Capítulo 84 Capítulo 84

Andrew

O sol entra pela janela do quarto antes mesmo de eu conseguir abrir os olhos direito. Meu corpo reclama, como tem feito todos os dias, mas hoje eu não deixo isso me vencer. Hoje é um dia importante. Hoje o meu filho completa seis meses de vida.

Ouço passos leves no corredor e o som baixo de vozes. Ruby está falando com alguém, provavelmente com Hellen, pedindo ajuda para pendurar os balões. Sorrio sozinho.

Ela tenta fingir que é algo simples, mas eu sei. Sei que ela planejou cada detalhe como se fosse um grande evento. Como se o mundo inteiro precisasse parar para reconhecer que Dustyn chegou até aqui.

E chegou.

Levanto devagar, respiro fundo antes de ficar de pé. O coração bate mais rápido do que deveria, mas eu ignoro. Aprendi a fazer isso. Aprendi a não ouvir demais o que o corpo tenta me dizer quando a alma está decidida a viver.

Quando entro na sala, a cena me desmonta por dentro.

Balões azuis espalhados, uma mesa pequena com um bolo simples, delicado, e Ruby em cima de uma escada baixa, tentando alcançar o último fio de fita. O cabelo preso de qualquer jeito, a camiseta larga, o sorriso concentrado.

— Vai cair — aviso.

— Não vou — ela responde sem olhar. — Já terminei.

Desço os dois degraus de uma vez e seguro a cintura dela antes que consiga descer sozinha.

— Eu disse que ia cair.

Ela ri, apoiando as mãos no meu peito.

— Drama seu.

— Não é drama. — beijo a testa dela. — É zelo.

O choro baixo de Dustyn vem do quarto e eu sinto aquele aperto bom no peito. O tipo de dor que não machuca, só lembra que eu ainda estou aqui.

— Vou pegar ele — digo.

— Espera. — Ruby aponta para a mesa. — Quero que veja.

Olho de novo para tudo e balanço a cabeça, emocionado.

— É só uma lembrança — ela diz, quase se justificando.

— É a lembrança mais linda do mundo — respondo com a voz firme, mesmo sentindo ela tremer por dentro.

Vou até o quarto e pego Dustyn no colo. Ele está acordado, os olhos atentos, o cabelo ruivo bagunçado como sempre. Quando me vê, abre um sorriso torto, daqueles que fazem qualquer dor parecer pequena.

— Bom dia, campeão — murmuro. — Hoje é teu dia.

Ele resmunga algo que só ele entende e enfia a mãozinha na minha camisa. Aperta forte. Como se soubesse.

Volto para a sala com ele no colo. Ruby liga a câmera quase automaticamente. Ela não perde nada. Não deixa nada escapar. Às vezes acho que ela grava para ele. Às vezes acho que grava para si. Às vezes sei que grava para quando eu não estiver mais aqui.

E mesmo assim, não peço que pare.

— Olha pra ele — digo. — Já está me julgando.

— Ele puxou isso de você — ela responde, rindo.

O celular vibra em cima da mesa. Ruby pega e franze a testa antes de me entregar.

— São flores.

O segurança entrega as flores. Leio o cartão antes mesmo de olhar o arranjo.

— “Parabéns, pequeno Dustyn. Que o mundo seja gentil com você.”

Reconheço a letra. Reconheço o peso por trás de cada palavra.

— O Ethan mandou — digo. — Ele não vem.

Ruby comenta, neutra.

— Melhor assim.

Coloco o cartão de lado e seguro Dustyn com mais firmeza.

— O mundo é cruel — sussurro para ele. — Mas enquanto eu respirar, ele nunca vai tocar em você.

Ruby finge que não ouviu, mas sei que ouviu.

Cantamos parabéns baixinho. Não por vergonha, mas por respeito ao momento. Ruby coloca Dustyn perto do bolo, segura a mãozinha dele enquanto eu apago a vela por ele.

— Faz um pedido — ela diz.

Olho para os dois. Para o rosto cansado, bonito, verdadeiro dela. Para o meu filho, vivo, quente, real.

— Eu fiz — respondo antes de beijá-la. — E ele está no meu colo.

Passamos o dia assim. Fotos, vídeos, risadas simples. Nada grandioso. Nada exagerado. Apenas nós.

No fim da tarde, Ruby vai tomar banho e eu fico sozinho com Dustyn no quarto. Ele está mais quieto, os olhos pesados. Coloco-o no berço com cuidado e fico ali, observando.

Ele dorme pesado.

Igual a mim.

Sinto o nó subir pela garganta sem aviso. As lágrimas vêm antes que eu consiga impedir. Encosto a testa na grade do berço e deixo cair. Uma. Duas. Muitas.

— Não é tristeza — sussurro. — É medo.

Medo de não estar aqui para ver tudo o que ainda vem. Medo de não ouvir a primeira palavra. Medo de não ensinar a andar de bicicleta. Medo de ser lembrança cedo demais.

Ruby aparece na porta.

— O que foi? — pergunta baixo.

— Ele dorme pesado… igual a mim — respondo, limpando o rosto.

Ela se aproxima e me abraça por trás. Encosta a cabeça nas minhas costas e fica ali, em silêncio.

Sinto o coração disparar de novo. Descompassado. Errado.

Ela sente também.

— Andrew… — a voz dela falha. — Seu coração…

— Shhh — seguro a mão dela. — Hoje não. Hoje é o dia dele.

Ela não discute. Apenas me abraça mais forte.

E naquele instante, com o meu filho dormindo seguro, a mulher que eu amo colada a mim e o sol se pondo do lado de fora, eu penso:

— “Se este for um dos meus últimos momentos…

então foi uma vida bonita.”

Naquela noite, adormeço sentado na poltrona do quarto, com o som da respiração de Dustyn ao fundo. O coração pesado acaba me puxando para um sono estranho, profundo demais.

No sonho, a casa está quieta. Quieta demais.

Procuro Ruby, chamo por ela, mas minha voz não sai. Caminho pelos corredores e vejo a cena que mais temo… e, ao mesmo tempo, a que pedi em silêncio.

Ruby está no jardim. Não está sozinha. Ethan está ao lado dela.

Ele segura Dustyn nos braços com cuidado, do jeito que só quem ama de verdade segura. Não há posse, não há arrogância. Só proteção. Ele observa cada passo dela, atento, pronto para qualquer perigo que ouse chegar perto.

Ruby sorri. Um sorriso triste, mas vivo.

— Ele prometeu… — ela diz, olhando para o bebê. — Prometeu que não nos deixaria sozinhos.

Ethan não responde. Apenas assente, firme, como se aquela promessa fosse agora o propósito da vida dele.

Eu tento gritar que ainda estou ali. Que ainda respiro. Mas não consigo. E, estranhamente… não sinto raiva. Sinto paz. Porque vejo Dustyn seguro. Vejo Ruby viva.

E entendo, naquele sonho cruel e necessário, que amar também é saber sair de cena quando o amor precisa continuar sem você.

Acordo com o coração disparado. Não de medo. Mas de aceitação.

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