Capítulo 74 Capítulo 74

Ethan

O quarto virou um campo de guerra em segundos. Gente entrando, gente saindo, vozes atropeladas, metal batendo em metal. Luz forte demais. Cheiro de álcool. E Ruby ali, deitada, suando, chorando, com a barriga enorme tremendo a cada contração.

Do lado, Andrew preso a fios, pálido, teimoso demais para apagar de novo. Eu já vi homens morrerem na minha frente. Já provoquei morte. Já escapei dela. Mas nunca senti medo como senti naquele instante.

O médico olhou para o monitor e falou rápido, direto, sem carinho:

— O parto é de risco. A pressão dela está oscilando demais. E o bebê não está vindo como deveria, ela precisa fazer mais força.

Ruby virou o rosto, desesperada.

— Não… eu não posso perder ele…

Andrew tentou se erguer, mas o corpo não respondeu. A voz dele saiu fraca, arranhada.

— Ruby… olha pra mim…

Ela tentou, mas outra dor veio e arrancou um grito. Eu não pensei. Só agi.

— Tirem todos daqui, só ela fica.

O médico abriu a boca como se fosse discutir. Eu encarei de volta com a calma que eu uso quando decido o destino de alguém.

— Agora.

Os enfermeiros hesitaram um segundo, mas começaram a empurrar curiosos, técnicos e qualquer um que não fosse essencial. Um segurança do hospital tentou entrar, mas eu apontei com o queixo para a porta.

— Fecha.

A porta bateu. O quarto ficou menor. Mais abafado. Mais real.

Ruby segurava o lençol como se fosse rasgar. As pernas tremiam. O cabelo grudava na testa. Os olhos dela estavam perdidos, procurando Andrew, procurando ar, procurando uma saída que não existia.

Eu fui até ela e peguei a mão dela. A pele estava quente e molhada.

— Respira, Ruby. Olha pra mim.

— Eu não consigo!

A frase saiu como um pedido e uma acusação ao mesmo tempo. Como se eu fosse culpado por existir ali. Eu apertei a mão dela com firmeza, sem machucar.

— Consegue sim! Por ele e por você!

Ela soluçou, fez força, e o som da respiração dela virou um esforço animal. Eu vi o peito dela subir e descer rápido demais. Eu vi o medo dela, aquele medo que não tem orgulho, não tem máscara.

Andrew, na cama ao lado, conseguiu virar o rosto. Os olhos dele estavam brilhando de febre e amor. Ele esticou a mão, tentando alcançar Ruby, mas só tocou o ar.

— Eu estou aqui, meu amor… — sussurrou.

Ruby ouviu. Eu vi quando ela se agarrou a isso. Como se aquela frase fosse uma corda puxando ela para fora do abismo.

O médico se posicionou e falou alto, para ser ouvido acima do caos.

— Senhora Sinclair, quando eu mandar, você empurra. Não antes. Você está indo bem. Ouviu? Indo bem.

Ruby fez que sim com a cabeça, mas parecia não acreditar.

Uma contração veio mais longa. Eu senti os dedos dela apertarem os meus com força. Se ela apertasse mais, quebrava.

— Ethan… — ela chamou meu nome como se estivesse engasgando.

— Aqui. — eu respondi. — Não solto.

Eu queria dizer outras coisas. Queria dizer que Andrew não ia morrer naquele quarto. Queria prometer que nada ruim aconteceria. Mas eu não sou esse tipo de homem. Eu não vendo mentira para aliviar dor. Eu só faço acontecer.

Andrew puxou ar e falou de novo, com dificuldade.

— Ruby… ele vai nascer… eu quero ver…

O médico olhou rápido para Andrew, preocupado com a presença dele ali, mas não perdeu tempo.

— Mais uma. Aguenta. E quando eu disser, empurra com tudo.

Ruby fechou os olhos. Lágrimas escorreram para o lado, molhando o travesseiro.

— Andrew… não vai embora… por favor…

O peito de Andrew subiu com um esforço enorme. Ele tentou sorrir. A mão dele tremia e ela a segurou firme.

— Não agora… eu fico… eu fico…

Eu vi a mentira bonita. Eu também menti assim, muitas vezes. Só que a dele doía mais, porque era para ela. O médico levantou a voz:

— Agora! Empurra!

Ruby gritou. Não foi um grito de drama. Foi um grito de sobrevivência. Ela fez força com o corpo inteiro, como se fosse partir ao meio. Eu segurei a mão dela e senti o sangue dela correndo, a vida dela lutando.

— Isso! — o médico incentivou. — De novo! Não para!

Ruby tentou puxar ar e não conseguiu.

— Eu… não…

Eu me aproximei mais.

— Olha pra mim, ruiva. Um segundo. Só um segundo. Puxa o ar. Isso. Segura. Agora solta devagar. Você manda no seu corpo. Você manda.

Ela me encarou, os olhos vermelhos, e pela primeira vez em meses eu vi algo além do ódio e da confusão. Vi confiança, mesmo que pequena. Mesmo que por desespero.

