Capítulo 79 Capítulo 79

Andrew

Acordo antes do sol. Meu corpo ainda dói, o peito aperta de um jeito silencioso, mas hoje isso não me incomoda. Aprendi a ignorar o que não posso mudar e a prestar atenção apenas no que importa.

E o que importa está nos braços da mulher mais incrível que já conheci.

Vou até a cozinha devagar, para não acordar ninguém. Coloco água no fogo, preparo café, corto frutas, faço torradas do jeito que Ruby gosta. Nada sofisticado. Só cuidado.

Quando volto para o quarto, a cena me para no meio do caminho.

Ruby dorme de lado, com Dustyn encaixado no peito. A boquinha aberta, a respiração tranquila. O braço dela envolve o corpinho pequeno como se o mundo inteiro pudesse acabar ali fora, mas dentro daquele círculo nada tivesse permissão para entrar.

É ali que tudo faz sentido.

Pego o celular com cuidado e tiro uma foto. Não penso duas vezes. Envio para o meu próprio e-mail e escrevo no assunto:

— “Meu para sempre.”

Deixo o celular de lado, apoio a bandeja na mesinha e me sento na beira da cama. Fico apenas olhando.

— Bom dia, meu mundo. — sussurro.

Ruby se mexe um pouco, abre os olhos devagar.

— Que horas são? — pergunta, sonolenta.

— A hora de você ser mimada. — respondo, sorrindo.

Ela ri baixo.

— Você não cansa?

— Nunca. — digo. — Nem se eu tivesse cem anos.

Ela se senta com cuidado, ajeitando Dustyn.

— Você devia estar descansando mais.

— Eu descanso olhando pra vocês.

Ela revira os olhos, mas sorri. Sei que acredita.

— Café na cama? — pergunta.

— Com tudo que você merece.

Ela pega uma fruta, dá um pedacinho para Dustyn cheirar, só pela brincadeira.

— Ele vai achar que o mundo é gentil assim sempre.

— E não é? — pergunto.

Ela me olha por alguns segundos antes de responder.

— Pode ser. Se a gente ensinar.

Depois do café, trocamos Dustyn com calma. Sem pressa. Sem urgência. Tudo no ritmo dele.

Decidimos sair.

Nada planejado. Nada grande. Só um passeio leve. Os três.

O ar da manhã está fresco quando entramos no carro. Ruby vai atrás, com Dustyn no bebê conforto, falando com ele o tempo todo.

— Vamos passear, meu amor. Ver o céu. Ver gente. Ver vida.

Dirijo devagar. Não tenho para onde correr.

Paro perto de um pequeno lago que fica a alguns minutos da mansão. Um lugar simples, com árvores, um caminho de pedra e silêncio suficiente para ouvir os próprios pensamentos.

Desço primeiro e ajudo Ruby. Seguro a mão dela automaticamente. Não penso. Só faço.

— Você segura como se eu fosse cair a qualquer momento. — ela comenta, brincando.

— Porque o dia que eu soltar, o mundo pode acabar.

Ela aperta meus dedos.

— Dramático.

— Verdadeiro.

Caminhamos devagar. O sol reflete na água. Alguns patos passam nadando, despreocupados. Dustyn dorme de novo, como se entendesse que aquele lugar também é seguro.

— Eu não sabia que podia existir tanta paz. — digo, sem perceber que falei em voz alta.

Ruby olha para mim.

— Ela sempre existiu, Andrew. Você só nunca teve tempo pra olhar.

Paro por um instante. Ela está certa. Sempre esteve.

Sento em um banco perto do lago e pego Dustyn no colo. Ruby me entrega com cuidado, como se estivesse passando algo sagrado.

— Vem cá, pequeno. — falo.

Olho para o rostinho dele, tão parecido com o dela, e sinto algo que não sei nomear direito. Não é medo. Não é tristeza. É amor puro.

— Prometo que mesmo quando eu não estiver mais aqui… — começo, a voz falhando sem aviso.

Ruby me interrompe na mesma hora.

— Não fala assim. — diz, firme. — Você está vivo. A gente está vivendo. E é isso que importa.

Levanto os olhos para ela. Ela não está pedindo. Está afirmando. Respiro fundo.

— Então vamos viver. — digo, aproximando meu rosto do dela. — Até o último suspiro, mas juntos.

Encosto a testa na dela. Ficamos assim por alguns segundos, em silêncio.

Depois voltamos a andar. Ruby conversa com Dustyn, descreve tudo como se ele pudesse entender.

— Olha as árvores, meu amor. Olha o céu. Esse é o mundo. E ele é bonito.

Eu observo os dois e penso em como é injusto que algo tão certo tenha chegado tão tarde.

De volta pra casa, passamos a tarde juntos. Nada grandioso.

Troco fraldas. Faço mamadeira. Seguro Dustyn enquanto Ruby toma banho. Depois ela faz o mesmo por mim.

Rimos quando ele cospe leite na minha camisa.

— Ele tem pontaria. — ela diz.

— Puxou o pai.

Mais tarde, sentamos na sala com a câmera.

— Vamos gravar mais um vídeo? — Ruby pergunta.

— Sempre.

Ela aperta o botão e se senta ao meu lado.

— Hoje o Dustyn aprendeu a segurar meu dedo com força e torcer, esse danadinho. — ela diz para a câmera.

— E eu aprendi que posso viver sem muitas coisas… menos vocês. — completo.

Ela me olha de lado.

— Não exagera.

— Não exagero. Registro.

À noite, depois que Dustyn dorme, ficamos na varanda. O ar está fresco. A lua ilumina o jardim. Ruby encosta a cabeça no meu ombro.

— Você está cansado? — pergunta.

— Um pouco.

— Quer entrar?

— Não. Quero ficar aqui mais um pouco.

Ela passa o braço pela minha cintura.

— O que você pensa quando olha pra tudo isso?

Penso antes de responder.

— Que o futuro não me assusta mais. — digo. — Porque mesmo que ele seja curto… foi completo.

Ela se vira para mim.

— Não fala como se estivesse se despedindo.

Seguro o rosto dela.

— Eu falo como alguém que finalmente chegou onde precisava estar.

Beijo sua testa. Depois sua boca. É um beijo lento. Cheio. Sem urgência.

— Eu te amo. — digo.

— Eu sei. — ela responde. — E eu te amo também.

Ficamos ali até o frio apertar. Quando deitamos, Dustyn dorme entre nós. Passo a mão pelos dois e fecho os olhos. Se amanhã for tudo o que eu tiver… hoje foi perfeito.

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