Capítulo 72 Capítulo 72
Ruby
Eu me senti horrível assim que as palavras saíram da minha boca.
A raiva que eu joguei em cima do Ethan no corredor do hospital não combinava com o que eu estava sentindo de verdade. Era medo. Medo puro, cru, sem maquiagem. Medo de perder o Andrew, medo de ficar sozinha, medo de tudo desmoronar de uma vez.
Quando eu virei o rosto para dizer qualquer coisa, nem sei o quê, ele já não estava mais ali. E aquilo doeu de um jeito inesperado.
Eu não queria ele por perto. Eu tinha certeza disso. Mas saber que ele tinha ido embora sem insistir, sem lutar, sem me encarar… fez meu peito pesar como se algo estivesse faltando. Como se eu tivesse expulsado a única pessoa que sabia exatamente o que fazer quando o mundo ameaçava cair.
Eu abracei o próprio corpo e fiquei ali, sentada naquela cadeira dura do hospital, esperando o tempo passar. Minutos que pareciam horas. O cheiro de antisséptico me embrulhava o estômago, e Dustyn se mexia dentro de mim como se sentisse minha aflição.
— Calma… — sussurrei, passando a mão pela barriga. — A mamãe está aqui.
Não sei quanto tempo passou até que um médico finalmente se aproximou. Eu levantei no mesmo instante, o coração disparado, as pernas bambas.
— Senhora Sinclair — ele disse, com a voz baixa. — Seu marido está estável, mas o estado ainda é delicado. A senhora pode vê-lo por alguns minutos.
Eu assenti sem conseguir falar. Tive medo de abrir a boca e não sair som algum.
Cada passo até o quarto foi uma batalha. Meu corpo parecia pesado, como se soubesse que algo ali dentro mudaria tudo. Quando empurrei a porta, a imagem me atingiu com força.
Andrew estava pálido. Mais do que eu jamais tinha visto. Havia fios presos ao peito, ao braço, um tubo fino ajudando na respiração. O som ritmado da máquina ao lado da cama era o único sinal de que ele ainda estava ali.
Vivo.
— Meu amor… — sussurrei, caminhando devagar até ele. — Por favor, acorda.
Segurei a mão dele com cuidado, como se qualquer movimento errado pudesse quebrá-lo. A pele estava fria demais. Meu coração apertou tanto que doeu fisicamente.
— Você prometeu — falei, com a voz falhando. — Prometeu que ia estar aqui.
Senti lágrimas escorrerem antes mesmo de perceber que estava chorando. Foi então que a porta se abriu de novo.
Eu virei o rosto, irritada, pronta para pedir silêncio, pronta para expulsar quem quer que fosse. Mas congelei quando vi Ethan entrando no quarto, firme, sério, sem pedir permissão.
— Você não devia estar aqui — eu disse, tentando soar forte, mesmo sentindo tudo ruir por dentro.
Ele me encarou sem desviar o olhar.
— Eu trouxe ele até aqui, Ruby — respondeu. — Eu tenho esse direito.
Antes que eu pudesse retrucar, o médico entrou atrás dele, claramente desconfortável com a presença de Ethan.
— Senhor, por favor, mantenha distância — pediu.
Ethan nem piscou.
— Fala logo o que ele tem.
Meu estômago revirou. Olhei para o médico, implorando em silêncio para que ele não dissesse nada. Para que aquilo fosse apenas um susto. Um desmaio. Uma queda de pressão.
O médico respirou fundo. Olhou para mim. Hesitou. E então falou.
— O senhor Sinclair tem uma condição cardíaca terminal. — Ele engoliu em seco. — Três meses… talvez menos.
O mundo parou.
Foi como se alguém tivesse desligado o som ao meu redor. Eu vi a boca dele se mexer, mas as palavras demoraram a fazer sentido. Quando fizeram, foi como um soco direto no peito.
— O quê? — perguntei, quase sem voz.
Minhas pernas falharam. Eu precisei segurar na cama para não cair.
— Não… — balancei a cabeça, desesperada. — Você está mentindo. Ele me contaria. O Andrew não esconderia isso de mim.
Tudo começou a se encaixar de uma vez. O cansaço. As tonturas. O suor frio. Os sorrisos forçados. As promessas vagas.
Ethan se moveu rápido. Em um segundo, estava segurando o médico pelo colarinho, empurrando-o contra a parede.
— Agora sai daqui — disse, com uma calma assustadora. — A gente precisa ficar sozinho.
O médico não discutiu. Apenas saiu, quase tropeçando. Eu não consegui mais ficar em pé.
Caí de joelhos ao lado da cama, segurando a mão do Andrew com força, como se isso pudesse impedir o tempo de passar.
— Três meses… — repeti, em choque. — Por que você não me contou?
Meu choro saiu alto, feio, descontrolado. Tudo doía. O peito, a cabeça, o coração.
— Eu podia ter ajudado — falei entre soluços. — A gente podia ter enfrentado isso juntos.
Senti uma presença ao meu lado. Ethan se ajoelhou devagar, sem me tocar de imediato. Quando colocou a mão nas minhas costas, foi com cuidado, como se tivesse medo de me quebrar ainda mais.
— Porque ele queria te ver sorrir até o fim — ele disse, a voz rouca. — Ele não queria que você vivesse esperando a morte dele.
Levantei o rosto para encará-lo. Os olhos dele estavam cheios de dor. Não de raiva. De dor.
— Ele me olhava como se eu fosse o futuro — continuei, entendendo tudo tarde demais. — E ele… ele já sabia que não estaria nele.
Apertei a mão de Andrew contra o rosto.
— Idiota… — sussurrei. — Idiota maravilhoso.
Fiquei ali por um tempo que não sei medir. Chorando. Respirando com dificuldade. Tentando aceitar algo que parecia impossível.
Quando ergui o olhar, Ethan ainda estava ali. Silencioso. Presente.
— Eu não sei o que fazer — confessei. — Eu não sei como continuar.
Ele não respondeu de imediato. Apenas olhou para Andrew. Depois para mim.
— Eu sei — disse por fim. — E enquanto ele estiver aqui… eu fico longe. Mas quando esse tempo acabar… você não vai ficar sozinha.
Eu não respondi. Não tinha forças. Voltei meu olhar para o rosto de Andrew, inclinei-me e encostei minha testa na dele.
— Acorda — pedi. — Nosso filho precisa de você. Eu preciso de você.
A máquina continuava marcando o ritmo do coração dele. E, pela primeira vez desde que entrei naquele quarto, eu entendi que o tempo tinha virado nosso maior inimigo.
