Capítulo 9 Capítulo 9
Ruby
Os dias que antecederam a festa de noivado foram estranhamente perfeitos.
Andrew cumpria o combinado, me tratava como rainha, mas não ultrapassava a linha que eu ainda não tinha liberado. Nenhum beijo na boca, nenhum toque além da mão ou da cintura quando era inevitável. Ele parecia saber exatamente onde ficava o meu limite e dançava em cima dele sem nunca pisar.
Numa tarde chuvosa, estávamos na mansão dele em Kensington, sala enorme, mesa coberta de convites dourados. Ele insistiu em escrever alguns à mão, “pra ficar mais pessoal”. Eu sentada do outro lado, caneta na mão, rindo da letra dele que parecia de arquiteto.
A chuva batia forte nas janelas. O fogo crepitava na lareira. Ele largou a caneta e me olhou por cima da mesa.
— Sabe como seria a minha lua de mel perfeita?
Eu levantei a sobrancelha.
— Me conta.
Ele se recostou na cadeira, voz baixa, quase um sussurro.
— Uma ilha só nossa. Dois meses. Você acordaria com minha boca entre suas pernas, devagar, até você implorar pra eu parar… ou pra continuar. Passaria o dia inteiro te tocando, te abrindo, te fazendo gozar na cachoeira termal, na areia quente, contra a parede do quarto com vista pro mar. À noite eu te tomaria tão fundo que você esqueceria até seu próprio nome. E no dia seguinte tudo de novo. Até você não conseguir mais andar direito.
Eu senti o calor subir pelo pescoço, as coxas apertando debaixo da mesa. Minha respiração ficou curta.
— E a sua? — ele perguntou, olhos fixos nos meus. — Como seria a lua de mel perfeita pra você, Ruby?
Eu engoli em seco, mas decidi jogar.
— Eu ia te acordar com a boca no seu sexo, devagar, até você me agarrar pelo cabelo. Depois te montava na varanda, com o sol nascendo, bem devagar, te olhando nos olhos enquanto eu gozava em cima de você. À noite eu iria querer você me segurando contra a parede, me fodendo forte enquanto me diz que eu sou sua. Romântico e sujo ao mesmo tempo.
O ar ficou pesado. Ele se levantou devagar, contornou a mesa. Parou na minha frente. Nossos rostos a centímetros. Eu sentia o calor dele, o cheiro, a vontade de fechar os olhos e deixar acontecer.
Os lábios dele quase tocaram os meus.
O celular dele tocou, alto na mesa.
Nós dois recuamos ao mesmo tempo, ofegantes. Ele atendeu, virou de costas. Eu fiquei ali, coração disparado, pernas tremendo, o corpo inteiro gritando por algo que ainda não tinha nome.
A noite da festa chegou.
O salão do Savoy estava irreconhecível. Lustres de cristal, arranjos de orquídeas brancas até o teto, mesas cobertas de ouro e preto, mais de trezentas pessoas que decidem o destino do mundo com uma taça na mão. Eu nunca tinha estado num lugar tão cheio de poder e tão vazio de ar.
Andrew segurava minha cintura com firmeza, mas sem apertar demais. Ele sorria para os convidados, respondia perguntas, me apresentava como se eu fosse a coisa mais natural do planeta. Eu tentava sorrir de volta, mas o estômago estava revirado. Desde que saímos da mansão, uma sensação ruim não me largava. Como se o passado tivesse decidido aparecer para cobrar a conta.
Ele subiu no pequeno palco, bateu na taça e o salão inteiro calou.
— Boa noite a todos. Obrigado por estarem aqui celebrando comigo algo que eu esperei a vida inteira. — Ele me olhou, estendeu a mão. — Ruby, vem aqui.
Eu subi, pernas tremendo dentro do vestido azul escuro. Aplausos. Flashes. Ele segurou minha mão e continuou:
— Essa mulher aceitou ser minha esposa. E eu prometo ao mundo que vou passar o resto dos meus dias fazendo ela feliz.
