Capítulo 82 Capítulo 82

Andrew

A tarde estava fria, mais do que o normal. O céu cinza deixava a casa quieta, como se tudo ali dentro estivesse em pausa. Eu estava sentado na sala, com Dustyn adormecido no carrinho ao meu lado, observando a respiração dele subir e descer com calma, quando a campainha tocou.

O som ecoou pela casa inteira. Ruby apareceu no corredor, o olhar atento.

— Você está esperando alguém? — perguntou.

Balancei a cabeça.

— Não.

Levantei devagar. O corpo ainda respondia com limites, mas naquele momento eu estava bem o suficiente para ignorá-los. Caminhei até a porta com cuidado, sentindo aquele pressentimento estranho que antecede algo importante.

Quando abri, o mundo pareceu parar por um segundo.

Ethan estava ali.

Parado, sério, segurando um buquê simples de flores claras. O vento frio mexia levemente o cabelo dele, e o olhar… o olhar estava diferente. Não havia provocação, nem desafio. Havia algo que eu reconheci rápido demais.

Peso.

— Posso entrar? — ele perguntou, a voz baixa. — Não sei se devo… mas precisava ver vocês.

Fiquei em silêncio por alguns segundos. Não porque eu não soubesse o que responder, mas porque aquela situação carregava mais do que palavras simples podiam resolver.

Respirei fundo e dei um passo para o lado.

— Entra.

Ele pareceu surpreso, mas entrou sem discutir. Ruby foi para o meio da sala quase imediatamente, o corpo rígido, os olhos atentos.

— O que ele está fazendo aqui? — perguntou, sem esconder a tensão.

Coloquei a mão sobre o braço dela.

— Calma. Ele veio em paz.

Ethan abaixou o olhar, como se não tivesse o direito de encará-la. As flores tremiam levemente em suas mãos.

— Eu não vim causar problema, Ruby. Eu só… precisava ver vocês. Ver se estavam bem.

O silêncio ficou pesado por alguns segundos, até que o som suave de Dustyn respirando chamou a atenção de Ethan. Ele levantou os olhos devagar e viu o carrinho.

— Ele… — a voz falhou. — Ele está dormindo?

Ruby assentiu, sem responder.

Ethan se aproximou com cuidado, como se qualquer passo em falso pudesse quebrar algo invisível. Olhou para Dustyn com uma mistura de surpresa e dor.

— Ele está cada vez mais lindo… — sussurrou. — Tem mesmo o seu cabelo, Ruby.

Senti um aperto no peito. Não de ciúme. De compreensão.

— Quer pegá-lo no colo? — perguntei, sem pensar muito.

Ruby me olhou, surpresa.

— Andrew…

— Está tudo bem. — respondi, firme.

Ethan hesitou.

— Eu… não sei se devo.

— Ele não vai te julgar. — falei. — Nenhum bebê julga. Eles só sentem.

Depois de alguns segundos, ele assentiu. Pegou Dustyn com um cuidado quase doloroso. As mãos grandes tremiam levemente enquanto ajustava o corpo pequeno contra o peito.

O efeito foi imediato.

O rosto dele mudou.

— Ele é quente… — murmurou. — E pesado… no bom sentido.

Vi os olhos dele marejarem.

— Ele podia me chamar de pai… e eu acreditaria. — sussurrou, a voz quebrando.

Ruby desviou o olhar, o rosto tenso, confuso. Eu permaneci em silêncio. Não havia nada que precisasse ser dito naquele momento.

— Talvez ele tenha mais de um homem disposto a morrer por ele. — falei, baixo, sereno.

Ethan ergueu os olhos para mim, surpreso.

— Você confia mesmo em mim?

Respirei fundo.

— Eu confio no amor que você sente por eles. E isso é mais forte do que qualquer coisa.

Ele ficou ali mais alguns segundos, embalando Dustyn devagar, antes de devolvê-lo ao carrinho com cuidado.

