Capítulo 93 Capítulo 93

Ruby

Acordei antes do despertador.

O quarto ainda estava escuro, Dustyn dormia tranquilo no berço ao lado da cama, e por alguns segundos fiquei apenas observando o movimento leve do peito dele subindo e descendo. O silêncio da casa já não doía como antes, mas ainda carregava ausência. Andrew costumava acordar cedo em dias importantes. Dizia que o mundo respeitava quem chegava antes.

Passei a mão pelo rosto e respirei fundo.

— Hoje é por você. — sussurrei, sem saber se falava com ele ou comigo mesma.

Levantei devagar para não acordar o bebê. Tomei banho, vesti uma saia lápis, blusa branca de seda e um blazer preto, o mesmo look que ele dizia me deixar “impossível de ignorar”, e prendi o cabelo de forma simples, um rabo de cavalo alto. No espelho, encontrei uma mulher diferente. Não era força. Era decisão.

Antes de sair, fui até o berço e toquei a mãozinha de Dustyn.

— A mamãe vai trabalhar. — falei baixinho. — Mas volta. Sempre volta.

A empresa parecia maior do que nunca quando cheguei.

Funcionários cochichavam pelos corredores, alguns me cumprimentavam com respeito tímido, outros apenas observavam, esperando um erro. Eu sentia os olhares. Não de curiosidade. De julgamento.

A sala de reuniões estava cheia.

Os mesmos homens de sempre. Os ternos caros. As expressões calculadas. Alguns tentavam parecer neutros. Outros nem se davam ao trabalho.

Sentei na cadeira de Andrew. Não como quem pede licença, mas como quem assume.

— Antes de começarmos — falei, abrindo minha pasta com calma — quero apresentar um relatório de auditoria interna.

O silêncio foi imediato.

Projetei os documentos na tela. Gráficos, transferências, datas, valores. Cada linha era uma traição. Cada número, uma tentativa de me tratar como viúva frágil.

— Esses dados mostram desvio de recursos da fundação Andrew Sinclair para contas paralelas. — continuei, firme. — Durante meses. Inclusive antes da morte do meu marido.

Um dos diretores se levantou bruscamente.

— Isso é um absurdo! — ele disse. — Isso é invasão de privacidade!

Olhei diretamente para ele.

— Não. — respondi. — Isso é roubo.

Outro tentou intervir.

— A senhora não pode simplesmente…

— Posso. — interrompi. — Sou a Ceo desta empresa. A fundação leva o nome do meu marido. E eu tenho autoridade legal para demitir os três agora.

Eles empalideceram.

— Isso vai gerar processo. — ameaçou um deles.

Inclinei a cabeça de lado.

— Ótimo. — disse. — Assim tudo vem à tona.

Assinei os papéis com a mão firme. Cada assinatura era um corte limpo. Um ponto final.

— A Sinclair Corporation vai continuar crescendo. — declarei, encerrando a sessão. — Mas agora, do meu jeito.

Ninguém aplaudiu.

Não precisava.

Saí da sala com a cabeça erguida. Só no elevador permiti que o ar escapasse dos meus pulmões. As mãos tremiam. Não de medo. De descarga.

Quando as portas se abriram no estacionamento, vi Ethan encostado no carro, braços cruzados, expressão atenta.

— Eu devia ter subido junto e filmado isso. — ele disse, com um meio sorriso.

Pela primeira vez em semanas, ri.

— Não ri de mim.

— Não estou rindo de você. — respondeu. — Estou rindo por você.

Balancei a cabeça, ainda tentando entender como aquele homem fazia parte da minha vida de um jeito que eu não escolhi… mas também não consegui cortar.

Ele me entregou uma pasta.

— O que é isso?

— Segurança. — respondeu. — Criei uma rede de proteção pra empresa. Monitoramento financeiro, jurídico, gente de confiança. Se alguém tentar te derrubar, eu vou saber antes.

Fechei a pasta devagar.

— E o que você ganha com isso?

Ele demorou a responder.

— A paz de saber que ele não morreu em vão.

Aquilo me atingiu mais forte do que qualquer declaração.

— Obrigada. — sussurrei.

Ele assentiu, deu um passo para trás.

— Te vejo mais tarde.

E foi embora.

Fiquei ali, observando enquanto ele se afastava. Pela primeira vez, senti vontade de chamá-lo de volta. Não por amor. Não por carência. Mas por reconhecer que, de algum jeito torto, ele estava ficando.

