Capítulo 73 Capítulo 73

Ruby

Eu sempre achei que o pior medo que alguém podia sentir era perder quem ama. Eu estava errada. O pior medo é saber que vai perder e não poder fazer nada para impedir.

Andrew estava ali, deitado naquela cama, cercado por aparelhos, fios, sons que apitavam como se marcassem o tempo que ainda nos restava. Não era uma possibilidade. Não era um “talvez”. Era uma certeza se aproximando em passos lentos e cruéis.

E isso estava me matando por dentro.

Meu peito doía como se alguém estivesse apertando meu coração com as duas mãos. Eu tentava respirar fundo, mas o ar parecia curto demais. Dustyn se mexia dentro de mim, inquieto, como se sentisse tudo o que eu sentia.

Foi quando a dor veio. Não foi um incômodo. Não foi um aperto leve. Foi uma pontada forte, funda, que atravessou minha barriga e me fez dobrar o corpo instintivamente.

— Ai… — escapei, levando a mão ao ventre.

Ethan, que estava encostado perto da porta, veio até mim no mesmo segundo. O olhar dele mudou na hora. Não era raiva. Não era ciúme. Era pânico puro.

— O que foi? — ele perguntou, vindo até mim. — Ruby?

Antes que eu conseguisse responder, outra dor veio, mais intensa, arrancando um gemido da minha garganta. Minhas pernas tremeram.

— Eu quero um médico! — Ethan gritou, virando-se para o corredor. — Agora!

Em segundos, enfermeiros entraram no quarto empurrando uma maca. Me ajudaram a deitar com cuidado, enquanto um médico se aproximava, já calçando luvas.

— Respira, senhora. — ele disse, firme, mas calmo. — Onde está doendo?

— Na barriga… — falei, com a voz quebrada. — Está vindo em ondas.

Ele me examinou rápido, pressionando levemente, olhando para mim entre um segundo e outro. O rosto dele mudou.

— Ela está entrando em trabalho de parto.

O mundo parou.

— O quê?! — Ethan gritou. — Isso é impossível! Ela só tem oito meses de gestação!

— Trabalho de parto, senhor Storm. — o médico explicou. — Precisamos agir agora.

Meu coração disparou de um jeito desesperado. Virei o rosto imediatamente para a cama ao lado.

Andrew.

— Andrew! — gritei, sentindo as lágrimas escorrerem sem controle. — Andrew, acorda! Por favor! Eu preciso de você!

Por um segundo eterno, nada aconteceu. Então os dedos dele se mexeram.

Os olhos se abriram devagar, pesados, cansados. Ele respirava com dificuldade, mas estava consciente. O olhar dele encontrou o meu.

— Ruby… — a voz saiu fraca, quase um sopro. — Calma… respira… eu estou aqui. Ainda… estou aqui.

Aquilo me destruiu e me sustentou ao mesmo tempo.

— Está doendo muito… — falei, tentando me sentar. — Nosso filho… está vindo…

Tentei sair da maca para chegar até ele, mas outra contração veio com força absurda. Meu corpo se curvou sozinho, o grito preso na garganta.

Antes que eu caísse, braços fortes me ergueram. Ethan me pegou no colo sem pensar.

— Não se mexe. — ele disse, com a voz firme demais para alguém que estava claramente apavorado. — Vocês dois vão ficar bem. Precisamos de uma cama decente! — ele gritou para os enfermeiros. — Agora!

Eles obedeceram sem discutir. Uma cama melhor foi trazida às pressas e colocada ao lado da de Andrew.

Ethan me deitou com cuidado, ajeitando travesseiros, segurando minha mão por um segundo antes de se afastar. Andrew tentou se levantar.

— Eu… eu preciso… — ele gemeu, tentando sair da própria cama.

— Fica deitado! — Ethan ordenou, sem delicadeza nenhuma. — Se você cair agora, vai piorar tudo!

— É o meu filho nascendo… — Andrew respondeu, com lágrimas escorrendo pelo rosto. — Eu não vou ficar deitado enquanto meu filho nasce.

Aquela cena partiu meu coração em pedaços. A dor vinha em ondas cada vez mais fortes. Eu procurava a mão de Andrew no ar.

— Andrew… — chorei. — Eu estou com medo.

Ele esticou o braço o máximo que conseguiu. Nossos dedos se tocaram.

— Olha pra mim, Ruby. — ele pediu, com dificuldade. — Olha só pra mim, ruivinha.

Obedeci.

— Eu te amo. — falei, sem conseguir segurar o choro. — Eu te amo mais do que tudo.

Ele sorriu daquele jeito cansado, mas cheio de amor, que sempre foi só meu.

— Eu também amo você… mais do que a vida.

Outra contração me arrancou um grito alto. O médico se aproximou de novo.

— Precisamos levá-la para o centro obstétrico agora.

— Não! — gritei, desesperada. — Não me tira daqui! Eu não vou sair sem ele!

O médico hesitou. Ethan olhou para Andrew. Andrew fez um esforço enorme para falar.

— Deixa… — ele respirou fundo. — Deixa ela ficar aqui.

— Isso não é o protocolo méd… — o médico começou.

— Dane-se o protocolo. — Ethan rosnou. — O noss.. o filho deles vai nascer aqui.

O médico engoliu seco e assentiu.

— Então precisamos acelerar. — disse. — Preparem tudo aqui.

O quarto virou um caos organizado. Equipamentos, pessoas entrando e saindo, vozes rápidas. Eu só conseguia focar em Andrew.

— Não dorme. — pedi, apertando a mão dele. — Não dorme agora.

— Não vou. — ele prometeu, mesmo com os olhos pesados. — Eu quero ver o Dustyn.

A dor ficou quase insuportável. Eu gritava, chorava, suava frio. Cada contração parecia rasgar meu corpo.

— Respira comigo. — Andrew dizia, tentando acompanhar. — Isso… assim… você é forte…

— Eu não sou forte! — gritei. — Eu estou com medo de te perder!

Ele fechou os olhos por um segundo, respirou fundo.

— Se eu cair… — a voz falhou. — Você continua. Promete?

— Não! — gritei. — Não fala isso agora!

Ethan estava andando de um lado para o outro, xingando os médicos, exigindo rapidez, passando a mão pelo cabelo como se estivesse à beira de enlouquecer.

— Se algo acontecer com ela ou com esse bebê… — ele disse, com os dentes cerrados. — Não sobra ninguém aqui.

— Ethan! — gritei. — Andrew!

Outra contração me fez arquear o corpo.

— Empurra quando eu mandar. — o médico orientou. — Está quase.

Olhei para Andrew, em lágrimas.

— Não deixem ele morrer agora! — gritei, desesperada. — Por favor! Não agora!

Ele apertou minha mão com o pouco de força que tinha.

— Eu estou aqui… — sussurrou. — Ainda estou aqui…

O quarto se encheu de vozes, ordens, tensão.

E eu só conseguia olhar para o homem que amava, rezando com tudo que ainda existia dentro de mim para que ele não fosse embora antes de conhecer o filho que estávamos trazendo ao mundo juntos.

O choro de Dustyn ainda não tinha ecoado. E eu nunca tive tanto medo do silêncio.

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