Capítulo 83 Capítulo 83

Ruby

Eu acordei antes do sol naquele dia. Não por causa do Dustyn, nem por causa de um pesadelo. Acordei porque meu corpo parecia saber que o tempo estava passando rápido demais.

Fiquei alguns minutos deitada, olhando Andrew dormir ao meu lado. O peito dele subia devagar, num ritmo que eu já conhecia tão bem que às vezes contava as respirações só para me acalmar. Dustyn dormia no bercinho ao lado da cama, o rosto relaxado, a boca entreaberta, como se sonhasse com algo bonito.

Foi ali que decidi.

Levantei devagar, peguei a câmera nova que estava na caixa sobre a cômoda e sentei na beirada da cama para abrir. Minhas mãos tremiam um pouco, não de ansiedade, mas de urgência. Como se algo dentro de mim dissesse que cada segundo importava mais do que eu admitia em voz alta.

A primeira gravação foi simples. Andrew dormindo. O som da respiração dele. O quarto silencioso. Não disse nada. Só gravei. Tudo virou memória em movimento.

Filmei Andrew lendo histórias para o Dustyn, mesmo sabendo que ele ainda não entendia as palavras. Andrew mudava a voz para cada personagem, fazia pausas dramáticas, inventava finais novos. Dustyn olhava para ele com atenção, como se já soubesse que aquela voz era o lugar mais seguro do mundo.

— Você está exagerando na atuação. — eu provoquei, atrás da câmera.

Andrew sorriu sem tirar os olhos do livro.

— Ele merece o melhor teatro da vida dele.

— Ele ainda nem sabe falar.

— Mas ele sente. — respondeu, simples. — E isso basta.

Continuei filmando.

Filmei Andrew caminhando devagar pelo jardim, Dustyn encostado no peito dele, os dois quase no mesmo ritmo. Andrew andava com cuidado, como se cada passo fosse um acordo com o próprio corpo.

— Você devia sentar um pouco. — falei.

— Daqui a pouco. — respondeu. — Quero mostrar as árvores pra ele.

— Ele não está vendo nada ainda.

Andrew olhou para o bebê e depois para mim.

— Não importa. Um dia ele vai assistir isso e saber que eu tentei mostrar o mundo inteiro pra ele, mesmo quando eu mal conseguia caminhar.

Engoli seco atrás da câmera.

Cada risada do Dustyn virou um arquivo salvo.

Cada bocejo, cada careta, cada som estranho que ele fazia quando estava prestes a chorar.

Andrew ficou em silêncio por alguns segundos me assistindo editar alguns vídeos.

— Não me olha assim. Eu quero guardar tudo.

Depois de me olhar por mais alguns segundos estendeu a mão e passou o polegar pelo meu rosto.

— Então guarda. Tudo.

Naquele dia, passamos horas deitados no sofá. Dustyn entre nós, dormindo profundamente, com uma das mãozinhas agarrada na camisa do pai. Andrew segurava o celular, apontado para mim.

— O que você está fazendo? — perguntei, já rindo.

— Gravando. — respondeu.

— De novo?

— Claro.

— Andrew…

— Fica quieta. — ele brincou. — Você fica linda quando dorme assim.

Fechei os olhos, fingindo irritação, mas deixando. Ouvi ele murmurar, baixo, achando que eu já tinha dormido:

— Meus dois milagres.

A frase ficou gravada.

À noite, quando acordei para amamentar Dustyn, peguei o celular de Andrew sem avisar. Vi o vídeo. Meu rosto relaxado, o bebê respirando tranquilo no meio, a mão de Andrew aparecendo de vez em quando, ajustando a manta.

— Você não devia filmar escondido. — reclamei depois, quando ele voltou da cozinha.

Ele sorriu, apoiando-se no batente da porta.

— Só estou te devolvendo o favor.

— Ainda assim…

— Você faz a mesma coisa comigo o tempo todo. — disse, rindo.

