Capítulo 81 Capítulo 81
Ruby
Comprei a câmera numa manhã comum, dessas em que o coração acorda inquieto sem saber exatamente por quê. Não foi impulso. Foi necessidade. Uma urgência de não deixar escapar nada do que está acontecendo agora. E eu queria algo mais profissional.
A caixa ficou alguns minutos sobre a mesa da sala antes que eu tivesse coragem de abrir. Andrew estava no quarto com Dustyn, conversando com ele como se estivesse explicando segredos do mundo. A voz dele vinha baixa pelo corredor, misturada com risadinhas pequenas, recém-aprendidas.
— Isso, campeão… olha pro papai… isso… assim você me quebra inteiro — ouvi Andrew dizer, rindo.
Sorri sozinha.
Abri a caixa com cuidado, como se o objeto ali dentro fosse frágil demais. A câmera era bonita, simples, do jeito que eu precisava. Nada sofisticado demais. Eu não queria perfeição. Queria verdade.
Liguei. O visor acendeu, e pela primeira vez senti que talvez eu estivesse fazendo a coisa certa. Entrei no quarto devagar.
Andrew estava sentado na poltrona, Dustyn apoiado no peito dele, os dedinhos fechados na gola da camisa como se aquilo fosse tudo que ele precisava para se manter seguro. Andrew levantou os olhos quando me viu.
— O que é isso? — perguntou, curioso.
— Uma câmera nova.
— Pra quê?
Apontei discretamente para os dois.
— Pra vocês.
Ele riu, aquele riso que sempre me desmonta.
— Você está viciada nisso, ruivinha.
Aproximei o zoom, focando o rosto de Dustyn, depois o de Andrew.
— Não. — respondi, sincera. — Eu estou com medo de esquecer algum segundo.
Andrew não respondeu de imediato. Apenas olhou para o filho, depois para mim, como se entendesse exatamente o que eu não estava dizendo em voz alta.
— Então grava tudo — disse, por fim. — Até os momentos bobos.
E foi isso que eu fiz.
Gravei Dustyn mamando, com os olhinhos semicerrados, o som pequeno da sucção enchendo o quarto de uma paz quase sagrada. Gravei Andrew tentando fazê-lo arrotar e falhando, rindo de si mesmo.
— Filho, eu administro empresas inteiras… mas você ganhou de mim com um soluço — ele dizia.
Gravei o primeiro banho sem choro, o jeito cuidadoso com que Andrew apoiava a cabeça do nosso filho, falando com ele o tempo inteiro como se estivesse negociando calma.
— Prometo não deixar cair shampoo nos olhos, acordo?
Dustyn respondeu com um som estranho, meio riso, meio bolha.
— Isso foi um “sim”? — Andrew perguntou.
À tarde, sentei no sofá com o notebook aberto. Criei uma pasta nova. Pensei no nome por alguns segundos antes de digitar:
Nosso para sempre.
Cliquei em “criar”.
Dentro dela, comecei a organizar os arquivos. Nada elaborado. Só títulos que fizessem sentido para quem um dia abrir aquilo.
“primeiro banho”
“papai dormindo com o bebê”
“risada dupla”
“manhã preguiçosa”
“domingo no jardim”
Andrew passou atrás de mim e leu por cima do meu ombro.
— Isso aqui vai virar um tesouro — comentou.
— É exatamente isso que eu quero.
— E se a gente envelhecer juntos, ainda assim você vai ficar assistindo esses vídeos?
Virei o rosto pra ele.
— Principalmente se a gente envelhecer juntos.
À noite, depois que Dustyn finalmente dormiu, levamos o notebook pra cama. Andrew se encostou na cabeceira, eu me aconcheguei ao lado dele, a cabeça no ombro que já foi meu abrigo em tantos momentos difíceis.
Demos play.
A imagem mostrou Andrew mais cedo naquele mesmo dia, sentado no chão, Dustyn deitado sobre um tapete, encarando o pai como se ele fosse o espetáculo mais interessante do mundo.
