Capítulo 70 Capítulo 70
Astrid
Eu sempre gostei do som de portas fechando. Principalmente quando são portas que alguém acredita estar trancadas para mim.
O consultório do doutor Michael fica em uma rua discreta, onde as luzes dos postes parecem mais fracas de propósito. Não há placa chamativa. Não há recepcionista depois das oito. Só um corredor estreito, um cheiro de álcool e penumbra suficiente para esconder qualquer coisa.
Eu espero o último paciente sair. Vejo o elevador descer. Ouço o clique da porta de vidro. Só então entro.
A chave do alarme? Eu já tinha. Algumas pessoas acham que segredo é muralha. Eu acho que segredo é corda: basta puxar o ponto certo.
Subo as escadas sem pressa. Meu salto não faz barulho porque eu escolhi o sapato certo. Quando chego à porta dele, bato duas vezes, educada. Depois abro.
Michael está recolhendo papéis. Veste o jaleco por cima da camisa social, como se isso o tornasse menos culpado do que é. Ele ergue a cabeça e o rosto perde cor.
— Senhora Laurent… o expediente acabou.
— Eu sei. — fecho a porta atrás de mim e encosto as costas nela. — Foi por isso que vim.
Ele engole em seco, tenta manter a postura.
— Eu não tenho mais nada a dizer. A polícia…
— A polícia? — rio baixo. — Você acha que eu seria presa por entrar aqui? Michael, eu poderia estar algemada e ainda assim te encontrar. Eu sou parte do seu problema, lembra?
Ele aperta uma pasta com força.
— Eu já fiz o que você pediu.
— Fez o mínimo. — dou dois passos, observando as prateleiras de remédios. — E eu estou aqui para falar do máximo.
Michael se levanta, inquieto.
— Se você quer mais informações do Sinclair, não posso. Isso é sigilo.
Inclino a cabeça.
— Você não pode? Ou você não quer?
Ele tenta desviar o olhar, mas eu não deixo. Caminho até a mesa dele e pego uma foto emoldurada… ele, uma mulher e uma criança, sorrindo como se o mundo não tivesse contas para cobrar. Viro a moldura de leve, sentindo o vidro frio na ponta dos dedos.
— Ela já está andando sem dor? — pergunto, casual. — Sua esposa. Aquela cirurgia na coluna que ninguém no hospital queria fazer sem garantia de pagamento.
Michael fecha os punhos.
— Não coloque minha família nisso.
— Sua família já está nisso. — coloco a foto de volta no lugar exato, alinhada. — Eu paguei a operação. Eu paguei a fisioterapia. Eu paguei as medicações. Eu paguei o silêncio de quem viu você assinando coisas que não devia.
Ele respira fundo, quase tremendo.
— O que você quer?
Meu sorriso aparece antes da resposta.
— Quero saber tudo sobre o Sinclair.
Michael solta um ar pesado.
— Ele está morrendo. Um problema cardíaco grave, como você já sabe.
— Eu quero detalhes. — aproximo meu rosto do dele, sem tocar. — Tempo. Sintomas. Tratamento. O que ele teme. O que ele esconde.
O médico hesita. Eu vejo a batalha no peito dele, ética contra pânico. Sempre vence o pânico.
— Ele tem uma condição progressiva… — começa. — O coração está falhando. Há meses ele vem piorando. Dor no peito, falta de ar, tontura, cansaço extremo. Eu… eu tentei estabilizar. Mas ele insiste em manter a rotina.
— Porque ele quer ver o filho nascer. — concluo, satisfeita.
Michael fecha os olhos por um segundo, como se a frase o ferisse.
— Sim. Ele acredita que consegue segurar até o parto.
— A palavra “acredita” é linda. — pego minha bolsa e tiro um envelope pardo, pesado. Coloco sobre a mesa. — E agora vamos tirar a crença do caminho.
Ele não toca no envelope.
— Eu não vou matar um homem. Já fiz o que me pediu, já dei o medicamento que vai agravar a situação dele.
— Você já está matando. — respondo, simples. — A diferença é que agora vai fazer isso com precisão.
Michael passa a mão pelo rosto.
— Aquilo era um… ele confiou em mim.
— E vai continuar confiando. — digo, calma. — A mesma dose, mas duas vezes por semana.
Ele arregala os olhos.
— Isso pode matar ele mais rápido.
— Esse é o plano. — apoio as unhas na mesa, inclinando-me. — Estou te pagando bem caro para cumprir minhas ordens, Michael. A operação da sua esposinha deu certo? De nada. Agora faça o que eu mando.
