Capítulo 71 Capítulo 71

Ethan

Eu estava dirigindo sem destino certo, como faço quando a cabeça fica cheia demais. A cidade passava borrada pelo para-brisa, gente apressada, buzinas, luzes. Nada disso entrava de verdade. Meu pensamento estava preso em uma casa grande demais para uma mulher só, em uma barriga crescendo sem mim, em um homem que estava morrendo devagar e fingindo que não.

Foi quando vi o corpo cair.

Primeiro pensei que fosse mais um bêbado, mais um azarado escorregando no próprio cansaço. Reduzi a velocidade por instinto. Quando o carro se aproximou, reconheci o rosto.

Andrew Sinclair.

— Droga… — freio com força, parando atravessado na avenida. — Não agora, seu idiota.

Saltei do carro sem nem desligar o motor. As pessoas ao redor começaram a se afastar, algumas se aproximaram, curiosas demais e inúteis como sempre. Ajoelhei ao lado dele. A pele estava fria, o rosto cinza, os olhos semicerrados.

— Ei. — bato de leve no rosto dele. — Respira, Sinclair. Olha pra mim.

Nada.

Coloquei a mão no pescoço dele. Pulso fraco, irregular. Um aperto estranho atravessou meu peito. Eu podia odiar aquele homem por mil motivos, mas não podia deixar ele morrer ali, estendido no chão como se fosse nada.

— Você não vai morrer na minha frente. — rosnei. — Não assim.

Passei o braço por baixo dos ombros dele e o ergui com dificuldade. Ele era mais pesado do que parecia. O corpo mole, entregue. Algumas pessoas tentaram ajudar.

— Afasta! — gritei. — Abre espaço!

Arrastei Andrew até o carro e o coloquei no banco do passageiro. Ajustei o cinto sem delicadeza nenhuma.

— Aguenta firme, porra. — falei, já ligando o carro. — Aguenta só mais um pouco.

Pisei fundo. Ignorei sinais, xingamentos, buzinas. A mão esquerda no volante, a direita estendida, segurando o ombro dele para mantê-lo ereto.

— Você devia ter me contado antes. — resmunguei, olhando rápido para o rosto dele. — Acha mesmo que eu não ia fazer algo? Devia ter contado para ela, seu bastardo.

Ele gemeu baixo, quase um som.

— É isso. Fica comigo. — falei mais baixo. — Prometeu viver até o garoto nascer. Não esqueceu disso, esqueceu? Prometeu viver até o garoto nascer. Se tu morrer, seu desgraçado, vou até onde sua alma estiver e te trago de volta só para ver o moleque nascer.

A frente do hospital apareceu como um alívio. Estacionei em qualquer lugar e gritei por ajuda antes mesmo de desligar o carro.

— Emergência! — berrei. — Homem desacordado, dor no peito, problema cardíaco grave!

Os enfermeiros vieram rápido. Maca, perguntas, mãos treinadas. Eu expliquei o mínimo necessário enquanto eles o levavam.

— Encontrado desacordado na rua. Pulso fraco.

— Parente? — perguntou uma enfermeira.

— Não… quase… — respondi. — Mas leva ele logo.

Fiquei parado no corredor por alguns segundos, tentando recuperar o fôlego. Minhas mãos tremiam. De raiva, de medo, de tudo junto. Passei a mão pelo rosto e encostei na parede fria.

— Idiota… — sussurrei para o nada. — Achou que ia segurar o mundo sozinho.

Não demorou muito para ouvir passos apressados. Reconheceria aquele som em qualquer lugar. Quando virei o rosto, Ruby vinha pelo corredor quase correndo, a barriga grande à frente do corpo, o cabelo preso numa linda trança perfeita, o rosto molhado de lágrimas.

— Onde ele está? — perguntou sem fôlego. — Onde está o Andrew? O que aconteceu?

Ela me viu só depois. O olhar mudou na mesma hora. Do pânico para a raiva, como se eu fosse a causa de tudo.

— O que você fez com ele, Ethan? — a voz saiu trêmula, mas acusatória.

— Eu encontrei ele desmaiado na rua, ruiva. — respondi. — Trouxe pra cá. Só isso.

Ela nem pareceu me ouvir. Passou por mim e correu até a porta da emergência, tentando entrar.

— Senhora, não pode entrar agora. — disse uma enfermeira, segurando ela com cuidado.

— Ele é meu marido! — Ruby gritou. — Eu preciso ver ele!

Fiquei ali, parado, assistindo como se fosse um intruso na própria cena. Tentei falar alguma coisa, mas ela não olhava mais para mim.

— Ruby… — chamei. — Eu só quero ajudar.

Ela se virou de repente. O rosto vermelho, os olhos inchados, o corpo inteiro tremendo.

— Ajudar? — riu, um riso quebrado. — Você não ajudou! Você destruiu tudo!

As palavras bateram como um soco seco.

— Se ele morrer, é culpa sua! — ela continuou, a voz mais alta. — Sempre sua!

Fiquei imóvel. Não me defendi. Não neguei. Não levantei a voz.

— Você não sabe da verdade. — falei baixo, quase para mim mesmo.

— Verdade? — ela deu uma risada amarga. — A única verdade é que tudo que você toca, você estraga!

Cada palavra encontrou um lugar exato dentro de mim. Onde ainda doía. Dei um passo para trás sem perceber.

— Então reza pra ele acordar. — respondi, a voz firme apesar do peito queimando. — Porque se ele não acordar… você nunca vai precisar descobrir o resto.

Ela não respondeu. Virou o rosto e voltou a encarar a porta da emergência, como se eu tivesse deixado de existir.

Fiquei mais alguns segundos ali. O suficiente para entender que qualquer coisa que eu dissesse só pioraria. Dei as costas e caminhei pelo corredor, passando por gente que não fazia ideia do que estava acontecendo dentro de mim.

Quando saí do hospital, o ar frio bateu no rosto. Apoiei as mãos no carro e respirei fundo, sentindo os olhos arderem.

— Aguenta, Sinclair. — falei para o vazio. — Aguenta por ela. Aguenta pelo moleque.

Entrei no carro e fiquei ali parado, sem ligar o motor. Pela primeira vez em muito tempo, não era o medo que me guiava. Era algo mais pesado. Uma promessa que eu não fiz em voz alta, mas que já estava cravada fundo demais para arrancar.

Se Andrew morresse, eu não seria apenas o homem que a Ruby odiava. Eu seria o homem que teria que cumprir o que ele me pediu. E isso… isso me assustava mais do que qualquer bala no meu peito.

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