— Olha isso — Andrew comentou, rindo. — Eu pareço um bobo.
— Você parece o amor da minha vida.
Ele virou o rosto e beijou mnha testa.
— Então grava isso também.
— O quê?
— O olhar de quem nunca vai embora.
Ele me puxou com calma, o beijo demorou mais do que o normal, carregado de uma coisa silenciosa, intensa. Não havia mundo lá fora. Não havia medo naquele instante. Só a sensação de que, apesar de tudo, ainda estávamos ali.
Quando o beijo terminou, ficamos alguns segundos em silêncio.
— Ruby… — ele chamou, baixo.
— Oi.
— Se um dia você assistir isso sozinha… — ele parou.
Meu corpo enrijeceu, mas ele tocou meu rosto com cuidado.
— Não chora agora. — pediu. — Eu estou aqui.
Respirei fundo.
— Eu sei.
— Então vamos viver como se o tempo estivesse do nosso lado.
— Ele está. — respondi. — Enquanto a gente estiver junto, ele está.
Andrew sorriu. Um sorriso cansado, mas verdadeiro.
— Então grava amanhã também.
— Vou gravar todos os dias.
— Promete?
— Prometo.
Apaguei a luz depois. A câmera ficou sobre a mesinha, carregando. O notebook fechado. Dustyn dormia tranquilo no quarto ao lado.
Andrew passou o braço pela minha cintura.
— Obrigado por guardar a gente.
Encostei a testa no peito dele, ouvindo o coração que ainda batia ali.
— Obrigada por ser a nossa história.
Ficamos assim por muito tempo. Sem falar. Sem filmar. Só existindo.
E, pela primeira vez em dias, eu não senti pressa. Porque guardar o tempo não é tentar segurá-lo. É amar tanto o agora que ele se torna eterno.
A luz estava baixa quando Andrew voltou a se aproximar de mim. Só tinha duas pessoas se amando. Só aquele silêncio carregado que sempre antecede quando nossos corpos se reconhecem antes das palavras.
Ele passou o polegar pela minha bochecha, devagar.
— Você fica ainda mais linda quando tenta ser forte. — sussurrou.
— E você fica ainda mais perigoso quando me olha assim. — respondi, sentindo o corpo reagir antes da mente.
Andrew sorriu de lado, aquele sorriso que sempre foi meu ponto fraco. Me puxou com calma, o beijo começou lento, profundo, cheio de promessas não ditas. A boca dele desceu pelo meu pescoço, arrancando de mim um suspiro que eu não fiz questão de conter.
— Ruby… — ele disse meu nome como se fosse um pedido.
Minhas mãos escorregaram pelos ombros dele, sentindo o calor, a presença, a vida ainda ali. Cada toque carregava algo mais do que desejo. Era urgência de existir juntos.
Ele me cobriu com seu corpo com cuidado, como se eu fosse algo precioso demais para ser apressado. O corpo dele encontrou o meu, quente, firme, familiar. Não havia vergonha, nem medo. Só aquela intimidade crua que nasce quando o amor já atravessou todas as barreiras.
— Me sente. — ele pediu, a voz baixa, rouca.
E eu senti. Cada movimento, cada respiração compartilhada, cada gemido contido entre beijos demorados. Não era só sexo. Era uma afirmação de que ainda éramos nós.
Depois, ficamos abraçados, o suor esfriando, os corações desacelerando juntos. Andrew beijou minha testa, depois meus lábios outra vez.
— Se esse fosse nosso último momento assim… — ele começou.
— Não é. — interrompi, encostando minha testa na dele. — É só mais um que a gente vai guardar.
Ele respirou fundo e me apertou contra o peito.
— Então fica comigo aqui. Só mais um pouco.
— Sempre. — respondi. — Enquanto existir agora.
Ficamos ali, sabendo que aquele amor não precisava ser eterno para ser infinito.
