Capítulo 78 Capítulo 78
Ruby
Dustyn completa três meses hoje.
Só de pensar nisso, meu peito aperta de um jeito doce e dolorido ao mesmo tempo. Três meses desde que ele nasceu antes da hora. Três meses desde que minha vida deixou de ser só minha. Três meses desde que Andrew passou a viver exclusivamente para nós.
Ele não vai mais à empresa. Não atravessa a cidade, não entra em salas frias, não senta em mesas longas com pessoas que falam de números. Quando realmente precisam dele, o assistente vem até a mansão, se senta na sala de estar e tudo é resolvido em meia hora. Andrew nunca demonstra cansaço nessas reuniões curtas. Parece até aliviado por não precisar sair de casa.
— Nada lá fora é mais importante do que isso aqui. — ele sempre diz, olhando pra mim e depois pro Dustyn.
Foi ideia dele registrarmos tudo. Fotos. Vídeos. Áudios. Pequenos textos escritos à mão.
— Quero que ele tenha memórias. — disse numa manhã, enquanto organizava uma caixa. — E quero que você também tenha, caso um dia precise lembrar que foi feliz.
Eu entendi o que ele quis dizer. Doeu. Mas concordei.
Criamos um ritual. Todos os dias, algum registro. Nem que fosse um vídeo curto, nem que fosse uma foto tremida, nem que fosse só a gravação da risada do Dustyn.
Hoje, acordo com risadas vindas do quarto do bebê. Risadas altas. Aquelas risadas que fazem o ar vibrar.
Me levanto rápido, o coração aquecido, e sigo o som. Quando abro a porta, a cena me desmonta inteira.
Andrew está com uma toalha amarrada no pescoço, como uma capa improvisada. Ele anda pelo quarto com o Dustyn no colo, fazendo vozes engraçadas, pulando devagar, como se fosse um super-herói meio desajeitado.
— O Super-Pai chegou! — ele anuncia, com voz grossa. — Aqui ninguém chora!
Dustyn gargalha. Gargalha alto. O som mais puro que eu já ouvi na vida. Fico parada na porta, só observando.
— O que você está fazendo? — pergunto, rindo sem perceber.
Andrew se vira, orgulhoso.
— Ensinando ele que o pai dele é invencível.
Me aproximo e beijo o rosto dele, rápido, carinhoso.
— E a mãe dele é o escudo. — digo.
Andrew sorri de um jeito que me faz esquecer, por alguns segundos, tudo o que existe de errado no mundo.
— Exatamente isso. — ele responde.
Passamos a manhã inteira juntos. Cozinhamos. Ou melhor, Andrew cozinha enquanto eu fico sentada com o Dustyn no colo, dando palpites inúteis.
— Isso vai queimar.
— Não vai.
— Vai sim.
— Confia em mim.
Queima um pouco. Rimos. Depois do café, Andrew pega a câmera.
— Primeiro banho do dia de três meses. — anuncia, como se estivesse apresentando um programa de TV.
— Você não cansa? — pergunto.
— Nunca. — ele responde. — Quero que ele veja isso quando crescer. Quero que ele saiba que foi amado desde o primeiro segundo.
Dou banho no Dustyn enquanto Andrew filma tudo.
— Olha pra câmera, filho. — ele diz. — Diz pra ela que você gosta de água.
Dustyn bate as perninhas, espirrando água.
— Acho que isso é um sim. — digo.
Gravamos o primeiro bocejo depois do banho. O jeito como ele fecha os olhos, a boca pequena abrindo devagar.
— Isso é coisa sua. — Andrew comenta. — Você boceja assim.
— Não bocejo, não.
— Boceja.
Ele prova mostrando um vídeo meu antigo. Perco a discussão e rimos de novo.
À tarde, deitamos no tapete da sala. Dustyn fica entre nós, olhando para o teto, balbuciando sons sem sentido.
— O que você acha que ele está dizendo? — pergunto.
Andrew se inclina, sério.
— Ele está dizendo que somos estranhos.
— Provavelmente.
— Mas que ele gosta da gente mesmo assim.
Ficamos ali por um tempo, em silêncio, só ouvindo a respiração dele. Andrew grava um áudio.
— Hoje é terça-feira. O Dustyn tem três meses. Ele está com um macacão azul, babando no tapete da sala. A mãe dele está sorrindo. Eu estou feliz. Muito feliz.
Minha garganta aperta.
— Você não precisa narrar tudo. — digo.
— Preciso sim. — ele responde, calmo. — Algumas coisas precisam ser ditas em voz alta pra continuarem existindo.
No fim da tarde, tiro uma foto dos dois no jardim. Andrew segura o Dustyn perto do peito. O sol bate de lado, iluminando os dois.
— Essa é pra capa do álbum. — digo.
— O nome podia ser esse. — ele sugere. — “Uma família de verdade”.
Concordo em silêncio.
À noite, depois que Dustyn mama e adormece, encontro Andrew sentado na poltrona do quarto, com o bebê deitado no peito dele.
A mão grande protegendo o corpo pequeno. O rosto cansado, mas sereno. Me sento ao lado da cama, observando. O quarto está em silêncio. Só o som da respiração dos dois.
— Você é tudo que eu pedi sem coragem de acreditar que merecia. — sussurro.
Andrew abre os olhos devagar, como se já estivesse meio dormindo.
— E você é o motivo de eu ainda estar aqui. — ele responde, baixo.
Meu peito aperta. Engulo o choro.
— Não fala assim.
— Falo sim. — ele diz, sem drama. — Não por tristeza. Por gratidão.
Passo a mão no cabelo dele.
— O Dustyn precisa de você.
— Eu sei. — ele responde. — Por isso estou lutando.
Deito ao lado deles, encostando a cabeça no ombro de Andrew.
— Promete que amanhã a gente grava mais?
Ele sorri.
— Prometo. Amanhã, depois de amanhã, enquanto der.
Fecho os olhos.
Ali, naquele quarto, com nosso filho entre nós, eu entendo uma coisa com clareza dolorosa e bonita. Somos uma família de verdade. E, por agora, isso é tudo o que importa.
Fico ali, ouvindo a respiração dos dois, tentando gravar aquele instante dentro de mim sem câmera, sem celular, sem nada que possa falhar.
Só memória.
Andrew ajeita Dustyn com cuidado, como se cada movimento precisasse ser autorizado pelo coração.
— Ele dorme melhor assim. — sussurra. — Encostado.
— Igual a você. — respondo. — Você sempre dormiu melhor quando estava perto de mim.
Ele sorri de leve, sem abrir os olhos.
— Porque perto de você eu nunca precisei fingir.
Essa frase fica no ar, pesada e bonita.
Levanto devagar e pego a câmera mais uma vez. Não filmo. Só tiro uma foto. Andrew com o filho no peito. A mão dele protegendo a cabecinha pequena. O rosto cansado, mas em paz.
— Última de hoje. — digo.
— Promete que se um dia você olhar essas fotos e sentir saudade… vai lembrar que eu fui feliz? — ele pergunta, baixo.
Engulo em seco.
— Prometo. Mas você também promete que vai estar aqui amanhã pra mais uma?
Ele abre os olhos e me olha com aquele carinho que sempre desmonta tudo em mim.
— Amanhã, depois de amanhã… enquanto eu puder, Ruby.
Deito ao lado deles novamente, passando o braço por cima dos dois. Ali, naquele momento cheio de amor, eu percebo que não estamos apenas criando um filho.
Estamos criando lembranças que vão sobreviver a qualquer ausência. E, pela primeira vez em muito tempo, eu não sinto medo do amanhã. Só gratidão pelo agora.
