Capítulo 88 Capítulo 88

Ethan

Os dias depois da morte de Andrew não têm nome. Não são segunda, terça ou sexta. São apenas dias vazios empilhados uns sobre os outros, todos iguais, todos pesados. Eu sei disso porque passo em frente à mansão todos os dias, mesmo sem entrar. Fico no carro, observando, como um idiota que prometeu não ir embora e não sabe como cumprir isso sem machucar ainda mais.

Ruby não sai do quarto.

Não come.

Não dorme.

Dustyn chora. E esse choro chega até mim mesmo quando as janelas estão fechadas.

Naquela tarde, o telefone toca. É a babá. A voz dela está tensa, cansada.

— “Senhor Storm… desculpa ligar, mas…” — ela hesita. — “Antes de partir, o senhor Andrew me deu seu número. Ele pediu que eu ligasse se a senhora Ruby não ficasse bem depois.”

Fecho os olhos.

— Ela não está bem. — continuo por ela.

— “Não… não está.” — a mulher confirma, com a voz embargada. — “Ela não sai da cama há dois dias. Não responde. Só segura o bebê quando eu coloco no colo dela. E depois devolve.”

Não penso. Não calculo. Não discuto comigo mesmo.

— Estou indo.

Desligo e já estou com o carro em movimento. Não é coragem. É instinto. Andrew sabia disso quando me deixou essa tarefa. Sabia que, mesmo odiado, mesmo rejeitado, eu iria.

A mansão parece maior sem ele. Mais fria. Mais vazia. Os corredores têm um eco estranho, como se a casa inteira estivesse prendendo a respiração. A babá me recebe na porta com os olhos vermelhos.

— Obrigada por vir.

— Onde ela está?

— No quarto.

Subo as escadas devagar. Não quero parecer uma ameaça. Mas quando empurro a porta, Ruby já está sentada na cama, o olhar afiado, ferido, inflamado de dor.

— O que você está fazendo aqui? — ela pergunta, a voz rouca de quem não dorme.

— Cuidando de quem ele me pediu pra cuidar.

Ela se levanta num impulso e tenta empurrar a porta para me expulsar.

— Sai da minha casa!

Seguro a porta antes que feche. Não grito. Não avanço.

— Não é só sua. — respondo, firme. — É dele. E ele me deixou a tarefa de garantir que vocês fiquem bem.

Ela vem pra cima de mim e me empurra no peito.

— Você não entende o que é perder o amor da sua vida!

O impacto não dói no corpo. Dói em outro lugar. Seguro o braço dela antes que ela se machuque, firme, mas com cuidado.

— Entendo. — digo baixo. — Porque perdi você.

Ela me encara por um segundo longo demais. O ódio falha. O cansaço vence. Ruby desaba no sofá como se o corpo finalmente tivesse desistido de fingir força.

— Você não devia estar aqui… — sussurra. — Ele se foi… e você ainda fica.

— Eu fiquei porque prometi. — respondo. — E porque alguém precisa ficar quando todo mundo vai embora.

O choro dela vem forte, cru, desorganizado. Não é bonito. Não é contido. É feio e necessário. Eu não a abraço. Ainda não. Apenas fico ali, perto o suficiente para ela saber que não está sozinha, longe o bastante para não parecer invasão.

O choro do bebê corta o ar.

Vou até o berço e pego Dustyn no colo. Ele se acalma quase imediatamente, como se reconhecesse o silêncio que trago comigo. Apoio o corpo pequeno no meu peito, ajeito com cuidado.

— Oi, pequeno. — sussurro. — Sua mãe é forte. Só esqueceu disso por um tempo.

Começo a embalar devagar. Não sei cantar direito, mas a melodia sai baixa, quase um sussurro. Ruby observa de onde está. Os olhos vermelhos, o rosto vazio.

— Você não devia pegar ele. — diz, fraca.

— Ele não vai quebrar. — respondo. — Nem você.

Ela fecha os olhos. Quando abre de novo, a raiva não está mais lá. Só cansaço.

— Por que você ainda está aqui, Ethan? — pergunta. — Por que não vai embora como todo mundo?

Olho para o bebê nos meus braços. Depois para ela.

— Porque eu sei o que é acordar num mundo que perdeu o sentido. — respondo. — E porque ele me pediu.

Ela se levanta devagar e vem até nós. Estende os braços, hesitante. Entrego Dustyn sem resistência. Os dedos dela tremem ao tocá-lo.

— Ele devia estar aqui… — ela diz, com a voz quebrando. — Era pra ser ele.

— Eu sei. — respondo. — Eu sei.

O silêncio entre nós não é confortável. Mas é honesto.

— Você acha que eu estou falhando como mãe? — ela pergunta, sem me olhar.

— Não. — respondo sem pensar. — Acho que você está sofrendo como alguém que amou de verdade.

Ela se senta novamente, o bebê no colo, e encosta o rosto no topo da cabeça pequena.

— Eu não sei como continuar. — confessa. — Tudo dói.

Dou um passo mais perto.

— Então não continua hoje. — digo. — Continua só por essa hora. Depois pela próxima. Um dia de cada vez.

Ela ri sem humor.

— Você sempre teve respostas fáceis.

— Não são fáceis. — respondo. — São as únicas que eu tenho.

A babá aparece na porta, aliviada ao ver Ruby de pé.

— Ele mamou? — Ruby pergunta, finalmente.

— Ainda não. — a mulher responde.

— Eu faço. — Ruby diz, sentando-se com cuidado. — Eu faço.

Fico ali enquanto ela amamenta. Não olho demais. Respeito o espaço. Mas vejo algo mudar. Não melhora. Não cura. Mas não afunda mais.

— Você pode ficar? — ela pergunta, quase sem voz. — Só… por hoje?

Assinto.

— Eu não vou embora.

À noite, quando Dustyn dorme, Ruby se senta no chão do quarto, encostada na cama. O olhar perdido.

— Ele confiou em você. — ela diz. — Isso me assusta.

— Também me assusta. — respondo. — Mas eu não vou falhar com ele.

Ela me encara.

— Não confunda cuidado com controle, Ethan.

— Não confundo. — respondo, sério. — Eu aprendi isso tarde demais.

Ela abaixa o olhar. Suspira.

— Eu não te perdoo. — diz. — Mas… também não consigo te odiar agora.

— Não peço perdão. — respondo. — Só tempo.

O relógio marca duas da manhã quando ela finalmente adormece, exausta, com Dustyn no berço ao lado da cama. Fico sentado na poltrona, observando os dois. A casa respira devagar.

Penso em Andrew. No olhar dele quando me pediu isso. Na certeza silenciosa de que ele sabia que eu não iria embora. E ele estava certo. Porque eu sou muitas coisas. Mas covarde, não.

Enquanto eles dormem, faço a promessa que ninguém me ouviu fazer:

— Eu fico. — sussurro. — Mesmo que doa. Mesmo que ela me odeie. Mesmo que eu tenha que engolir o amor e viver só da proteção.

Sou o homem que não vai embora. E dessa vez, não é por ego. É por lealdade. É por amor… a ela e ao moleque.

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