Capítulo 80 Capítulo 80

Ruby

É domingo. Eu sei antes mesmo de abrir os olhos, porque a casa tem outro ritmo. Não é silêncio, isso já não existe mais desde que Dustyn chegou, mas uma calma diferente, um ar que parece mais leve, como se o mundo tivesse decidido andar devagar só por hoje.

O cheiro me alcança primeiro. Flores. Café recém-passado. Algo assando no forno. Sorrio antes mesmo de me mexer.

Abro os olhos devagar e a primeira coisa que noto é o berço vazio ao lado da cama. Estico a mão para o outro lado e encontro o lençol frio. Andrew já levantou.

Ouço a voz dele vindo da cozinha. Desafinada. Muito desafinada.

— Dorme, dorme, meu pequeno…

Seguro o riso ainda deitada. Levo a mão ao rosto, esfrego os olhos e fico alguns segundos ali, só ouvindo. Ele muda a melodia, inventa palavras, canta como se estivesse num palco invisível.

Levanto devagar, visto um robe leve e sigo o som.

Andrew está na cozinha com Dustyn preso ao peito no sling. Meu filho dorme profundamente, a cabeça apoiada, completamente entregue. Andrew anda de um lado para o outro, mexe uma panela com uma mão e segura o corpo do bebê com a outra.

Pego o celular e começo a filmar.

— Eu devia cobrar ingresso pra esse show — digo, rindo.

Andrew se vira com um falso olhar ofendido.

— Ei. Respeita o artista.

Ele aponta para Dustyn.

— O público está encantado.

— O público ainda não desenvolveu senso crítico — respondo, me aproximando.

Andrew ri, aquele riso aberto que eu nunca me canso de ver. Vem até mim e me beija devagar, com cuidado, como se o beijo também pudesse acordar o bebê.

— Bom dia, ruivinha.

— Bom dia.

— Hoje é domingo — ele diz. — Domingo pede café especial.

A mesa está posta com um cuidado que me emociona. Frutas cortadas, pão quente, café passado na hora. Um vaso simples com flores brancas no centro.

— Você acordou cedo pra fazer tudo isso?

— Acordei feliz — ele responde. — Dá menos trabalho.

Sentamos. Dustyn se mexe um pouco, resmunga, mas continua dormindo.

— Dormiu bem? — Andrew pergunta.

— Dormi. — sorrio. — E você?

— Dormi o suficiente pra acordar assim.

Ele se inclina e beija a testa do nosso filho.

— Bom dia, campeão.

Depois do café, Andrew segura minha mão.

— Vamos pro jardim?

— Agora?

— Agora.

O sol ainda não está forte. A grama está fria sob os pés. Estendemos uma manta e nos deitamos ali, os três.

Encosto a cabeça no peito de Andrew. Dustyn dorme no meu colo. O vento balança as folhas acima de nós, e por um instante tudo parece tão simples que chega a doer.

— Sabe o que eu queria? — Andrew pergunta.

— O quê?

— Que esse momento nunca acabasse.

Levanto o rosto e olho para ele.

— Então não deixa acabar. Fica.

Ele me beija devagar, sem urgência, sem medo. Um beijo que não pede nada além de presença.

— Prometo que vou lutar por isso todos os dias.

— Hoje não precisa lutar — respondo. — Hoje só fica.

Passamos a manhã ali. Conversando pouco. Vivendo muito. Andrew filma Dustyn bocejando. Filma meu riso distraído. Filma nossas mãos entrelaçadas.

— Isso vai ser o nosso álbum — ele diz.

— Nosso e dele.

— Principalmente dele.

Voltamos para dentro de casa perto do almoço. Andrew insiste em cozinhar.

— Confia em mim — ele diz.

— Isso é um pedido ou uma ameaça?

— Um ato de fé.

Rimos.

O almoço é simples, mas perfeito. Comemos devagar. Dustyn acorda, mama, volta a dormir.

— Ele é tranquilo — digo.

— Ele é feliz — Andrew responde.

À tarde, ficamos espalhados pela sala. Andrew senta no chão, Dustyn apoiado no peito dele, e conversa com o bebê como se estivesse explicando o mundo inteiro.

— Essa casa é sua — ele diz. — Tudo aqui é pra te proteger.

Sento ao lado e encosto a cabeça no ombro dele.

— Você nasceu pra isso — digo.

— Pra ser pai?

— Pra ser lar.

Andrew não responde. Apenas beija meu cabelo.

O sol começa a descer. Entramos novamente.

Andrew dá banho em Dustyn com uma atenção quase solene. Observa cada reação, cada som. Depois o veste com cuidado e o coloca no berço.

— Ele está tranquilo — digo.

— E está seguro — Andrew responde.

Voltamos para o quarto. Deito ao lado dele. Encosto no ombro.

— Eu não tenho mais medo do amanhã — confesso.

Andrew fecha os olhos.

— Então o amanhã já valeu a pena.

O celular esquecido continua gravando sobre a cômoda. Capta uma risada baixa. Um beijo. Um “eu te amo” simples. E aquele silêncio bom. O silêncio de quem encontrou o verdadeiro lar.

Eu lembro da porta aberta, me levanto e fecho a porta do quarto com cuidado, como se o mundo pudesse ouvir o que está prestes a acontecer. Andrew me observa sem dizer nada. O olhar dele não é apressado. É profundo. Faminto. Um olhar de quem quer me devorar com calma.

— Você está me olhando assim desde o jantar — digo, sentindo o corpo reagir antes mesmo de qualquer toque.

Ele se aproxima devagar. Não encosta de imediato. Passa a mão pelo meu rosto, pelo meu pescoço, como se estivesse memorizando cada linha da minha pele.

— Porque eu quero você — responde baixo. — E hoje… eu quero sem pressa.

Meu corpo arrepia inteiro.

Andrew me puxa pela cintura e me cola ao corpo dele. Sinto o calor, a respiração pesada, o coração batendo forte contra o meu. Ele beija meu pescoço lentamente, sem pressa, como se estivesse marcando território com a boca.

— Andrew… — o nome dele sai fraco.

— Shh… — ele sussurra. — Deixa eu te sentir.

As mãos dele percorrem minhas costas, firmes, seguras. Ele sabe exatamente onde tocar para me desmontar. Cada movimento é uma promessa. Cada pausa é tortura.

Quando sua boca encontra a minha, o beijo não é gentil. É profundo. Necessário. Um beijo que diz fica, é minha, agora.

Minhas mãos deslizam pelo peito dele, sentindo a tensão sob a pele. Andrew geme baixo, quase imperceptível, e isso me faz perder o pouco controle que ainda tenho.

Ele me conduz até a cama sem quebrar o beijo. Me deita com cuidado, como se eu fosse algo precioso demais para ser apressado. O olhar dele me percorre inteira, sem pudor.

— Você faz meu corpo esquecer que está cansado — ele diz. — Você me faz querer viver dentro desse momento.

Meu corpo reage à presença dele de forma urgente. Cada toque é mais intenso, mais íntimo. Não há palavras suficientes. Só respiração, pele, desejo acumulado.

Quando ele se deita sobre mim, sinto o peso dele, a entrega completa. O jeito como me segura, como se eu fosse o único lugar seguro que ele conhece.

— Me ama — sussurro.

Andrew encosta a testa na minha.

— Eu te amo do jeito mais perigoso que existe.

E naquele instante, não existe amanhã. Só nós dois. Pele contra pele. Coração contra coração. Como se o mundo pudesse acabar… e ainda assim valesse a pena.

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