Outra onda veio.

— Empurra! — o médico gritou.

Ruby fez força de novo. E eu ouvi o médico falando com os enfermeiros, rápido:

— Pinça. Compressa. Prepara.

Andrew começou a chorar. Ele não tinha energia para vergonha.

— Eu… eu estou vendo… ele está vindo…

Ruby virou o rosto para Andrew e tentou sorrir no meio da dor. Foi um sorriso quebrado, lindo e desesperado.

— Fica comigo.

— Sempre… — Andrew respondeu, quase sem voz.

O médico inclinou a cabeça e anunciou:

— Vai nascer!

O som que veio depois não foi do médico. Não foi de ninguém adulto. Foi um choro pequeno, agudo, vivo. Um som que encheu o quarto inteiro e apagou tudo por um segundo.

Ruby soltou um soluço tão forte que pareceu arrancar a alma dela.

Eu senti meus olhos arderem. Eu não lembrei de Deus. Eu não lembrei de inferno. Eu só pensei:

— “Ele está respirando.” — minha voz saiu alta depois — Ele é lindo.

Eu falei sem perceber. Minha voz saiu grossa, falhada, como se eu tivesse engolido vidro. Andrew sorriu, as mãos tremendo.

— Dustyn…

O médico limpou o bebê rápido, conferiu sinais, e colocou aquele pacotinho no meu braço por um instante, porque Ruby estava fraca e tremendo. Meu mundo parou, meu coração frio e pequeno se aqueceu e se encheu com algo que transbordou.

Ele era pequeno. Não frágil. Pequeno. Quente. Vermelho. E chorava com raiva, como se já reclamasse do mundo.

Eu segurei com cuidado, como se segurasse algo que eu não merecia tocar. O peso dele me bateu no peito. E, por um segundo, eu entendi o que Andrew vinha sentindo: o medo de perder e a vontade absurda de proteger.

Eu me aproximei de Ruby e entreguei o bebê a ela.

As mãos dela tremeram ao receber. Ela puxou Dustyn para o peito, beijou a testa dele e chorou como criança.

— Ele é perfeito.

Andrew esticou a mão, devagar, como se cada centímetro fosse uma maratona. Ruby aproximou o bebê do lado dele. Andrew tocou o rosto do filho com a ponta dos dedos e fechou os olhos.

— Ele é ruivo… como você, ruivinha.

Ruby riu e chorou ao mesmo tempo.

— O nosso menino…

Eu fiquei ali, ao lado, em silêncio. Por um instante, não houve mágoa. Não houve disputa. Não houve passado. Só vida.

O médico falou algo sobre incubadora, sobre observar, sobre riscos. Eu ouvi, mas minha cabeça estava no que eu via… Ruby com o bebê no colo, Andrew tocando os dois como se guardasse aquela cena dentro do coração falhando.

Eu olhei para Andrew. Ele estava pálido, suado, mas o olhar dele tinha uma paz que eu nunca vi. Era como se ele tivesse ganhado a única guerra que importava.

Ele me encarou. Não como inimigo. Como homem. Eu queria odiar isso. Eu tentei. Mas eu não consegui. Porque aquele momento era dele.

E, talvez, fosse o último.

Eu apertei o maxilar, engoli a dor, e prometi sem dizer em voz alta:

— “Se o mundo tentar levar Ruby e Dustyn, vai ter que passar por mim. E dessa vez, eu não vou falhar.”

Uma enfermeira se aproximou com cuidado.

— Vamos levar ele só um pouquinho pra avaliar, tá? É protocolo por ele ter nascido antes.

Ruby apertou Dustyn contra o peito como se o mundo tentasse arrancar o ar dela.

— Não leva… por favor.

O médico falou mais brando, pela primeira vez.

— A gente só vai pesar, medir e checar a respiração. Ele volta pra você.

Eu toquei o antebraço de Ruby, rápido, como quem pede permissão.

— Deixa eles verem, ruiva. Estou aqui. Andrew está aqui. Ninguém toma seu filho de você. Faço eles baterem um papo com Deus se algo acontecer com o pequeno.

Ela me olhou com raiva e gratidão misturadas. Depois beijou a testa do bebê de novo.

— Volta pra mamãe, tá? Volta.

A enfermeira pegou Dustyn e levou para a mesa ao lado. O choro dele diminuiu e virou um resmungo teimoso. Andrew acompanhou tudo com os olhos, lutando para não apagar.

— Ele é forte… — ele disse. — Ele vai ficar bem.

Eu ouvi o monitor dar um bip mais longo e meu estômago travou. O peito de Andrew subiu lento demais.

— Ei. — Ruby chamou, firme. — Fica comigo. Agora.

Andrew virou o rosto pra ela, cansado, mas atento.

— Eu estou… aqui.

— Então segura. — eu falei. — Ainda não acabou. Pelo seu filho. Agora.

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