Capítulo 77 Capítulo 77

Andrew

Acordo antes do sol nascer. Não é dor que me desperta dessa vez. Nem o aperto no peito, nem a falta de ar. É um som baixo, quase um resmungo, vindo do berço ao lado da cama.

Dustyn.

Viro o rosto devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrar aquele momento. Ele está acordado, os olhos ainda meio perdidos, a boquinha fazendo um biquinho impaciente.

— Bom dia, campeão… — sussurro.

Ruby dorme profundamente. O rosto dela está cansado, mas sereno. Não quero acordá-la. Estico o braço, pego o Dustyn com cuidado e o trago para perto do peito.

O calorzinho dele me atinge de um jeito estranho. Bom. Forte. Real.

— Calma… papai está aqui.

Ele se mexe, resmunga mais alto. O choro ameaça sair. Eu balanço o corpo devagar, como vi Ruby fazer tantas vezes nesses últimos dias.

— Shhh… eu sei… eu também acordei sem entender nada hoje.

Ele não chora. Apenas se acomoda, encostando o rosto pequeno no meu pescoço. Meu peito aperta. Não de dor. De medo. De amor. De tudo junto.

Levo ele até o trocador. Abro a fralda com cuidado exagerado, como se estivesse lidando com algo frágil demais para o mundo.

— Isso aqui é… — faço uma careta — definitivamente uma armadilha.

O cheiro confirma.

— Ruby… — sussurro sozinho, rindo baixo. — Como é que você faz isso parecer tão simples?

Limpo, troco, fecho a fralda torta.

— Não ficou perfeito, mas ficou honesto.

Ele me encara, sério demais para alguém tão pequeno.

— Não me julga assim, Dustyn. É meu primeiro dia oficial como especialista.

Preparo a mamadeira com leite materno que Ruby deixou na geladeira. Confiro a temperatura três vezes.

— Se isso estiver frio demais, você reclama. Se estiver quente demais, eu entro em pânico. Combinado?

Sento na poltrona e coloco ele no braço, do jeito que vi nos vídeos, do jeito que Ruby me ensinou. Ele aceita. Mama com vontade.

— Olha só… — falo. — Você confia em mim.

Esse pensamento quase me desmonta.

Depois que ele termina, fica quieto, observando o ambiente como se estivesse registrando tudo. Eu fico ali, parado, com medo de piscar e perder aquele instante.

Ruby aparece na porta do quarto, encostada no batente, sorrindo.

— Vocês dois parecem conspirar alguma coisa.

— Ele está me contando todos os planos dele. — respondo. — A maioria envolve dormir, comer e dominar o mundo.

Ela ri baixo e se aproxima.

— Você parece um menino descobrindo o mundo.

— É que eu estou mesmo. — digo, sincero. — Tudo mudou. Até eu.

Ela se senta ao meu lado e beija a testa do Dustyn.

— Você está indo muito bem.

— Estou tentando aprender rápido. — confesso. — Não sei quanto tempo tenho, mas sei que quero usar bem.

Ela não responde. Apenas segura minha mão.

Passo o resto da manhã com ele no colo. Aprendo a identificar cada som. Cada careta. Cada movimento.

Invento músicas sem sentido.

— Dorme, dorme, pequeno leão…

— Andrew… — Ruby me interrompe, rindo. — Isso não é uma música.

— É sim. — respondo. — É arte experimental.

— Ele vai puxar esse talento de você?

— Espero que não. — sorrio. — Quero que ele seja melhor.

No início da tarde, vamos para o jardim.

O sol está mais baixo, o vento leve. Me sento no banco de madeira com o Dustyn no colo, o corpo apoiado em almofadas.

— Vê isso, Dustyn? — digo, apontando para o céu que começa a mudar de cor. — É assim que o mundo diz “obrigado por mais um dia”.

Ele pisca devagar, como se estivesse ouvindo.

— Nem sempre o mundo é gentil. — continuo. — Mas às vezes… ele tenta.

Ruby chega por trás e me abraça, o rosto encostando no meu ombro.

— Ele vai ter as tuas lembranças.

— Não. — respondo, virando um pouco o rosto para ela. — Vai ter as nossas.

Encosto minha testa na dela.

— Quero que ele saiba que foi amado desde o primeiro segundo.