— Não escondido.

— Mas com o mesmo medo. — completou, com suavidade.

Fui desligar o vídeo, mas parei.

O olhar dele, registrado ali sem que ele soubesse, estava diferente. Não triste. Não assustado. Era calmo. Sereno. Um olhar de quem já tinha aceitado algo que eu ainda lutava para negar.

Meu peito apertou.

— Andrew… — chamei, baixinho.

Ele se aproximou, sentou ao meu lado na cama.

— O que foi?

— Você está cansado.

— Um pouco. — respondeu, honesto.

— Promete que vai me avisar quando for demais?

Ele segurou minha mão.

— Prometo tentar.

— Não é tentar. — falei, firme. — É prometer.

Ele respirou fundo.

— Prometo.

Encostei a testa na dele.

— Às vezes parece que eu estou vivendo tudo com pressa. — confessei. — Como se o tempo estivesse me observando.

Andrew sorriu triste.

— Talvez esteja. — disse. — Mas olha pra gente agora.

Olhei. O quarto silencioso. Nosso filho dormindo em paz. Andrew ali, comigo.

— Isso é o agora. — ele continuou. — E o agora está inteiro.

Abracei ele com cuidado, sentindo o corpo quente, vivo, real.

— Eu vou continuar gravando. — avisei.

— Então grava isso também. — disse ele, puxando meu rosto para perto. — O som do meu coração batendo quando estou com vocês.

Encostei a câmera no peito dele, gravei alguns segundos.

O som estava fraco, mas firme.

E naquele momento eu entendi, as memórias não eram sobre o que podia acabar. Eram sobre provar que tudo aquilo existiu.

Passei horas pensando nisso naquela noite.

Andrew dormia ao meu lado, o braço jogado sobre o travesseiro, a respiração calma demais para alguém que carrega um prazo invisível no peito. Dustyn dormia no quarto ao lado, seguro, aquecido, alheio a tudo que ainda pode nos atingir. E eu… eu não consegui fechar os olhos.

A frase de Andrew voltava como um sussurro insistente:

— “Quero garantir a segurança de vocês quando eu não estiver mais aqui.”

Quando eu não estiver mais aqui.

Meu peito apertava toda vez que pensava nisso. Eu sofria porque não queria aceitar. Sofria porque meu corpo ainda acreditava que o amor era suficiente para mantê-lo vivo. Sofria porque não existia nenhuma forma de negociar com o tempo.

E sofria ainda mais porque ele estava certo.

Eu não queria Ethan por perto. Não queria o olhar dele, não queria a presença dele, não queria aquela sensação de algo inacabado rondando minha vida como um erro antigo. Ethan não aceita perder. Nunca aceitou. Pessoas, poder, controle… tudo sempre precisou estar nas mãos dele.

E eu não queria ser protegida como uma posse.

Mas Andrew não falava de posse. Ele falava de sobrevivência.

Ele não via Ethan como ameaça naquele ponto. Via como um homem capaz de matar, se fosse preciso. Capaz de enfrentar qualquer inferno se isso significasse manter Dustyn seguro. Capaz de fazer o que Andrew talvez não consiga mais fazer quando o corpo falhar de vez.

Isso doía de um jeito que não tinha nome.

Doía aceitar que o homem que eu amo já está organizando o mundo sem ele. Doía saber que, mesmo assim, ele continua pensando em nós antes de pensar em si. Doía entender que eu posso odiar a ideia… mas não posso negar a lógica.

Virei de lado e encostei o rosto nas costas de Andrew, segurando a camisa dele com força, como se isso pudesse ancorá-lo aqui.

— Eu não quero você indo embora… — sussurrei, sabendo que ele não ouviria.

Mas, no fundo, eu sabia.

Se o dia chegasse… se o pior acontecesse… Andrew não estaria me deixando sozinha. E isso, mesmo doendo, era a maior prova de amor que alguém já me deu.

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