Capítulo 91 Capítulo 91
Ruby
Eu acordo cedo. O quarto ainda está escuro e Dustyn dorme no berço ao lado da cama. Eu fico olhando pra ele e a última frase do Andrew volta, como se estivesse escrita no ar.
— “Vive por nós.”
Eu respiro fundo, engulo o choro e levanto.
— Eu vou, Andrew. Eu prometo.
No banheiro, lavo o rosto, prendo o cabelo e visto o terno feminino preto que ele mais gostava de me ver usando. É estranho vestir preto por poder e não só por luto, mas hoje eu preciso dos dois.
Na cozinha, a babá está com Dustyn no colo.
— Bom dia, senhora.
— Bom dia. Ele comeu?
— Sim. E está agitado.
Eu beijo a testa do meu filho e sussurro:
— A mamãe vai trabalhar. Mas volta rapidinho.
No carro, eu tento manter a cabeça no lugar. Quando a Sinclair Corporation aparece pela janela, meu estômago aperta. A empresa é grande demais, fria demais, e agora eu sou a pessoa que tem que decidir tudo.
Os seguranças abrem caminho.
— Bom dia, senhora Sinclair.
Eu respondo com firmeza e entro. No saguão, funcionários cochicham. Alguns me olham com pena, outros com expectativa, e alguns com aquele olhar de quem espera um escorregão.
O elevador sobe. No caminho até a sala de reuniões, uma secretária me entregou um crachá novo com a palavra “Ceo”. Eu segurei como se fosse pesado demais.
— Se precisar de qualquer coisa, senhora Sinclair… — ela disse, baixo.
— Obrigada. Só continue fazendo seu trabalho. Eu vou fazer o meu.
Antes de entrar, eu paro um segundo no corredor e lembro do Andrew, noites atrás, sentado comigo na mesa.
— Eles vão te testar, Ruby. Não é porque você é fraca. É porque eles são.
— E se eu errar?
— Você corrige. Liderança não é não errar. É não abandonar o posto.
Essa lembrança me empurra.
Quando as portas abrem, vejo a sala de reuniões cheia. Homens de terno, pastas abertas, copos de café, rostos fechados.
E aí eu vejo Stella.
Loira, alta e postura de quem não pede licença. Ela está ao lado da cadeira que seria do Andrew. Quando eu chego, ela puxa a cadeira para que eu sente. Eu sinto um aperto no peito. Andrew pensou em tudo, até no meu cansaço.
— Obrigada, Stella.
A reunião começa.
Durante a discussão do plano, eu vejo as armadilhas. Um tenta mudar números no meio da fala, outro me interrompe com piadinhas, e Hargreaves usa “senhora” como se fosse um jeito de me diminuir. Eu não devolvo no grito. Eu devolvo com fatos.
— Se o senhor vai criticar o plano, critique com dados. Ironia não paga folha salarial.
Um deles abre um gráfico e tenta me confundir com termos técnicos. Eu deixo ele terminar e pergunto, do jeito que Andrew faria:
— Qual é o risco real e qual é o medo pessoal?
A sala fica muda. Stella encosta o tablet e eu vejo as planilhas corretas abertas.
— A expansão já estava prevista no caixa do trimestre passado. Andrew não brincava com números. E eu não vou começar agora.
Quando a reunião termina, um diretor mais jovem, que ficou calado, me aborda na saída.
— Senhora Sinclair… sinto muito pelo Andrew. Se a senhora precisar de apoio na transição, eu posso ajudar.
Eu avalio o olhar dele. Não é bajulação, é cautela.
— Obrigada. Apoio se prova com ações. Vamos ver.
Na sala do Andrew, antes de sair, Stella me entrega uma folha com três itens anotados à mão.
— Rotina. Primeiro: nunca entre sozinha numa reunião sem pauta impressa. Segundo: registre tudo por e-mail. Terceiro: escolha dois diretores neutros e aproxime. O resto a gente enfrenta.
Eu seguro a folha como se fosse um mapa.
— Você fala como quem já sobreviveu a isso.
— Eu sobrevivi. — ela diz. — E a senhora também vai.
Eu penso no Dustyn em casa, no jeito que ele fecha a mão quando dorme, e sinto a culpa virar força. Eu não posso desabar aqui dentro. Não com o nome dele no meu sobrenome, não com a empresa nas minhas mãos. Eu assinto para Stella, engulo o medo e volto a respirar como se fosse a primeira vez.