— Ele vai saber. — ela diz.

No fim da tarde, sentamos para jantar. Olho para o celular vibrando sobre a mesa. Mensagens. Reuniões. Problemas. Desligo.

— Decidi tirar uma licença.

Ruby ergue os olhos.

— Do trabalho?

— De tudo. — respondo. — Só quero vocês.

Ela me encara, surpresa.

— Sério?

— Sério. — sorrio. — O mundo pode esperar, mas meu filho não.

Seguro a mão dela.

— Coloquei alguém de confiança para cuidar de tudo por enquanto. Não quero dividir minha atenção.

Ela aperta meus dedos.

— Então o mundo vai aprender com você.

Depois do jantar, banho no Dustyn. Água morna. Movimentos lentos. Ele chora no começo, depois se acalma.

— Eu sei… — falo baixo. — Ninguém gosta de mudanças bruscas. Nem eu.

Seco, visto, seguro. O cansaço bate forte. Minhas pernas tremem um pouco quando caminho até o quarto. Disfarço.

— Quer que eu fique com ele? — Ruby pergunta.

— Não. — respondo. — Hoje ele é meu.

Deito com o Dustyn sobre o peito, ouvindo a respiração dele. A minha está um pouco irregular, mas não importa agora.

— Se um dia você esquecer do meu rosto… — sussurro — lembra da minha voz. Eu vou estar em você.

Ele dorme. Eu não.

Fico ali, olhando o teto, sentindo cada batida do meu coração como um aviso e uma bênção ao mesmo tempo.

Sou pai. E isso muda tudo.

Duas noites depois quando Dustyn finalmente adormece no berço, eu fico alguns segundos parado, observando o peito pequeno subir e descer. Meu corpo pede descanso, mas minha mente pede outra coisa.

Ruby.

Saio do quarto em silêncio e encontro Hellen no corredor.

— Hellen… — chamo baixo.

Ela se vira na hora, atenta como sempre.

— O senhor precisa de algo, senhor Andrew?

— Preciso sim. — respiro fundo. — Quero um jantar especial hoje. A comida favorita da Ruby. Pode preparar?

O rosto dela se suaviza.

— Claro. Risoto de limão siciliano com camarões?

Sorrio.

— Exatamente esse. — faço uma pausa. — E… se puder enfeitar a sala de jantar com rosas vermelhas. Música também. Algo romântico.

Ela entende sem perguntar mais nada.

— Considere feito.

Algumas horas depois, entro na sala de jantar e o coração aperta de um jeito bom. As rosas espalhadas pela mesa, as velas acesas, a música baixa preenchendo o ambiente. Tudo simples, mas cheio de intenção.

Vou até o quarto.

Ruby está sentada na cama, com o cabelo solto, usando uma roupa confortável.

— O que foi? — ela pergunta, estranhando meu sorriso.

— Vem jantar comigo.

— Em um restaurante? — ela ri. — Andrew, a gente pode jantar em casa. Eu não quero que você se esforce tan…

— Hoje não vamos sair. — estendo a mão. — Hoje sou só um homem apaixonado convidando a mulher da vida dele para comer algo delicioso e conversar.

Ela hesita um segundo. Depois aceita. Quando entra na sala, os olhos se enchem de lágrimas.

— Você fez tudo isso… por mim?

— Por nós. — respondo. — Porque eu nunca quero que você duvide do quanto é amada.

O jantar é leve, cheio de risos, lembranças e olhares demorados. Não falamos de doença. Não falamos de medo. Só de nós.

Depois, levo Ruby até a varanda do quarto. A lua cheia ilumina o jardim inteiro. O vento é suave.

— É linda… — ela diz.

— É. — concordo. — Mas não chega aos teus olhos quando você sorri sem medo.

Ela se vira pra mim.

— Andrew…

Seguro o rosto dela com cuidado.

— Eu vou continuar te amando. — digo, firme. — Aqui, ou em qualquer lugar que eu vá depois. Amor não morre quando o corpo falha.

As lágrimas dela caem silenciosas.

— Não promete isso…

— Prometo. — encosto a testa na dela. — Porque é a única coisa que eu sei cumprir até o fim.

A beijo. Um beijo lento, profundo, cheio da nossa história. E, por alguns segundos, o mundo inteiro cabe ali.

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