Capítulo 85 Capítulo 85

Ruby

Eu acordo com um barulho seco. Não é um som alto. Não é um grito. É pior. É aquele barulho que o corpo faz quando cai sem força.

— Andrew…?

Meu coração dispara antes mesmo de eu sair da cama. Quando acendo a luz, vejo ele no chão, ao lado da cama, deitado de lado, respirando com dificuldade. O rosto está pálido demais. Os olhos tentam focar em mim, mas parecem perdidos.

— Andrew! — grito, caindo de joelhos ao lado dele. — Amor, fala comigo!

Ele tenta se mexer, mas o corpo não responde. A mão treme quando tenta segurar a minha.

— Ruby… calma… — a voz sai fraca, arrastada. — Estou… bem…

— Não, você não está! — minha voz falha. — Não tenta levantar, por favor!

Aperto o botão de emergência com a mão trêmula. O segurança entra correndo, olha a cena e já entende tudo sem que eu precise explicar.

— Vamos agora, senhora.

Andrew tenta protestar, mas o som vira apenas um gemido contido. Eu ajudo como posso enquanto o colocamos no carro. Minhas mãos não param de tremer. Meu corpo inteiro está em alerta, como se algo dentro de mim soubesse que estamos correndo contra o tempo.

No banco de trás, seguro a mão dele com força.

— Olha pra mim. — peço, chorando. — Não fecha os olhos, Andrew. Fica comigo.

Ele força um sorriso que quase me quebra.

— Você… sempre tão mandona… — murmura. — Eu gosto disso…

— Para! — peço, desesperada. — Não brinca agora, por favor!

Ele tenta falar mais alguma coisa, mas a respiração falha. Aperta minha mão uma última vez antes de fechar os olhos.

— Não… dorme… — imploro. — Fica acordado, por favor…

No hospital, tudo vira correria. Portas se abrindo, médicos falando rápido demais, termos que eu não consigo acompanhar. Eles o colocam numa maca e começam a empurrar em direção à UTI.

— Senhora, aguarde aqui.

— Não! — seguro o braço de um deles. — Eu sou a esposa! Eu preciso ir com ele!

— Agora não.

A porta se fecha na minha frente.

E o mundo parece desabar.

Começo a andar de um lado para o outro no corredor, sem saber onde colocar as mãos, o corpo, a dor. Meu peito dói como se estivesse sendo apertado por dentro. Cada segundo sem notícias parece um castigo.

É então que vejo Ethan.

Ele surge no fim do corredor, ofegante, cabelo bagunçado, sem o controle habitual. Os olhos encontram os meus e, por um segundo, nenhum de nós diz nada.

— Eu soube. — ele fala, baixo. — Vim assim que me ligaram.

Meu corpo reage antes da minha cabeça.

— Por que você está aqui? — pergunto, com a voz dura, mesmo chorando.

Ele não se defende.

— Porque eu prometi que cuidaria de vocês.

Essa frase me quebra.

As pernas falham. Sento na cadeira mais próxima e cubro o rosto com as mãos. O choro vem forte, sem controle, como se eu estivesse segurando isso há semanas.

— Se ele morrer… — a voz falha. — Se ele morrer, a metade do meu coração vai morrer junto.

Ethan se aproxima devagar, como se tivesse medo de me assustar. Para a poucos passos.

— Ruby…

— Eu não sei mais o que fazer. — sussurro. — Eu fiz tudo certo. Eu amei. Eu cuidei. Por que isso está acontecendo? Eu vou quebrar…

Ele abaixa na minha frente, na mesma altura dos meus olhos.

— Então deixa eu ficar. — diz, com a voz quebrada. — Pelo menos pra segurar o que sobrar.

Eu tento me afastar. Juro que tento. Mas não tenho forças.

Quando percebo, estou chorando contra o peito dele, as mãos agarradas na camisa como se aquilo fosse a única coisa que me mantém de pé. Ele não fala nada. Só segura. Firme. Presente.

A porta da UTI se abre e se fecha mais uma vez. E a câmera de segurança registra tudo… meu choro,

os braços dele ao meu redor, e o som constante dos aparelhos ecoando no corredor.

Eu fecho os olhos e tudo volta como se estivesse acontecendo agora.

O dia do casamento surge primeiro, como um filme antigo. Andrew parado no altar, nervoso, ajeitando a gravata pela terceira vez. Quando me viu entrar, ele sorriu daquele jeito que só fazia quando esquecia o mundo. Não era um sorriso treinado, era inteiro. Era como se eu fosse o único lugar onde ele quisesse estar.

Eu lembro de pensar, naquele momento, que estava segura.

A lua de mel veio logo depois, misturada ao cheiro de lençóis limpos e ao toque dele sempre cuidadoso. Andrew foi paciente, atento, quase reverente. Naquela primeira noite, ele não teve pressa. Segurou meu rosto, beijou minhas mãos, minha testa, como se quisesse que eu entendesse que não era só desejo. Era entrega. Era amor. Ele me fez sentir escolhida, não apenas desejada. Foi a primeira vez que me senti inteira com alguém.

Eu sorrio em meio às lágrimas ao lembrar de como ele me olhava depois, deitado ao meu lado, como se tivesse recebido algo precioso demais para tocar sem cuidado.

A lembrança muda.

Vejo o rosto dele quando descobriu a gravidez. A tensão, o silêncio pesado. A mágoa por eu ter escondido por quatro meses. Eu pensei que tinha quebrado tudo. Pensei que aquele seria o começo do fim. Mas não foi.

Dias depois, ele entrou no quarto, sentou na beira da cama e disse que não queria perder nenhum segundo mais. Que estava chateado, sim, mas que não permitiria que isso roubasse a nossa felicidade. Ele beijou minha barriga como se estivesse fazendo um acordo com a vida.

— A gente vai ser feliz. — ele disse. — Mesmo com medo.

E fomos.

O parto volta como um soco no peito. A mão dele na minha, fraca, mas firme. O jeito como ele tentou sorrir mesmo sentindo dor. O choro de Dustyn enchendo o quarto. Andrew chorando junto, dizendo que nunca tinha visto nada tão perfeito.

Meu corpo treme.

As lágrimas caem sem que eu peça.

Sinto braços ao meu redor. Ethan não pergunta. Não fala. Só me segura mais forte enquanto eu desmorono. Eu não reajo. Não tenho forças. Só deixo.

Porque, naquele momento, tudo o que existe é a certeza cruel de que eu amei profundamente… e posso estar perdendo o amor da minha vida.

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