Respirei fundo e entrei no carro. Andrew estava certo. Eu estava pronta. E ninguém mais ia me dizer o contrário.

O caminho de volta para casa parecia mais longo naquele dia.

Dirigi com atenção automática, mas a mente estava longe, presa na imagem de Ethan encostado no carro no estacionamento, na forma como ele falou do Andrew sem raiva, sem disputa. Só respeito. Aquilo me confundia mais do que eu gostaria de admitir.

O celular vibrou no banco ao lado.

Olhei o visor no sinal fechado.

— “Meu pessoal detonou um carro que estava rondando a sua mansão há dois dias. Não chegou perto de vocês.”

Meu coração acelerou por um segundo. Engoli em seco antes de responder.

— “Obrigada por avisar. E… obrigada por cuidar disso.”

A resposta veio rápido.

— “Você não precisa agradecer. Eu faço porque amo você. E jamais vou permitir que machuquem você ou o bebê.”

Fechei os olhos por um instante. Não respondi.

Não porque não senti nada, mas porque senti demais. Um aperto no peito, pesado, desconfortável. Amor não pedido ainda era amor, e eu não sabia onde colocar aquilo sem quebrar algo dentro de mim.

Guardei o celular na bolsa e segui dirigindo.

Quando cheguei à mansão, o choro de Dustyn me atingiu antes mesmo de eu tirar os sapatos. Um choro diferente. Cansado. Dolorido. Aquele tipo de som que atravessa a pele e vai direto para o coração.

— O que aconteceu? — perguntei, largando a bolsa no sofá.

A babá surgiu do corredor, visivelmente exausta.

— Ele está assim há quase duas horas. Já tentamos tudo. O pediatra veio, examinou… fisicamente ele está bem. Sem febre, sem dor aparente.

Meu peito apertou.

— Obrigada. Pode ir descansar. Eu fico com ele agora.

Peguei Dustyn no colo. O rostinho vermelho, os olhinhos apertados, o corpinho tenso. Ele chorava como se procurasse algo que não conseguia encontrar.

— Calma, meu amor… mamãe está aqui. — sussurrei, embalando.

Nada.

Preparei o banho e entrei com ele nos braços. A água morna, o contato pele com pele. Normalmente funcionava. Naquele dia, não. O choro diminuía por segundos e voltava mais forte, como se algo estivesse faltando.

— O que foi, meu filho? — perguntei, com a voz já falhando. — O que você está sentindo que a mamãe não consegue tirar?

Depois do banho, o enrolei na toalha e o levei para o quarto. Sentei na cama, tentando pensar no que mais poderia fazer. Foi quando meus olhos caíram sobre o notebook, ainda aberto em cima da cômoda.

Engoli em seco.

Abri a pasta.

“Nosso para sempre.”

Rolei os vídeos até encontrar um específico. O arquivo era simples. Andrew sentado na poltrona do quarto, Dustyn recém-nascido no colo, cantando desafinado, mas com aquele sorriso que iluminava tudo ao redor.

Cliquei.

A voz dele encheu o quarto.

— “Dorme, meu pequeno… papai tá aqui…”

O efeito foi imediato.

O choro de Dustyn começou a falhar, virar soluço, depois silêncio. Os olhinhos se abriram, atentos, inquietos. Ele olhava ao redor, como se procurasse a origem daquela voz. As mãozinhas se mexiam no ar.

— É o papai… — sussurrei, sentindo as lágrimas caírem. — Você sente falta dele também, né?

Dustyn emitiu um som baixo, quase um gemido, e se aconchegou contra meu peito, ainda olhando para a tela.

Foi ali que eu quebrei.

Chorei, com o bebê nos braços, enquanto a voz de Andrew cantava para nós dois. Não era só a minha dor. Era a dele também. Mesmo tão pequeno, ele sentia a ausência. Sentia o vazio deixado pelo homem que o segurava como se fosse o próprio mundo.

— A gente vai sentir saudade juntos. — falei, beijando a testa dele. — Mas eu prometo… eu prometo que você nunca vai esquecer quem foi seu pai.

O vídeo terminou. O quarto ficou em silêncio outra vez. Mas, dessa vez, Dustyn dormia.

E eu fiquei ali, segurando meu filho, entendendo que a ausência de Andrew não morava só em mim. Ela morava em nós.

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