Capítulo 89 Capítulo 89
Ruby
Eu tento. Juro que tento. Levanto da cama, sento na beira, coloco os pés no chão. Respiro fundo, como se isso fosse suficiente para reorganizar o mundo. Mas tudo em mim pesa. O quarto pesa. O ar pesa. O silêncio pesa.
Andrew não está aqui.
E essa ausência abre um buraco dentro de mim que não cicatriza, não fecha, não diminui. É como se alguém tivesse arrancado uma parte do meu corpo e esperado que eu continuasse funcionando normalmente.
Eu não consigo.
Não sinto fome. Quando tento comer, o estômago embrulha, a garganta fecha. A comida vira algo estranho, inútil. Um esforço que não faz sentido quando tudo o que eu queria era ouvir a voz dele mais uma vez.
Também não consigo sair do quarto. Cada porta parece levar para um lugar onde ele não está. Cada corredor me lembra passos que não existem mais. A casa inteira se transformou num museu de coisas que não voltam.
E quando o cansaço finalmente vence a insônia… eu sonho. Sempre com ele.
No sonho, Andrew está em pé na nossa varanda, usando aquela camisa clara que ele gostava de vestir em casa. O rosto está tranquilo demais, bonito demais, inteiro demais para alguém que morreu.
— Você precisa seguir, Ruby. — ele diz, com a voz firme e doce ao mesmo tempo.
Eu balanço a cabeça, chorando, sentindo o desespero tomar conta do peito.
— Eu não consigo. — respondo. — Eu não sei viver sem você.
Ele se aproxima devagar, como fazia quando tinha medo de me assustar.
— Eu sei que dói. — diz, segurando meu rosto. — Mas você é mais forte do que acha.
— Não sou. — eu digo, soluçando. — Eu só era forte porque você estava comigo.
Andrew sorri daquele jeito triste que sempre significou que ele sabia algo que eu ainda não queria aceitar.
— Então vive por mim. — ele pede. — Vive pelo que a gente construiu.
No sonho seguinte, estou sentada no chão da sala, abraçada aos joelhos. Andrew se ajoelha à minha frente, os olhos cheios de uma calma que me revolta.
— Você prometeu que ia ficar. — eu digo, com raiva. — Você prometeu.
— Eu fiquei enquanto pude. — ele responde. — Agora preciso que você fique.
— Não assim. — grito. — Não sem você.
Ele fecha os olhos por um segundo, como se aquilo também doesse nele.
— O amor não acaba quando o corpo vai embora. — diz. — Ele só muda de forma.
— Eu não quero outra forma. — respondo. — Eu quero você.
Acordo sempre chorando. Sempre com a sensação de que perdi tudo outra vez.
Os dias passam assim. Um em cima do outro. Até que meu corpo desiste. Três dias depois, eu apago.
Não lembro da queda. Não lembro do chão. Só lembro de acordar confusa, com uma luz branca acima de mim e um peso estranho no peito.
Hospital.
O gosto seco na boca denuncia o que eu já sabia, eu não estava me cuidando. Não estava vivendo. Só estava esperando algo que não ia acontecer.
Horas depois, a porta do quarto se abre. Não preciso olhar para saber quem é, o perfume chega em mim primeiro.
— Por que você está atrás de mim de novo? — pergunto, sem forças nem para levantar a cabeça.
Ethan se aproxima devagar, como se eu fosse algo frágil demais para tocar.
— Porque você não está vivendo. — ele responde.
Viro o rosto para o lado, encarando a parede.
— Não tem sentido sem ele.
— Tem. — ele diz, firme. — Você só não consegue ver agora.
— Não finge que entende. — murmuro. — Você não perdeu o Andrew.
— Não. — ele concorda. — Mas perdi você. E estou vendo você se perder de novo.
Sinto as lágrimas escorrerem antes mesmo de perceber que estou chorando.
— Tudo dói. — digo. — Tudo lembra ele.
Ethan dá mais um passo e fica ao meu lado.
— E o Dustyn? — ele pergunta. — Ele não é parte dele também?
Engasgo. O nome do meu filho soa como um soco no peito.
— Eu… — tento falar, mas a voz falha.
— Eu sei o quanto você amava o Andrew. Mas será que ele está descansando em paz sabendo que você está quase deixando o Dustyn sozinho para acompanhar ele? — ele continua, sem crueldade, mas sem suavizar a verdade.
Viro o rosto para ele, as lágrimas caindo sem controle.
— Eu não estou bem. — confesso, sentindo vergonha. — Eu só… estou tentando me encaixar nessa vida sem ele. Mas parece que até respirar sem ele machuca.
Ethan se abaixa ao lado da cama e segura minha mão. Não com posse. Não com urgência. Com cuidado.
— Eu não estou pedindo pra você esquecer tudo o que viveu com ele. — ele diz. — Eu tenho consciência de que os próximos dias também serão de dor. Só que você precisa se manter de pé.
Fecho os olhos. A imagem de Andrew segurando Dustyn no colo atravessa minha mente como uma bala.
— Ele confiou em você. — sussurro.
— Confiou. — Ethan responde. — E confiou em você também.
Minha mão aperta a dele sem perceber. Pela primeira vez desde que acordei neste hospital, eu não mando ele sair.
— Eu estou com medo. — admito. — Medo de viver sem ele. Medo de falhar com nosso filho.
— O medo não vai embora. — Ethan diz. — Mas ele não precisa mandar em você.
Respiro fundo, sentindo o choro diminuir aos poucos. Não some. Mas não me afoga mais.
— Fica... por enquanto. — digo, quase sem voz.
Ele assente.
— Eu fico.
E naquele quarto branco, pela primeira vez desde que Andrew partiu, eu não estou completamente sozinha.
Quando Ethan sai do quarto para atender uma ligação, o silêncio volta a ocupar tudo. Não é um silêncio calmo. É pesado, cheio de ecos.
Minha mão treme quando alcanço o celular na mesa ao lado da cama. Eu sei exatamente o que vou encontrar ali, mas mesmo assim desbloqueio a tela. Abro a pasta que criei semanas atrás, quando ainda fingia que o tempo ia me obedecer.
“Nosso para sempre”.
O nome me corta por dentro.
Meus dedos deslizam até um vídeo curto. Aperto o play antes de mudar de ideia. A imagem treme um pouco. Andrew está sentado no sofá da sala, o Dustyn ainda pequeno demais no colo. Ele olha para a câmera e depois direto para mim, daquele jeito que fazia parecer que só existíamos nós dois no mundo.
— Para de gravar, ruivinha… — ele diz, rindo baixo.
No vídeo, eu rio também, do outro lado da câmera. A risada soa distante agora, como se fosse de outra mulher.
Ele se aproxima da lente, sério de repente, e fala com a voz firme, certa, viva:
— Eu te amo, ruivinha. Nunca duvide disso.
O som da voz dele atravessa meu peito. O celular escorrega dos meus dedos e cai sobre o lençol enquanto o choro vem forte, descontrolado, dolorido.
— Eu também te amo… — sussurro para uma tela que não responde mais.
Abraço o telefone contra o peito como se fosse possível trazer Andrew de volta dali. Como se aquele “eu te amo” ainda pudesse me alcançar no tempo.
E choro. Choro por ele. Choro por mim. Choro porque amar alguém assim não acaba quando o coração para de bater.
