Capítulo 90 Capítulo 90
Ruby
Duas semanas depois, eu volto pra casa.
A porta da mansão se abre como sempre se abriu, mas o som parece diferente. Mais oco. Mais frio. O cheiro ainda é o mesmo, mistura de madeira encerada, flores frescas e algo que eu não sei explicar, talvez memória. Só que agora a casa não responde. Ela não me acolhe. Ela observa.
Estou mais magra. Não precisei subir na balança para saber. Meu corpo denuncia o que meu coração viveu. As roupas caem nos ombros, os ossos aparecem mais do que antes, o rosto no espelho parece de alguém que passou por uma guerra.
Seguro o Dustyn contra o peito quando atravesso o hall. Ele dorme tranquilo, alheio à ausência que grita em cada canto daquela casa. Às vezes isso me machuca. Às vezes isso me salva.
— Seja bem-vinda de volta, senhora Sinclair — diz Hellen, com cuidado demais na voz.
Assinto, porque falar ainda exige um esforço que eu não tenho certeza se consigo fazer todos os dias.
No fim da tarde, o advogado de Andrew chega. Ele traz uma pasta grossa, organizada demais para um momento em que eu ainda estou tentando lembrar como respirar sem sentir dor no peito.
— Ruby… — ele começa, sentando à minha frente — precisamos conversar sobre a empresa.
Meu estômago revira.
— Agora?
— Andrew deixou instruções claras. Em caso de… — ele pausa, respeitoso — em caso da ausência definitiva dele, você assume como Ceo interina.
A palavra “definitiva” bate forte. Aperto os dedos ao redor da xícara de chá até sentir o calor incomodar.
— Eu não sei se consigo — confesso.
— Ele sabia que você conseguiria — o advogado responde, simples, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
No dia da reunião, visto preto. Não como luto explícito. Como armadura.
Entro na sala de conselho com passos firmes, mesmo sentindo as pernas fracas. Homens de terno caro me observam como se eu fosse uma intrusa sentada numa cadeira que não me pertence. A cadeira de Andrew.
Sento. O silêncio pesa.
— Senhora Sinclair — um deles começa, sem rodeios — com todo respeito, a senhora tem pouca experiência prática. Ou melhor… nenhuma.
Outro emenda, com um sorriso torto:
— A empresa não pode ser colocada nas mãos de alguém emocionalmente instável.
Emocionalmente instável. Viúva. Mulher. Frágil, segundo eles.
Respiro fundo. Seguro o anel de casamento no dedo. Não por saudade. Por força.
— Eu aprendi com o melhor — digo, firme. — E não preciso provar isso a ninguém aqui.
Um riso curto ecoa.
— Com todo respeito — outro diretor diz — viúvas emocionadas não dirigem impérios.
Minha mão treme, mas minha voz não.
— Então se preparem — respondo, encarando cada um deles. — Porque vocês vão ver exatamente do que uma mulher em luto é capaz.
Levanto antes que digam mais alguma coisa. Saio com a cabeça erguida.
No elevador, quando as portas se fecham, minhas pernas cedem.
As lágrimas vêm sem aviso. Quentes. Não é fraqueza. É o preço de continuar quando tudo em você quer parar.
No estacionamento, Ethan está encostado no carro. Dustyn dorme no bebê conforto. A cena me desmonta um pouco.
— Como foi? — ele pergunta, sem rodeios.
Entro no carro devagar.
— Horrível — respondo. — Não confiam em mim. Me acham incapaz.
— Então começa por aí — ele diz, ligando o carro. — O Andrew nunca gostou de caminhos fáceis.
Encosto a cabeça no banco, exausta.
— Eu ainda não consigo te perdoar.
Ele não se defende. Não rebate.
— Eu não estou aqui por perdão, Ruby — responde. — Estou aqui por vocês.
Olho para o Dustyn. Seguro a mãozinha dele.
— Então fica — sussurro. — Só até eu conseguir respirar sem sentir dor.
Ethan assente. Não como quem vence. Como quem aceita um fardo.
À noite, depois que coloco o Dustyn no berço, fico sentada no chão do quarto, encostada na cama vazia demais para um casal que deveria estar ali. Pego o celular quase sem perceber. Vídeos. Fotos. Momentos. Aperto o play.
Andrew aparece na tela, sorrindo, bagunçado, com o Dustyn no colo.
— Eu te amo, ruivinha — ele diz no vídeo, olhando direto para a câmera.
Meu peito colapsa.
— Eu também te amo — respondo para a tela, com a voz falha. — Eu ainda te amo. Todos os dias.
Choro em silêncio, com medo de acordar meu filho. Com medo de aceitar que continuar dói mais do que parar. Mas parar não é uma opção.
Andrew me deixou um filho. Uma empresa. Uma vida inteira que precisa seguir. Continuar não é esquecer. É aprender a carregar a ausência sem deixar que ela mate tudo que ainda vive.
E mesmo doendo… eu vou continuar. Nem que doa todos os dias.
No dia seguinte volto na empresa. Entro na sala que era de Andrew devagar, como se estivesse pisando em algo sagrado.
O cheiro ainda é dele. Não sei explicar como, mas é. Madeira, algo suave, perfume discreto. A mesa está exatamente como ele deixou. Nenhum objeto fora do lugar. Nenhuma cadeira puxada. Tudo parado no tempo.
Aproximo-me da mesa e meus olhos vão direto para as fotos. O dia do nosso casamento.
Ele sorrindo para mim como se eu fosse a única mulher no mundo. A foto da lua de mel vem logo ao lado. Estamos na praia, eu de vestido leve, o cabelo bagunçado pelo vento, ele atrás de mim, os braços me envolvendo como se quisesse me proteger do próprio mundo. Lembro de como ele foi romântico. Intenso. Incansável. Como se soubesse que cada segundo precisava ser vivido por dois.
Há também uma foto recente. Andrew sentado na poltrona, Dustyn dormindo no peito dele. Um sorriso cansado, mas completo. A imagem aperta meu peito de um jeito que quase me faz sentar no chão.
— Você pensou em tudo… — sussurro para o vazio.
A porta se abre atrás de mim. Viro rápido, o coração acelerado.
É uma mulher loira, alta, postura firme. Deve ter entre quarenta e quarenta e cinco anos. O olhar é sério, mas não duro. É calmo. Seguro. Daqueles que passam confiança sem precisar sorrir.
— Senhora Sinclair? — ela pergunta.
— Sou eu.
Ela estende a mão.
— Stella Sanders. Andrew me escolheu para ser sua assistente pessoal na empresa.
Fico muda por um segundo.
— Eu… não fui avisada.
— Ele pediu que só lhe contassem quando fosse o momento certo. — ela explica. — Peço desculpas por não ter chegado a tempo da reunião. Meu voo só pousou hoje de manhã.
Assinto, tentando organizar os pensamentos.
— Ele… deixou tudo planejado? — pergunto, com a voz embargada.
— Tudo. — Stella responde sem hesitar. — E quero que saiba de uma coisa, eu não vou decepcionar você, nem a memória dele. Quando se trata do meu chefe… ou da minha chefa… eu sou mais leal que um cão de guarda.
Um sorriso triste escapa de mim.
— Obrigada. De verdade.
Sinto os olhos arderem. Andrew pensou em mim até depois de partir. Até nos detalhes que eu nem sabia que precisava.
E isso… dói. Mas também me sustenta.
