Capítulo 86 Capítulo 86
Ruby
Eu não sei quanto tempo se passou desde que Andrew foi levado para a UTI. Minutos, horas… tudo virou uma massa única de medo, oração e desespero. O corredor do hospital tinha cheiro de desinfetante e morte contida.
Pessoas passavam, médicos entravam e saíam, e eu permanecia ali, sentada no chão frio, abraçada aos meus próprios joelhos, tentando respirar.
Tentei ser forte.
Falhei.
Levantei mais de uma vez para implorar. Na terceira, caí de joelhos na frente do médico responsável, sem dignidade alguma.
— Por favor… — minha voz saiu quebrada. — Ele é meu marido. Ele acabou de ser pai. Me deixa ver ele. Nem que seja cinco minutos. Eu faço qualquer coisa.
O médico hesitou. Olhou para os lados. Eu sabia que as regras não permitiam. Sabia que aquele pedido era impossível.
Mas eu também sabia que não era só por mim que aquela porta seria aberta.
Ethan estava parado alguns passos atrás, imóvel, com o olhar duro e perigoso. Ele não disse nada. Não precisou. A presença dele falava sozinha. O tipo de homem que não aceita um “não” quando ama.
O médico suspirou.
— Cinco minutos. — disse por fim. — Só cinco.
Eu chorei de alívio.
Quando entrei no quarto, o mundo diminuiu.
Andrew estava ali. Pálido demais. Frágil demais. Cercado de fios, máquinas, sons que não deveriam existir ao redor de alguém tão vivo dentro de mim. Dormia. O peito subia devagar. Cada respiração parecia um esforço.
Sentei-me ao lado da cama e segurei a mão dele. Era quente. Ainda era ele. Encostei a testa na lateral do colchão e deixei o choro sair em silêncio.
— Eu estou aqui… — sussurrei. — Eu não fui embora. Nunca vou.
Acabei dormindo ali mesmo, sentada, com o rosto apoiado na cama e os dedos entrelaçados aos dele, como se isso fosse capaz de mantê-lo preso à vida.
Não sei quanto tempo passou até sentir um movimento leve. Um aperto quase imperceptível.
— Andrew? — sussurrei, o coração disparando.
Os olhos dele se abriram devagar. Estavam fundos, cansados, mas conscientes. Quando me viu, um sorriso fraco apareceu.
— Oi, meu amor…
Minha respiração falhou.
— Eu estou aqui. — falei rápido, com medo de ele fechar os olhos de novo. — O Dustyn está bem. Ele está dormindo. A gente está aqui. Eu estou aqui.
Ele respirou fundo, como se cada palavra exigisse esforço.
— Eu precisava… te ver de novo.
— Não fala agora. — pedi, já chorando. — Descansa. Guarda força.
— Não. — ele insistiu, apertando meus dedos com o pouco que tinha. — Se eu dormir agora… talvez eu não acorde. Me escuta.
Meu corpo inteiro começou a tremer. Inclinei-me sobre ele, aproximando meu rosto do dele.
— Desde o começo… — ele começou, pausando para respirar. — Foi você.
Fechei os olhos, negando com a cabeça.
— Andrew, não…
— O contrato… a herança… tudo aquilo era só estrutura. — continuou. — Eu planejei pra te deixar segura. Planejei pra você nunca precisar de ninguém. Mas eu nunca planejei… te amar tanto.
Uma lágrima escorreu pelo canto do olho dele.
— Eu achei que controlar tudo ia me proteger. Mas você me desmontou inteiro e completamente.
Apertei a mão dele com força.
— Você vai ficar. — repeti, quase como um mantra. — Você vai ver nosso filho crescer. Vai ensinar ele a andar. Vai…
Ele sorriu de leve.
— Eu só fui àquele evento por obrigação. — disse. — Lembra do evento? Eu nem queria ir. E então eu te vi. A mulher que fez meu coração doente acelerar pela primeira vez sem medo.
Minha visão embaçou.
— Eu não sabia o que era vida… até você entrar nela. — ele disse.
Solucei.
— Eu não sei viver sem você.
Ele levou a mão até meu rosto com dificuldade, tocando minha bochecha como se fosse algo precioso demais para segurar.
— Vive por nós. — sussurrou. — Vive por ele. — A voz começou a falhar. — Eu vou amar você… até depois do meu fim. Eu… amo… você… ruivinha.
O som do monitor mudou. Um apito longo, agressivo, impossível de ignorar.
A dor não veio de uma vez. Ela começou pequena, quase educada, como se pedisse permissão para existir. Um aperto no peito, um vazio no estômago, um frio que subiu pelas pernas. Eu ainda estava ali, ao lado da cama, quando o som mudou. Quando o mundo decidiu que ia continuar sem ele.
Meu corpo entendeu antes da minha cabeça.
Senti as mãos formigarem, como se o sangue tivesse desistido de circular. Minha garganta fechou, não como um choro, mas como se alguém tivesse enfiado algo duro ali dentro. Eu tentava puxar o ar, mas ele não vinha. Não entrava. Cada respiração era um esforço humilhante, curto, insuficiente.
Meu coração batia errado. Rápido demais. Forte demais. Doía fisicamente. Não era metáfora. Era dor real, pulsando, rasgando por dentro como se estivesse tentando sair do meu peito à força.
Quando percebi que o monitor tinha silenciado, minhas pernas falharam. Não senti o chão. Só senti o impacto seco da realidade me atravessando inteira. Meu corpo ficou pesado, inútil, como se tivesse sido desligado junto com o dele.
O choro veio atrasado. Primeiro um som feio, quebrado, que eu nem reconheci como meu. Depois, uma pressão insuportável atrás dos olhos, como se fossem explodir. Minha cabeça girava, o quarto rodava, e eu tinha certeza de que ia morrer ali também. Não por escolha, mas porque não fazia sentido continuar respirando sem ele.
A dor emocional não tinha forma. Era um buraco aberto dentro de mim, sugando tudo. Amor, futuro, esperança. Tudo caía ali dentro e desaparecia. Eu sentia o corpo inteiro doer por alguém que não estava mais ali para doer comigo.
E o pior não foi perder Andrew. Foi entender, naquele segundo exato, que nada, absolutamente nada, jamais seria inteiro de novo.
— Não… — sussurrei, desesperada. — Não agora. Andrew, fica comigo!
Gritei por socorro.
— Médico! Por favor!
Eles entraram correndo. Me afastaram. Alguém segurou meus ombros. Eu lutei, gritei, implorei.
— Ele está aqui! Ele estava falando comigo!
Ethan apareceu na porta. Não entrou. Quando ouviu o silêncio do aparelho, o rosto dele perdeu toda a cor. Ele encostou na parede, como se o corpo tivesse falhado.
— Descansa, Sinclair… — sussurrou, com a voz quebrada. — Eu cuido deles.
O quarto ficou quieto demais. E eu entendi.
Andrew se foi com a minha mão na dele.
Com amor.
Com palavras ditas.
Com despedida.
E uma parte de mim foi junto.
