Capítulo 94 Capítulo 94
Ethan
Eu não lembro quando comecei a acordar pensando primeiro na Ruby e depois em mim.
Talvez tenha sido depois que o Andrew morreu. Ou talvez eu sempre tenha sido assim e só tenha parado de mentir pra mim mesmo agora. O fato é que meus dias passaram a girar em torno dela e do menino. Não porque ela pediu. Nunca pediu. Mas porque eu sabia que, se eu não estivesse atento, alguém estaria.
Cada relatório da empresa passava por mim antes de chegar até ela. Cada nome novo, cada contrato, cada reunião marcada. Eu observava tudo das sombras, como sempre fiz melhor. Ruby não precisava saber de metade do que eu impedia de chegar perto dela.
Era o meu jeito de cumprir a promessa.
Naquela noite, fui até a mansão com uma pasta de documentos. Eram cópias de contratos antigos, assinados antes da morte do Andrew. Coisas que eu preferia entregar em mãos, sem mensagens, sem telefone. Segurança nunca é demais quando se trata de quem você ama.
Estacionei o carro e entrei sem anunciar. A casa estava silenciosa, mas não vazia. O tipo de silêncio que existe quando há vida tranquila dentro de um lugar. Passei pelo corredor e foi quando ouvi.
Risadas.
Meu corpo travou antes da minha cabeça entender. Segui o som até a biblioteca e parei na porta, sem querer interromper. Ruby estava sentada no sofá, Dustyn no colo. O notebook aberto na mesa de centro, uma sequência de fotos passando na tela.
Andrew.
Ela apontava para a tela e falava baixo, como se o mundo inteiro coubesse naquela cena.
— Olha, meu amor… esse aqui foi o dia do casamento. — disse, com um sorriso triste. — O papai estava nervoso, mas fingiu que não.
O bebê mexeu as mãozinhas, atento à voz dela.
— E aqui foi na lua de mel… ele me carregou no colo porque eu disse que estava cansada. — ela riu de leve. — Dramática desde sempre.
Senti algo apertar no peito. Não era ciúme. Não era raiva. Era outra coisa. Um respeito silencioso por um amor que não precisava competir com o meu.
Ruby percebeu minha presença e ergueu o olhar.
— Pode entrar. — disse, sem surpresa.
Dei alguns passos, ainda meio sem jeito. Nunca fui bom com cenas domésticas. Ainda menos com cenas que envolviam o homem que ela amou até o último segundo.
— Desculpa interromper. — falei.
— Você não interrompeu nada. — respondeu. — Estávamos só lembrando.
Dustyn me olhou. Aqueles olhos claros me encararam como se tentassem decifrar quem eu era. Estendi o dedo, por instinto. Ele segurou com força, como se já me conhecesse.
Meu coração quase saiu pela boca.
— Ele já fala? — perguntei, a voz rouca.
Ruby sorriu.
— Não… mas tenta. — respondeu. — Principalmente quando escuta vozes masculinas.
O bebê balbuciou algo incompreensível e levou a outra mão até o meu rosto. Tocou minha barba, curioso. Fechei os olhos por um segundo. Foi automático. Foi forte. Foi demais.
Por um instante, senti como se algo tivesse sido recolocado no lugar dentro de mim. Não como pai. Nunca tentei ocupar esse espaço. Mas como homem que entende o peso de proteger algo frágil.
— Ele é esperto. — sussurrei.
— Igual ao pai. — Ruby respondeu, sem me encarar.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi cheio. Eu estendi a pasta e coloquei sobre a mesa.
— São documentos antigos. Contratos que eu achei melhor você ver pessoalmente.
Ela assentiu, mas não abriu na hora. Os olhos estavam em mim. Não de forma acusatória. Não defensiva. Apenas curiosa.
— Você está aqui todos os dias. — disse. — Mesmo quando eu não peço.
— Eu sei.
— Por quê?
Segurei o olhar dela. Não fugi. Não menti.
— Porque eu prometi. E porque eu amo você. — respondi. — As duas coisas podem existir juntas.
Ela respirou fundo. Não discutiu. Não me expulsou. Aquilo, por si só, já era uma vitória.
— Obrigada por tudo. — disse, baixo.
Balancei a cabeça.
— Eu devia te odiar por ainda me agradecer. — falei, com um meio sorriso. — Mas é impossível.
Me aproximei um pouco mais, ainda mantendo distância suficiente para não invadir nada.
— Não me agradece, ruiva. — completei. — Eu faço por amor. Sempre por amor.
Ela não respondeu. Apenas baixou os olhos para Dustyn, que já parecia sonolento. Eu dei um passo para trás, respeitando o momento.
— Vou indo. — disse. — Qualquer coisa… você sabe.
— Eu sei. — respondeu.
Saí da biblioteca com a sensação estranha de que, pela primeira vez, eu não era um fantasma naquela casa. Talvez ainda não fosse parte da família. Mas também não era mais um intruso.
Do lado de fora, acendi um cigarro e encostei no carro. Olhei para as janelas iluminadas da mansão e entendi algo que levei tempo demais para aceitar.
Amar não é possuir. Amar é ficar, mesmo quando não se pode tocar. E eu ficaria. Pelo Dustyn. E, mesmo que ela nunca admitisse em voz alta…
por ela.
Volto pra mansão Storm mais tarde do que costumo. O silêncio da casa não me traz paz. Só confirma o que eu já sei, minha cabeça ficou na mansão Sinclair.
Quando entro no escritório, encontro Bart encostado na mesa, braços cruzados, o maxilar travado. A feição dele não é de quem veio trazer boas notícias.
— Se for problema, resolve sozinho. — digo, jogando as chaves sobre a mesa. — Hoje não estou com paciência.
— O problema é você, Don. — ele responde, direto demais.
Ergo o olhar devagar, irritado.
— Cuidado com o tom, Bart.
— Estou sendo sincero. — ele insiste. — Você virou babá em tempo integral da família Sinclair. Isso está correndo solto no submundo.
Dou um passo à frente.
— Repete isso.
— O pessoal acha que você esqueceu quem é. — ele continua, firme. — Que trocou o trono pela sala de brinquedos.
Meu punho fecha.
— O que importa pra mim agora está naquela mansão. — respondo. — E quando eu decidir, volto a ser o Don daqui também.
Bart balança a cabeça.
— O submundo não espera decisão, Ethan. Ele exige prova. Você precisa mostrar que ainda é Ethan Storm. Frio. Cruel. Don.
Sorrio sem humor.
— Eu não preciso provar nada.
— Precisa. — ele rebate. — Ou vão testar você.
Me aproximo até ficar a poucos centímetros dele.
— Então avisa todo mundo de uma coisa. — digo, baixo. — Eu não provo poder. Eu derramo o sangue certo.
Viro de costas. Porque amar não me enfraqueceu. Só me deu algo que vale matar para proteger.