Eu me sento na cadeira principal, tentando não pensar na ausência dele. Stella fica ao meu lado com um tablet e uma pasta. Cinco executivos entram para falar comigo.
Um diretor, Hargreaves, abre a boca com um sorriso que não chega nos olhos.
— Senhora Sinclair, este é um momento delicado para a companhia.
— É delicado para mim também. — eu respondo. — Mas a empresa não vai parar porque eu estou em luto.
Ele ajeita os papéis e dispara, sem vergonha:
— A senhora pode não estar preparada para decisões grandes. Para ser sincero, não me parece inteligente para algo tão complexo.
Eu sinto a mão tremer e seguro o anel de casamento. Antes que eu responda, Stella bate o pé, seco, e fala como se estivesse colocando alguém no lugar.
— Recolha a sua insignificância. Está falando com a dona disso tudo. Mantenha respeito.
A sala cala. Hargreaves tenta reagir.
— Isso é inaceitável…
Eu levanto a mão.
— Calma, Stella, eu resolvo.
Eu encaro o diretor.
— Foi o Andrew quem me preparou pessoalmente. Eu não sabia que uma empresa tão respeitada como essa julgava a inteligência de uma pessoa pelo sexo dela.
Ele fecha a boca. Outro executivo tenta suavizar com ironia.
— Só queremos segurança. A senhora é nova nisso.
— Nova em estar sentada aqui. — eu digo. — Não em entender como essa empresa funciona.
Hargreaves muda de assunto e apresenta um plano de expansão. Quando eu vejo o documento, meu peito aperta, está assinado em meu nome. Andrew deixou pronto e me colocou como responsável.
— Isso é ridículo! — um deles solta, indignado.
— Ridículo por quê? — eu pergunto.
— Porque está no nome dela. — ele aponta pra mim, como se meu nome fosse um defeito.
Eu endireito a coluna.
— Sim, está no meu nome. E foi ele quem me ensinou a não pedir permissão pra liderar.
Eu leio os pontos principais, sem correr. Explico as novas frentes, os investimentos e o cronograma. Eles tentam achar brechas, mas eu não desvio.
— A senhora pretende aprovar isso sozinha? — alguém provoca.
— Eu pretendo aprovar o que for melhor para a Sinclair Corporation. — respondo. — E pretendo ouvir opiniões úteis, não ataques disfarçados.
Stella faz anotações rápidas. Eu percebo que ela registra quem fala, quem ri, quem tenta me cortar.
No fim, eles encerram com aquele “vamos avaliar” que eu conheço bem. Eu fecho a pasta, levanto e digo, com calma:
— Vocês podem duvidar de mim. Podem testar. Mas entendam, eu não vim pedir aceitação. Eu vim trabalhar. E quem não tiver maturidade pra isso, pode pedir demissão.
Eu saio da sala sem olhar pra trás. Só quando a porta se fecha eu sinto a garganta queimando. No elevador, minhas lágrimas ameaçam, mas eu não deixo cair. Ainda.
Eu vou direto para a sala particular que era do Andrew, uma sala que ele usava quando não queria ser incomodado. Lá dentro, tudo tem a marca dele. Na mesa, fotos, eu toco a moldura e sussurro, quase sem voz:
— Você me deixou um mundo inteiro.
A porta abre e Stella aparece.
— Eu interrompo?
— Não. Entra.
Ela olha rápido ao redor e fala com respeito.
— Eles vão tentar te cercar, senhora Sinclair. Mas eu estou aqui pra impedir. Andrew foi claro, você não pode lutar sozinha.
Eu sinto os olhos encherem.
— Ele… fez isso mesmo.
— Fez. E eu vou honrar. — ela responde. — Agora você tem uma empresa e tem um filho. E vai ter que aprender a ser dura sem perder o coração.
Eu respiro e assinto. Quando Stella sai, eu pego o celular e ligo para Ethan. Eu não gosto de depender dele, mas eu preciso de respostas.
Ele atende na hora.
— “Fala, Ruiva.”
— Preciso que investigue uma coisa.
— “O quê? Faço o que você quiser, Ruiva.”
— Os diretores que riram de mim. Aposto que estão escondendo algo.
Eu ouço um som curto do outro lado, como um sorriso.
— “Você está virando ele.”
Eu olho para a foto do Andrew com Dustyn e aperto a moldura, como se isso me segurasse no chão.
— Não. — eu respondo, firme. — Estou virando eu.
