Capítulo 87 Capítulo 87
Ruby
Chove desde cedo. Uma chuva fina, persistente, que não cai com violência, mas também não vai embora. Como se o céu estivesse cansado demais para desabar de vez. Eu penso que, se ele estivesse aqui, diria que combina comigo hoje. Cinza. Silenciosa. Desgastada.
O vestido preto pesa no meu corpo. Não pela cor, mas pelo significado. Tudo pesa. Meus passos, minha respiração, meus pensamentos. O mundo inteiro parece ter ficado mais lento, como se estivesse respeitando o fato de que eu não sei mais caminhar direito sem Andrew.
O caixão está aberto. E isso dói mais do que eu imaginei que poderia doer.
Andrew parece estar dormindo. Não aquela aparência artificial que eu sempre temi, mas ele mesmo. O mesmo rosto calmo que eu via quando ele adormecia depois de uma noite difícil. Os lábios relaxados. As mãos cruzadas sobre o peito. Meu coração falha ao reconhecer cada detalhe.
Aproximo-me devagar.
Cada passo até ele parece definitivo. Como se, quando eu chegasse perto demais, não tivesse mais volta. Seguro a borda do caixão por um instante, preciso me apoiar. Meus dedos tremem. O frio da madeira atravessa minha pele.
Seguro a mão dele. Está fria. Não gelada. Apenas fria demais para ser dele.
— Você devia ter ficado mais um pouco… — sussurro, tão baixo que talvez só eu ouça. — Só mais um pouco comigo.
Minha voz falha, mas não choro ainda. Não consigo. O choro parece preso em algum lugar dentro de mim, como se estivesse esperando autorização para sair.
Ao redor, pessoas falam baixo. Murmúrios educados. Lamentos contidos. Todos parecem saber exatamente como se comportar, menos eu. Não sei onde colocar as mãos, não sei onde olhar, não sei como existir num lugar onde Andrew não existe mais.
Sinto um olhar queimando na minha nuca antes mesmo de virar.
Ethan.
Ele está mais afastado, vestido de preto, imóvel demais. O rosto fechado, duro. Mas eu conheço aquele homem. Sei reconhecer quando ele está quebrado por dentro. Ele dá um passo na minha direção.
Antes que chegue perto demais, ergo a mão.
— Não chega perto.
Minha voz sai firme demais para alguém que está despedaçada. Ele para.
— Ruby…
— Você não devia estar aqui. — digo, finalmente olhando para ele. — Não hoje.
Ethan respira fundo. Vejo o esforço. Vejo o controle.
— Eu fiz uma promessa pra ele.
As palavras me atingem como um golpe.
— Então quebra. — respondo, sem pensar. — Eu não quero você aqui.
Ele engole em seco. Assente com a cabeça, uma vez. Não discute. Não insiste. Apenas se afasta alguns passos. Mas não vai embora.
E eu odeio perceber isso. Odeio saber que, mesmo com raiva, uma parte de mim se sente segura por ele ainda estar ali.
O padre começa a falar. Palavras bonitas. Frases sobre descanso, sobre paz, sobre um homem que viveu intensamente. Tudo parece distante, como se estivesse acontecendo do outro lado de um vidro grosso.
Minha mente está presa em outro lugar. No jeito que Andrew sorria quando me chamava de ruivinha. No modo como ele segurava Dustyn, como se o mundo inteiro coubesse ali. No som da voz dele dizendo que ficaria.
Promessas quebradas doem mais quando não são por escolha. Quando chega o momento de fechar o caixão, sinto algo dentro de mim se partir de vez.
— Não… — escapa dos meus lábios antes que eu consiga me controlar. — Espera… por favor…
Minhas mãos agarram a borda, como se eu pudesse impedir aquilo. Como se fosse possível negociar com a morte.
— Senhora… — alguém tenta dizer.
— Não fecha. — imploro, a voz agora sem controle. — Só mais um minuto.
Ninguém se move. Mas o momento não volta. O som da tampa se fechando ecoa dentro de mim como um tiro. Um barulho seco, definitivo. É ali que o choro vem. Forte. Alto. Intenso. Minhas pernas falham.
— Andrew! — grito, e não me importo mais com quem está ouvindo. — Como é que eu continuo sem você?!
O enterro acontece quase como um borrão. Caminho até o túmulo sem lembrar de ter andado. Vejo o caixão descer, e é ali que tudo desaba de vez. Caio de joelhos na terra molhada.
— Não faz isso comigo… — digo, com a testa quase encostando no chão. — Eu não sei ser forte sozinha. Não do jeito que você acreditava.
Mãos tentam me segurar. Vozes pedem calma. Empurro todas.
— Me deixem sozinha! — grito, fora de mim.
Ethan se aproxima por instinto, mas para antes de tocar. Ele sabe. Sempre soube quando não podia encostar em mim. Ele apenas fica ali. Presente. Calado.
A última pá de terra cobre o túmulo. O som é baixo. Mas é o mais alto que já ouvi na vida.
Aproximo-me da lápide ainda fresca. A chuva torna a pedra escura. Passo os dedos pelo nome dele, como se pudesse senti-lo ali.
Andrew Sinclair.
Meu marido.
O pai do meu filho.
O homem que me amou até o último batimento.
Encosto a testa na lápide, ignorando o frio, a lama, tudo.
— Eu prometo… — digo, com a voz quase inexistente. — Eu prometo que o Dustyn vai saber quem você foi. Vai saber como você amava. Vai saber que você ficou… até não conseguir mais.
Respiro fundo, tentando não quebrar ainda mais ali mesmo.
— E eu vou continuar. Mesmo sem saber como. Mas vou. Por você. Por ele.
Atrás de mim, sinto a presença de Ethan sem olhar. Ele não se aproxima. Não toca. Apenas permanece. E, pela primeira vez desde que Andrew partiu, entendo que o luto não é só sobre perder alguém.
É sobre aprender a existir num mundo onde o amor não foi embora… apenas mudou de forma.
Depois de algumas horas olhando para a lápide, eu acabei voltando para a mansão. Tomei um banho e coloquei outro vestido preto. Eu seguro meu filho contra o peito, e encosto o rosto no cabelo macio dele.
— Dói, meu amor… — sussurro. — Dói acordar e não ouvir a voz do seu pai me chamando de ruivinha. Dói não escutar o jeito calmo que ele tinha de dizer que ia ficar tudo bem, mesmo quando não ia.
Dustyn se mexe, como se entendesse.
— O silêncio ficou alto demais sem ele. — continuo, com a garganta fechada. — Mas eu prometo que você vai ouvir essa voz em mim. Em cada história que eu contar. Em cada vez que eu disser que você é amado. Em cada vídeo que gravei do seu pai.
A dor fica. Mas o amor também.