— Obrigado… — disse, sem saber para quem exatamente.

Ele caminhou até a porta, parou, virou-se uma última vez.

— Eu vou manter distância. — prometeu. — Mas nunca vou deixar de proteger.

Ruby não respondeu. Apenas assentiu, com os olhos marejados.

Quando a porta se fechou, fiquei parado por alguns segundos. Caminhei até o canto da sala e vi, pela câmera de segurança, Ethan do lado de fora. Ele encostou a testa na parede, respirou fundo… e chorou.

Pela primeira vez desde que o conheci, vi aquele homem desabar. Desliguei a câmera. Voltei para Ruby e a abracei por trás, encostando o rosto no cabelo dela.

— Está tudo bem. — murmurei.

— Eu não sei o que sentir. — ela confessou.

— Não sente nada agora. — respondi. — Só vive. O resto a gente resolve juntos.

Olhei para Dustyn dormindo tranquilo, alheio a tudo aquilo. Talvez o mundo fosse confuso, imperfeito, quebrado. Mas ali, naquele instante, dentro daquela casa… havia amor suficiente para sustentar tudo.

Mesmo o que ainda estava por vir.

Quando a casa voltou a ficar quieta, Ruby permaneceu parada perto da janela por alguns segundos. Eu percebi pelo jeito como ela cruzou os braços que aquilo ainda estava martelando dentro dela. Me aproximei devagar, respeitando o tempo dela.

— Você acha mesmo que está fazendo a coisa certa? — ela perguntou, sem me olhar.

— Sobre o Ethan? — perguntei.

Ela assentiu, o maxilar tenso.

— Eu não confio nele, Andrew. Não confio de verdade. — finalmente virou o rosto pra mim. — Ele não aparece por cuidado. Ele aparece porque não aceita perder. Porque me vê como algo que escapou das mãos dele.

Suspirei fundo e me encostei na bancada.

— Eu sei que você enxerga isso assim.

— Porque é assim. — ela rebateu. — Ethan não ama de forma leve. Ele ama controlando, dominando, possuindo. E eu não sou mais isso. Não sou algo pra ser retomado.

Caminhei até ela e segurei suas mãos.

— O olhar que ele lança pra você não é de posse, Ruby.

Ela puxou a mão, irritada.

— Não me diga como um homem olha pra mim.

— Eu digo porque reconheço. — respondi, firme, mas calmo. — É o mesmo olhar que eu lanço pra você. Não é sobre controlar. É sobre não saber existir longe.

Ela respirou fundo, visivelmente mexida.

— Às vezes parece que você está… — hesitou. — Bancando o cupido. Como se estivesse preparando o caminho pra quando você não estiver mais aqui.

As palavras doeram mais do que qualquer sintoma físico.

— Não. — neguei, com um sorriso triste. — Eu não estou abrindo caminho pra ninguém. Eu só estou fechando as portas do perigo.

— Eu não vou dar chance alguma pra ele. — disse, firme. — Nunca. Ouviu bem?

Dei uma risada baixa, cansada.

— Eu sei. — aproximei o rosto do dela. — E mesmo assim, preciso garantir que você e o Dustyn estejam protegidos quando eu não puder mais fazer isso com as próprias mãos.

Os olhos dela se encheram de lágrimas.

— Você fala como se fosse embora amanhã… — sussurrou.

— Eu falo porque amo vocês mais do que tenho medo. — respondi.

Ela encostou a testa na minha, emocionada.

— Mesmo que seu corpo desligue… eu sei que você nunca vai deixar de cuidar da gente. — a voz falhou. — Eu sinto isso.

Passei o polegar pelo rosto dela.

— Então confia em mim. Só dessa vez.

Ruby fechou os olhos e me puxou pra um beijo lento, profundo, cheio de tudo o que a gente não precisava dizer em voz alta. Não era despedida. Era promessa.

E enquanto a beijava, tive certeza de uma coisa…

amor de verdade não acaba nem quando o corpo cansa.

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