Capítulo 76 Capítulo 76

Ruby

O portão da mansão se abre devagar, e eu sinto como se estivesse entrando em um lugar novo, mesmo sendo a mesma casa de sempre.

Depois de uma semana no hospital, voltar pra casa com o Dustyn nos braços parece surreal. Meu corpo ainda dói, meus pensamentos ainda estão confusos, mas existe algo diferente no ar. A casa está mais viva. Mais quente. Como se tivesse aprendido a respirar junto com a gente.

Andrew entra primeiro, carregando nosso filho com um cuidado quase exagerado. Ele segura o Dustyn como se fosse feito de vidro. Ou como se tivesse medo de que o mundo resolvesse roubá-lo a qualquer segundo.

— Ele é pequeno demais pra um homem do meu tamanho. — Andrew diz, olhando para o bebê com um sorriso bobo que eu nunca tinha visto antes.

Eu rio baixo, fechando a porta atrás de nós.

— E tem o mesmo temperamento. — respondo. — Já manda em todo mundo sem abrir os olhos.

Andrew solta um riso fraco, mas verdadeiro, e inclina o rosto para beijar o topo da cabeça do Dustyn.

— Isso é herança genética. — brinca. — Não tinha como escapar.

Os empregados esperam em silêncio respeitoso. Alguns sorriem, outros estão claramente emocionados. Dona Hellen leva a mão ao peito quando vê o bebê.

— Seja bem-vindo, pequeno senhor. — diz, com a voz embargada.

Andrew assente para todos, orgulhoso demais para esconder.

— Esse é o Dustyn. — diz, como se estivesse apresentando o maior tesouro do mundo. — Meu filho.

Eu sinto meus olhos arderem.

Seguimos para o quarto do bebê. Quando a porta se abre, eu paro no lugar.

O quarto está decorado com flores brancas, arranjos simples, delicados. O berço está no centro, envolto por uma luz suave que entra pela janela. Tudo cheira a limpo, a novo, a começo.

Andrew olha em volta devagar. Os olhos dele se enchem de lágrimas.

— Eu nunca pensei que felicidade tivesse cheiro. — ele diz, a voz baixa. — Mas agora eu sei… tem cheiro de flor e de casa.

Ele se aproxima do berço, ainda com o Dustyn nos braços, e fica alguns segundos parado, respirando fundo, como se quisesse guardar aquele momento dentro de si.

Eu observo de longe, encantada e com o coração apertado ao mesmo tempo.

— Eu nunca pensei que você fosse o tipo de homem que chora. — digo, tentando brincar, mas minha voz sai mais frágil do que eu esperava.

Andrew me olha e sorri daquele jeito cansado e bonito que só ele tem agora.

— A gente muda quando segura o próprio milagre. — responde.

Ele coloca o Dustyn com cuidado no berço. O bebê se mexe um pouco, faz um som baixo, mas continua dormindo. Andrew passa a mão devagar sobre o peito pequeno do filho, como se estivesse conferindo se ele ainda está ali.

— Ele respira tão calmo… — sussurra. — Parece que já sabe que está seguro.

Eu me aproximo e coloco a mão sobre a dele.

— Porque está. — digo. — A gente vai proteger ele de tudo.

Andrew me olha por alguns segundos. Há algo diferente no olhar dele. Uma mistura de amor, medo e urgência.

— Promete? — ele pergunta.

— Prometo. — respondo sem hesitar.

Mais tarde, já no nosso quarto, decidimos colocar o berço ali. Nenhum de nós consegue imaginar o Dustyn dormindo longe demais.

— Quero ouvir ele respirar à noite. — Andrew diz, ajudando a posicionar o berço ao lado da cama. — Só pra ter certeza de que tudo isso é real.

— Você é paranóico. — respondo, rindo.

— Sou pai. — ele rebate. — É pior.

A primeira noite em casa chega. Eu estou exausta. Meu corpo pede descanso, mas minha mente não desliga. Andrew se deita ao meu lado por alguns minutos, o braço em volta de mim, a mão pousada na minha barriga ainda inchada.

— Obrigado. — ele diz de repente.

— Pelo quê?

— Por não desistir de mim. — responde. — Nem quando tudo parecia pesado demais.

Eu viro o rosto para ele.

— Você nunca foi um peso, Andrew.

Ele fecha os olhos por um instante.

— Eu sei. — diz. — Mas às vezes parece que sou eu que estou atrasando a vida de vocês.

— Para. — peço, tocando o rosto dele. — Não faz isso hoje.

Antes que ele responda, o Dustyn chora. Um choro fino, urgente, que atravessa o quarto. Andrew abre os olhos na mesma hora e se senta na cama.

— Eu vou. — diz rápido.

— Andrew, você precisa descansar…

— Dorme, meu amor. — ele interrompe, já se levantando. — Deixa o papai aprender como é ser insubstituível.

Ele pega o Dustyn no colo com cuidado, apoiando a cabecinha pequena no ombro.

— Ei, pequeno… — sussurra. — O que foi agora, hein?

O bebê continua chorando, mas parece se acalmar um pouco ao ouvir a voz dele. Andrew começa a andar devagar pelo quarto, embalando o Dustyn com movimentos lentos.

— Shhh… — ele sussurra. — Eu sei, o mundo é grande demais. Mas eu estou aqui.

Eu fico deitada, observando a cena com o coração cheio. Andrew parece cansado. Os ombros caídos, a respiração um pouco mais pesada do que deveria. Mas os olhos dele brilham. Ele está ali por inteiro.

— Você não precisa fazer tudo sozinho. — digo, baixinho.

— Eu sei. — ele responde. — Mas deixa eu tentar um pouco mais.

O Dustyn se acalma aos poucos. Andrew encosta o rosto no cabelo do bebê e fecha os olhos por um segundo, como se estivesse gravando aquele momento na memória.

— Ele tem o cheiro da gente. — diz. — Não é estranho?

— É perfeito. — respondo.

Andrew volta para o berço e coloca o Dustyn com cuidado. Fica ali mais alguns segundos, observando.

— Boa noite, campeão. — sussurra. — Prometo que amanhã eu faço melhor.

Ele volta para a cama devagar e se deita ao meu lado. Eu me aproximo e abraço o corpo dele com cuidado.

— Você já está fazendo. — digo. — Muito melhor do que imagina.

Andrew passa a mão pelo meu cabelo.

— Se eu pudesse escolher um último lugar pra estar… — começa.

— Não. — interrompo. — Não começa com isso.

Ele suspira.

— Tá bom. — concorda. — Hoje não.

O Dustyn acorda de novo duas horas depois. E depois mais duas. E mais uma.

Em todas as vezes, Andrew insiste em levantar primeiro. Mesmo quando eu reclamo. Mesmo quando digo que ele precisa descansar.

— Deixa eu viver isso. — ele diz. — Mesmo cansado, mesmo fraco… deixa eu viver.

E eu deixo.

Porque, pela primeira vez desde que tudo começou a dar errado, eu vejo Andrew vivo de verdade. Não apenas sobrevivendo. Não apenas resistindo.

Vivendo.

E isso me assusta tanto quanto me enche de esperança.

Quando o sol começa a nascer, eu estou sentada na cama com o Dustyn no colo. Andrew dorme ao meu lado, exausto, a mão ainda estendida em nossa direção.

Eu olho para os dois e sinto o peito apertar. Não sei quanto tempo teremos. Não sei o que vai acontecer depois.

Mas naquele primeiro dia em casa, eu entendo uma coisa com clareza dolorosa e bonita ao mesmo tempo:

O amor não cura tudo. Mas dá sentido a cada segundo.

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