Aplausos mais altos. Eu sorri forçado. E então o silêncio caiu como uma guilhotina. As portas do salão se abriram com força.
Ethan Storm entrou.
Terno preto impecável, camisa preta, gravata preta. Olhar que cortava o salão ao meio. Ninguém ousou se mexer. Ele caminhou direto até nós, passos pesados, como se o chão fosse dele.
Parou a dois metros.
— Parabéns, Ruby — disse, a voz baixa, mas todo mundo ouviu. — Mal se divorciou e já arrumou outro marido? Muito inteligente da sua parte usar minha confiança pra me fazer assinar o divórcio sem eu saber o que era.
Eu congelei. O coração parou no peito. Andrew soltou minha mão devagar e se colocou na minha frente.
— Acho que o senhor não foi convidado. Enviei os convites pessoalmente e em nenhum deles tinha o seu nome.
Ethan nem olhou pra ele. Os olhos estavam cravados em mim.
— Não preciso de convite pra falar com a minha esposa.
— Ex-esposa, Ethan — eu consegui dizer, com a voz tremendo. — Você assinou o divórcio e nem percebeu. A culpa foi sua.
Murmúrios. Telefones já filmando. Ethan deu um sorriso sem humor.
— Cinco semanas fora de casa e já está nos braços de outro? — Ele inclinou a cabeça. — Eu só preciso de uma ligação pra acabar com isso tudo e te obrigar a casar comigo de novo.
Andrew deu um passo à frente, ficando cara a cara com ele.
— Faça a ligação — disse, calmo, voz de gelo. — Enquanto você tenta me destruir, eu faço outra e derrubo sua máfia inteira em cinco minutos.
Os dois estavam tão perto que eu podia sentir o ódio saindo deles em ondas. Dois metros de puro perigo se encarando. Eu me meti no meio, empurrando os peitos dos dois com as mãos pequenas.
— Chega! — gritei. — O que a gente teve acabou no divórcio, Ethan! Eu sou livre pra viver como eu quiser!
Ele baixou o olhar pra mim. A voz saiu rouca, quase quebrada.
— Isso não vai ficar assim. Eu não vou desistir de você.
— Desistir de mim? — Eu ri, nervosa, sentindo as lágrimas queimarem. — A única de quem você não desistiu foi da Astrid! Então assume sua amante e seja feliz!
Ele deu um passo, ignorando Andrew.
— Só existe uma mulher capaz de me fazer feliz, e ela está bem aqui na minha frente. Eu errei. Fui um otário. Só preciso de uma segunda chance.
Eu prendi o ar. O salão inteiro prendeu o ar.
Andrew me puxou pela cintura, me virou de frente pra ele e me beijou. Na frente de todo mundo. Um beijo firme, possessivo, cheio de aviso. A mão dele na minha nuca, a outra na cintura, me marcando como dele.
O salão explodiu em gritos. Eu ouvi o clique antes de ver. Ethan sacou a arma. Preta, brilhando, apontada direto pra cabeça de Andrew.
— Tira a mão dela — ordenou, voz mortal.
Gritos. Pessoas correndo. Taças caindo no chão. Os seguranças de Andrew avançaram, armas sacadas, apontando pra Ethan. Em segundos, eram seis canos mirando o peito dele.
Andrew nem se mexeu. Continuava com a mão na minha cintura, o beijo ainda fresco nos meus lábios.
— Você tem uma arma — Andrew falou, calmo. — Eu tenho seis apontadas pra você. Quer apostar quem sai vivo?
Ethan sorriu. Um sorriso frio, perigoso.
— Só preciso de um tiro pra acabar com você. Mesmo que eu morra depois, você morre primeiro. E nenhum dos dois fica com ela.
Eu senti o mundo girar
. As pernas falharam. A última coisa que vi foi o dedo dele no gatilho. E então meu coração parou de bater.
