instala.

Fico acordada por muito tempo depois que ele adormece. Observo o movimento lento do peito dele, a respiração irregular. Em alguns momentos, parece mais difícil para ele puxar o ar.

Coloco a mão sobre o peito dele, sentindo o coração bater. Rápido demais.

— Andrew… — chamo baixinho.

Ele não responde. Espero alguns segundos. O coração continua batendo, mas cada batida parece um esforço.

— Por favor… — sussurro, com medo de acordá-lo e com mais medo ainda de não acordá-lo.

Dustyn se mexe de novo, como se sentisse minha angústia. Levo a mão à barriga.

— Está tudo bem, meu amor. — sussurro. — A mamãe está aqui.

Aos poucos, o medo vai se transformando em algo mais pesado.

Não é só cansaço.

Não é só estresse.

Existe algo errado com o homem que eu amo. E o pior de tudo é que ele sabe. Abraço Andrew com mais força, como se pudesse segurá-lo no lugar apenas com isso.

— Fica comigo. — peço, com a voz baixa. — Não me deixa agora.

Ele se mexe levemente e murmura algo inaudível, como se estivesse sonhando. Beijo sua testa com cuidado.

— Eu te amo. — digo, mesmo sem saber se ele escuta. — Mais do que qualquer coisa nesse mundo.

Mas, no fundo, sinto. O amor não está afastando o perigo. E o medo… está cada vez mais perto.

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