Capítulo 75 Capítulo 75

Ruby

O sol nasce devagar, como se tivesse medo de entrar naquele quarto.

A luz atravessa a cortina clara e toca primeiro o rosto do Dustyn, que dorme no meu colo, pequeno, quente, vivo. Eu estou exausta. Meu corpo dói de um jeito profundo, mas nada disso importa. Tudo o que importa está aqui no meu colo, respirando, e ali ao lado, respirando com dificuldade.

Andrew está deitado na cama ao meu lado. Mais pálido do que nunca. Os fios ainda presos ao peito, o oxigênio ajudando seus pulmões cansados. Mas ele está acordado. E está sorrindo.

Ethan continua no quarto. Sentado numa cadeira perto da parede, em silêncio. Como se qualquer movimento pudesse quebrar aquele instante. Como se ele não tivesse coragem de ir embora. Nem de ficar perto demais.

Eu não sei quanto tempo passou desde que Dustyn nasceu. Horas? Minutos? Tudo parece uma linha borrada agora. Só sei que o céu clareou e que Andrew ainda está aqui.

Por enquanto.

— Ele tem o seu olhar… — Andrew diz, a voz fraca, mas cheia de algo que parece paz.

Eu abaixo o rosto e observo nosso filho. O nariz pequeno, a boca levemente aberta, o cabelo claro que já começa a ganhar tom ruivo.

— Eu acho que ele tem o seu. — respondo, tentando sorrir. — Esse jeito calmo… como se estivesse observando o mundo antes de decidir se gosta dele.

Andrew solta um riso baixo, que vira tosse. Meu coração dispara.

— Andrew… — sussurro, alarmada.

— Está tudo bem… — ele diz, recuperando o fôlego. — Só… me emocionei.

Eu me aproximo mais da cama, protegendo Dustyn com o corpo, como se o mundo inteiro fosse uma ameaça.

— Eu não vejo sentido em nada sem você. — confesso, a voz falhando. — Se eu te perder… eu não tenho mais nada.

Ele me olha com atenção. Aquela atenção inteira que sempre teve quando eu dizia algo importante. Mesmo agora, fraco, ele ainda me escuta como se eu fosse o centro do mundo dele.

Andrew estica a mão com esforço e segura meus dedos. A mão dele está fria.

— Você vai ter o nosso filho. — diz, com cuidado. — Ele vai ser a razão da tua vida quando eu não puder mais ser.

Meu peito aperta de um jeito insuportável.

— Não fala assim. — balanço a cabeça, negando. — Não fala como se já estivesse indo.

— Eu preciso falar, Ruby. — ele insiste, e os olhos dele se enchem. — Preciso pra você não desabar quando acontecer.

— Não vai acontecer agora. — respondo rápido, quase agressiva. — Você está aqui. Está vendo ele. Isso é tudo o que importa.

— Por enquanto… — ele sussurra.

Eu fecho os olhos por um segundo, tentando impedir que o desespero me engula.

— Eu vou lutar com você. — digo, abrindo os olhos de novo. — Vou te levar em todos os médicos, vou ficar acordada com você, vou fazer você comer, respirar, viver. Você não vai embora assim.

Andrew sorri. Um sorriso triste, mas cheio de amor.

— Sempre tão teimosa… — sussurra.

Ele move a mão com dificuldade e toca a testa do Dustyn com a ponta dos dedos.

— Ele é perfeito… — diz. — Obrigado por me dar isso, Ruby. Obrigado por me deixar ser pai… nem que seja por pouco tempo.

— Não é pouco tempo. — respondo, chorando. — Não é.

O silêncio cai pesado no quarto.

É quando percebo Ethan.

Ele está de cabeça baixa, os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos unidas. Os olhos dele estão vermelhos. Ele não olha pra mim. Não olha pra Andrew. Parece que está tentando não sentir.

Andrew vira o rosto devagar na direção dele.

— Ethan… — chama.

Ethan levanta o olhar imediatamente. Como se estivesse esperando por isso.

— Cuida deles. — Andrew diz, simples. — Cuida da Ruby… e do meu filho.

Meu coração dispara.

— Andrew, não… — tento interromper.

Mas ele continua, com dificuldade, porém firme.

— Eu sei quem você é. Sei tudo o que fez de errado. — ele respira fundo. — Mas sei o que sente por ela. E sei que você mataria o mundo inteiro se fosse preciso pra mantê-los vivos.

Ethan engole em seco. A mandíbula trava.

— Eu não vou deixar nada acontecer com eles. — responde, a voz rouca. — Eu juro.

Andrew assente devagar, como se aquilo fosse suficiente.

— Então eu posso descansar um pouco.

Eu me aproximo mais, encostando a testa na dele.

— Eu te amo. — digo, sentindo meu corpo tremer. — Mais do que qualquer coisa que já existiu em mim.

Andrew fecha os olhos por um segundo, absorvendo aquelas palavras.

— E eu vou te amar… — ele responde. — Até quando o coração cansar.

Essas palavras me atravessam como um tiro.

— Não fala assim… — sussurro, em desespero.

— Olha pra mim, Ruby. — ele pede.

Eu obedeço.

— Você é a melhor coisa que me aconteceu. — ele diz. — E o Dustyn… ele é a continuação disso. Se eu partir antes do que queria, não pense que te abandonei. Eu só… cheguei ao limite do que meu corpo aguenta.

As lágrimas escorrem livres agora. Não tento mais contê-las.

— Eu não quero aprender a viver sem você. — confesso.

— Você não vai estar sozinha. — ele responde, olhando rápido para Ethan. — Nunca esteve.

Eu sei o que ele quer dizer. E isso dói também.

Andrew começa a respirar mais lento. Os olhos pesados. O corpo cansado demais para continuar lutando acordado.

— Descansa um pouco. — digo, tentando sorrir. — Eu fico aqui.

— Eu sei… — ele sussurra. — Sempre ficou.

Ele fecha os olhos devagar. Meu coração congela por um segundo.

— Andrew?

A respiração dele continua. Fraca, mas continua. Eu solto o ar, em soluços, e abraço Dustyn com cuidado, encostando o rosto no cabelo dele.

— Seu pai é o homem mais forte que eu já conheci. — sussurro para meu filho. — E eu vou contar isso todos os dias pra você.

Ethan se levanta devagar e se aproxima, sem tocar em mim, sem tocar no bebê. Apenas fica ali, de pé, como um guardião silencioso.

— Ele vai precisar de você. — digo, sem olhar. — Mesmo que eu não saiba como lidar com tudo isso agora.

— Eu vou estar aqui. — Ethan responde. — Mesmo que você me odeie. Mesmo que nunca me perdoe.

Eu não respondo. Não consigo. Fico apenas ali, chorando, sentindo o peso de tudo que está por vir.

O sol sobe um pouco mais no céu. Andrew dorme, fraco. Dustyn respira tranquilo no meu colo. Ethan permanece de pé, imóvel, como se tivesse feito um juramento.

E eu entendo, com uma clareza cruel, que o amor não salva todo mundo. Mas deixa promessas. E, naquele quarto, três destinos estão ligados para sempre.

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