Capítulo 92 Capítulo 92
Ethan
Passei o dia inteiro em silêncio.
Silêncio por fora, porque por dentro a minha cabeça não parava nem por um segundo. Desde que Ruby me ligou pedindo para investigar os diretores, eu sabia que não era só desconfiança.
Andrew nunca errava quando falava de pessoas. Ele podia ser duro, fechado, mas tinha um faro absurdo para traição. E se ele desconfiou antes de morrer, então havia algo muito errado ali.
Comecei cedo.
Primeiro, os relatórios financeiros que consegui acessar por fora, usando contatos antigos que ainda me deviam favores. Depois, cruzamentos de dados, empresas fantasmas, transferências quebradas em valores menores para não chamar atenção. O tipo de coisa que só passa despercebida quando ninguém quer olhar de verdade.
E ninguém quis.
Andrew estava doente. O conselho estava confortável. Ruby ainda não tinha assumido. Era o cenário perfeito.
Três nomes começaram a se repetir. Três diretores. Antigos. Respeitados. Os mesmos que riram dela na primeira reunião.
— Filhos da puta… — sussurrei, encarando a tela.
O desvio não começou depois da morte do Andrew. Começou meses antes. Usaram o nome da fundação social da Sinclair Corporation como escudo. Doações falsas. Projetos inflados. Dinheiro indo para contas no exterior.
Roubaram enquanto ele morria.
A ideia me deu náusea.
Esperei a noite cair antes de sair. Não queria câmeras, nem seguranças curiosos. Um dos diretores ainda mantinha o escritório pessoal ativo no prédio antigo da empresa. Um erro clássico de gente que se acha intocável.
Arrombar aquela porta foi fácil demais.
O cheiro de madeira, couro caro e arrogância ainda estava ali. Liguei o notebook dele, usei um pendrive criptografado e comecei a copiar tudo. Contratos, e-mails, comprovantes bancários.
— Andrew… — sussurrei. — Você estava certo até o fim.
Saí de lá sem deixar rastro.
No caminho de volta, dirigi sem pressa. A mansão apareceu ao longe, iluminada. O lugar que antes era território dele, agora parecia um espaço suspenso no tempo. Parei o carro do outro lado da rua, como venho fazendo desde sempre. Não por invasão. Por vigilância.
Eu sempre fico perto.
Quando levantei o olhar, vi Ruby pela janela do andar de baixo. Ela também me viu. Não sorriu. Não acenou. Apenas virou o rosto e, segundos depois, a porta da frente se abriu.
Ela estava descalça. Usava um moletom largo. O cabelo preso de qualquer jeito. O luto ainda colado nela como uma segunda pele.
— O que você está fazendo aqui a essa hora? — perguntou, sem agressividade, mas sem suavidade também.
Saí do carro e caminhei até ela.
— Cumprindo sua ordem.
Estendi o pen drive.
— Eles estão te sabotando. Três diretores. O desvio vem de antes da morte do Andrew. Usaram a fundação pra esconder transferências.
Ela não pegou o pen drive de imediato. Respirou fundo, fechou os olhos por um segundo, como se estivesse juntando forças.
— Eu sabia… — sussurrou. — O Andrew tinha razão sobre o conselho.
Assentiu para si mesma, mais do que para mim.
— Ele sempre tinha. — respondi.
Entramos. A casa estava quieta. Dustyn devia estar dormindo. Ruby colocou o pen drive sobre a mesa da sala, como se fosse algo pesado demais para segurar por muito tempo.
— Você vai precisar de ajuda pra limpar isso. — falei, direto.
Ela cruzou os braços.
— Eu tenho a sua?
Olhei para ela sem pensar.
— Sempre teve. Mesmo quando não queria.
O silêncio caiu entre nós. Não era vazio. Era carregado. Dor antiga, mágoa, tudo misturado com algo que nenhum dos dois conseguia nomear.
— Eu não estou te pedindo isso como mulher… — ela disse, finalmente. — Estou te pedindo como Ceo. Como mãe. Como alguém que precisa proteger o que ele construiu.
— Eu sei. — respondi. — E é por isso que eu estou aqui.
Ela me encarou. Por um instante, vi a Ruby de antes. A que enfrentava. A que não abaixava a cabeça.
— Eles vão cair. — continuei. — Mas do jeito certo. Sem escândalo que respingue em você ou no Dustyn.
— Você pensa em tudo… — ela falou.
— Alguém precisa pensar enquanto você ainda está aprendendo a respirar de novo.
Ela não discutiu.
— Obrigada. — disse, baixo. — Por isso. Só por isso.
Assenti. Não precisava de mais. Quando me virei para ir embora, ouvi a voz dela atrás de mim.
— Ethan… — Parei. — O Andrew confiava em você.
Virei o rosto.
— Eu sei.
Ela engoliu em seco.
— Então… fica por perto.
Não sorri. Não avancei. Apenas respondi a verdade.
— Eu nunca fui embora, Ruby. Só aprendi a ficar nas sombras.
Saí da mansão com a mesma certeza que carrego desde o dia em que ele morreu. Enquanto ela respirar, enquanto o filho dele crescer, ninguém vai tocar neles.
Nem que eu precise desaparecer com alguém no processo. Porque algumas promessas não precisam ser ditas em voz alta. Elas se cumprem.
Quando cheguei à minha mansão, o silêncio me acertou como sempre.
Joguei a chave sobre a bancada e fiquei parado no meio da sala, sem tirar o casaco. A cabeça ainda estava na Ruby. No jeito como ela me olhou antes de eu ir embora. Não era acolhimento. Não era perdão. Mas também não era expulsão. Era permissão. Pequena, contida… mas real.
Ela estava deixando eu ficar perto.
Mesmo que do jeito dela.
Passei a mão pelo rosto, respirei fundo e peguei o celular. Fiquei alguns segundos encarando o nome dela na tela. Não era impulso. Era necessidade. Apertei chamar antes que pensasse demais.
Ela atendeu rápido.
— “Você esqueceu de dizer mais alguma coisa?” — perguntou, a voz cansada, mas firme.
Sorri sem perceber.
— Não. — respondi. — Eu só… queria ouvir sua voz mais uma vez.
Houve um silêncio do outro lado.
— E agradecer. — continuei. — Por ter desbloqueado meu número.
Ela soltou um suspiro curto, quase uma risada sem humor.
— “Eu me cansei de bloquear todos os chips novos que você usava pra falar comigo.”
Dessa vez, ri de verdade.
— Eu tenho uma gaveta inteira só de chip. — confessei. — Juro. Nunca fui bom em desistir de você.
— “Isso eu sei.” — ela respondeu, sem ironia.
Ficamos alguns segundos em silêncio, daquele tipo que não incomoda. Pelo fundo da ligação, ouvi um choro distante.
— “Preciso desligar.” — ela disse. — “O Dustyn acordou.”
— Claro. — respondi. — Obrigado… de novo.
Ela hesitou um segundo.
— “Ethan…”
— Hum?
— “Boa noite.”
— Boa noite, ruivinha. Eu te amo.
A ligação ficou muda.
Eu sabia que ela tinha ouvido a última coisa que eu disse, mesmo sem responder.
Deixei o celular sobre a mesa, fui até o bar, me servi de uísque e acendi um cigarro. Caminhei até o espelho da parede e encarei meu próprio reflexo, cansado, marcado… mas inteiro.
— Você ainda vai ser minha esposa de novo. — falei em voz baixa. — Não porque eu force. Mas porque o tempo vai colocar tudo no lugar.
Dei um gole no copo.
— É só uma questão de tempo.
E dessa vez, eu estava disposto a esperar.