Por um instante, penso que ele vai reagir. Que vai chamar alguém. Que vai tentar ser herói. Mas heróis são raros quando há uma cama hospitalar esperando por alguém que você ama.
— Eu… eu não posso garantir o tempo. — ele diz, finalmente, com a voz quebrada. — Pode ser rápido demais. Pode ser evidente.
— Evidente para quem? — pergunto. — Para uma esposa grávida, cansada e apavorada? Para um homem que já está doente? Você vai dizer que é o avanço natural. Você vai dizer que é estresse. Você vai dizer que é azar.
Michael aperta a borda da mesa.
— E se ele, ou ela, descobrir?
Eu sorrio como quem está diante de uma criança.
— Ruby Sinclair não descobre nada sozinha. Ela só descobre quando alguém coloca a verdade no colo dela. E eu não vou fazer isso… ainda.
Ele olha para o envelope como se estivesse olhando para um cadáver.
— Você não tem coração.
— Tenho. — respondo. — Só não desperdiço com quem não merece.
Saio do consultório sem pressa. No corredor, a luz amarela me acompanha como se fosse minha. No elevador, ajeito o cabelo e observo meu reflexo.
Não há culpa nos meus olhos. Há oportunidade.
Na manhã seguinte, acordo cedo, tomo café como uma mulher normal e escolho flores como quem escolhe uma arma. Rosas claras, delicadas, com um perfume suave que entra na casa e se infiltra no humor de quem recebe. O arranjo perfeito para uma ameaça elegante.
No cartão, escrevo com letra firme:
— “Toda felicidade tem prazo.”
Sem assinatura. Sem digitais. Sem rastros.
Meu motorista deixa o buquê com o florista certo. O florista chama o entregador certo. A mansão Sinclair abre os portões para quem tem um uniforme e um sorriso.
Eu não preciso estar lá para estar lá.
No fim da tarde, pego meu celular e entro em uma chamada criptografada.
— Conseguiu? — pergunto.
A voz do outro lado ri, divertida.
— “Você duvida de mim? O sistema deles é bom, mas não é perfeito. Tem câmera em todo canto. A senha do administrador foi um presente.”
— Quero a suíte. — digo. — Quarto. Terraço. Hall. Todas as entradas.
— “Já está no painel.” — ele responde. — “E eu ainda fiz um extra. Se algum celular entrar no Wi-Fi, eu sei.”
Desligo e abro o aplicativo.
A imagem aparece… Ruby andando devagar pela sala, mão na barriga, dois seguranças atrás dela. Ela parece mais bonita do que eu gostaria de admitir. Existe uma luz nela que me irrita. Uma paz construída em cima do caos que eu criei.
— Aproveita, ruivinha. — digo para a tela. — Aproveita enquanto dura.
Uma notificação chega no meu segundo aparelho. Câmera externa. Rua. Um carro preto parado do outro lado, longe o suficiente para parecer coincidência.
Ethan Storm.
Ele não entra. Não desce. Só observa como se vigiar fosse amar.
Vejo quando a entrega das flores acontece. Um dos seguranças pega o buquê e confere rápido. Leva para dentro. Ruby lê o cartão e franze a testa. Seus olhos percorrem a sala, procurando o perigo no ar.
Ela tenta rir e falar alguma coisa para Andrew, mas Andrew não está ali. Ele está no escritório, provavelmente fingindo que é indestrutível.
E então vejo Ethan.
Do carro preto, ele endireita o corpo. Algo nele muda. A expressão endurece, como se tivesse entendido o recado na mesma hora.
— Entendeu, mafioso? — digo, com prazer. — O jogo não era sobre você. Era sobre o tempo.
Na minha sala, com o vinho já servido, ergo a taça para a tela do celular como se estivesse brindando com fantasmas.
— Que comece a contagem regressiva. — falo, tranquila.
Bebo um gole e observo Ruby caminhando de volta para o corredor, abraçando o próprio ventre. Ela fala algo com um dos seguranças e, por um segundo, parece frágil.
Eu encosto a taça na mesa e sorrio.
Minha fiança ainda está no bolso de alguém que acha que me controla, mas ninguém controla Astrid Laurent. A prisão só me deu tempo para planejar com calma.
Andrew pensa que me assustou com ameaças, Ethan pensa que me intimida com palavrinhas sobre sangue. Os dois esquecem que eu gosto de relógios. Eu gosto de ver ponteiros correndo. E, quando o coração dele falhar, o dela vai falhar junto. Depois, eu recolho as cinzas e finjo que aconteceu naturalmente.
Ela não sabe. Andrew não sabe. Ethan acha que sabe. Mas eu sei. E saber é a única coisa que me faz sentir viva.
