Capítulo 95 Capítulo 95
Ruby
Um mês tinha passado desde o dia em que eu saí daquela sala de reuniões tremendo por dentro e fingindo força por fora. Um mês desde que eu assinei demissões, coloquei auditorias na rua e comecei a acordar com a palavra “responsabilidade” grudada na língua. O luto ainda morava comigo, mas agora ele dividia espaço com uma coisa nova: rotina. E rotina, por mais fria que pareça, às vezes salva.
Na primeira semana, os jornais me chamaram de “imprudente”. Na segunda, de “surpreendente”. Na terceira, mudaram o tom. E naquela manhã, quando eu desci do carro com Stella ao meu lado e vi o painel de notícias no saguão, eu senti o choque no estômago como se alguém apertasse meu coração.
— “A viúva que reconstruiu o império Sinclair.” — estava ali, em letras grandes.
Eu não sorri. Eu também não chorei. Só respirei. Stella inclinou a cabeça, lendo por cima do meu ombro.
— Eles estão começando a te temer, senhora.
— Não quero que me temam. — respondi, ajeitando o blazer preto.
— Temor é um tipo de respeito. — ela disse, prática. — E respeito é o que te mantém de pé nesse lugar.
Entramos no elevador. Eu vi meu reflexo no espelho: magra, olhos fundos, maquiagem mínima. O anel ainda no dedo. Eu toquei nele de leve, como se tocasse Andrew.
— Você está pronta? — Stella perguntou.
— Eu não sei se alguma vez vou estar. — respondi. — Mas eu vou entrar mesmo assim.
O elevador abriu e o corredor me recebeu com brilho encerado Alguns funcionários abaixaram os olhos. Outros sorriram pequeno. Eu aprendi a reconhecer apoio e espera por falha no mesmo gesto.
Na sala de reuniões, os investidores já estavam sentados. Homens mais velhos, ternos caros. Tinha também uma mulher elegante, com um coque impecável e um tablet na mão. Eu não queria cheirar a medo.
— Bom dia. — eu disse, firme.
— Bom dia, senhora Sinclair. — responderam.
Sentei na cadeira que era de Andrew. Por um segundo eu vi as mãos dele ali, batendo de leve na mesa quando ele queria atenção. Eu engoli seco.
Stella colocou uma pasta à minha direita. Eu abri e vi o relatório final da auditoria. Números, provas, nomes. O tipo de coisa que destrói reputações.
— Antes de começarmos, quero falar do plano de expansão e dos novos ajustes de compliance. — eu comecei. — A partir de hoje, auditoria contínua e dupla assinatura para movimentações sensíveis. Quem não se adaptar, sai.
A mulher do coque levantou a mão.
— Isso não atrasa decisões?
— Atrasa crimes. — eu respondi. — E eu prefiro.
Alguns homens trocaram olhares. Um investidor grisalho, de bigode bem aparado, me encarou com interesse.
— A senhora conseguiu resultados rápidos. O mercado está reagindo.
— Resultados não são sorte. — eu disse. — São decisões.
A reunião seguiu com projeções, contratos e prazos. Eu assinei o que precisava assinar. Eu recusei o que cheirava a armadilha. Em certos instantes, eu me peguei pensando que eu devia estar em casa com meu filho. Em outros, eu lembrava que Andrew deixou aquilo pra mim porque ele acreditava que eu podia.
Quando a apresentação terminou, o investidor mais importante, o senhor Hale, levantou-se. Era um homem conhecido por derrubar CEOs com uma frase.
Ele me olhou por alguns segundos, como se me medisse.
— Seu marido ficaria orgulhoso. — ele disse.
Eu senti a sala toda prender o ar. Eu vi Stella ficar rígida ao meu lado, pronta pra me defender de qualquer coisa.
Eu sorri pequeno, mas não era um sorriso de vitória. Era um sorriso de fé.
— Ele não ficaria. — eu respondi. — Ele está.
Hale piscou, surpreso. Depois assentiu.
— Então a senhora está bem acompanhada.
— Estou. — eu disse. — E vou manter o nome Sinclair limpo por ele… e por mim.
A reunião acabou com apertos de mão e promessas. Quando a sala esvaziou, eu fiquei parada, encarando a cadeira vazia que era dele. A cadeira existia. Ele, não. E isso ainda doía como corte recente.
Stella tocou meu ombro.
— A senhora precisa almoçar.
— Depois. — eu respondi.
— Depois vira nunca. — ela disse, mais suave. — E hoje o Dustyn está com fome de mãe.
Meu peito apertou.
— Ele está onde?
— Com o senhor Storm. — ela respondeu, observando minha reação.
Ethan. A presença dele ainda era uma ferida que estava cicatrizando de um jeito estranho, doía menos quando ele estava longe. Mas, quando ele estava perto, doía de um jeito diferente.
Eu peguei minha bolsa e saí.
No térreo, pela parede de vidro, eu vi a calçada movimentada. E, entre as pessoas comuns, havia uma cena que ainda parecia improvável… Ethan Storm encostado no meu carro, com Dustyn no colo, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
Ele não estava com terno. Estava com uma camisa escura e um casaco aberto. O rosto cansado. Mas os braços dele seguravam meu filho com cuidado. Dustyn tinha uma mão fechada no tecido do casaco, como se confiasse.
Meu coração falhou uma batida. Eu caminhei até a porta automática. Assim que eu pisei do lado de fora, Ethan levantou o olhar.
— Ele quis vir te buscar. — ele disse.
— Ele não fala ainda. — eu respondi, tentando parecer séria.
Ethan arqueou uma sobrancelha.
— Mas ele grita quando você demora. Isso conta.
Eu segurei um riso, rápido e pequeno, como se fosse proibido.
— Meu pequeno aliado. — eu sussurrei, estendendo os braços.
Ethan me entregou Dustyn com cuidado, sem encostar demais em mim. Eu senti o peso do meu bebê e o calor dele. Dustyn piscou e, por um segundo, pareceu me reconhecer como casa.
— Oi, amor da mamãe. — eu sussurrei, beijando a testa dele.
Ethan ficou quieto. O olhar dele era perigoso, porque não era de posse. Era de cuidado. E eu não sabia o que fazer com isso.
— Como foi? — ele perguntou.
— Eu sobrevivi. — eu respondi.
— Isso não é pouco. — ele disse.
Caminhamos até o carro. Os seguranças do prédio me observaram, curiosos.
— Você devia ter avisado que viria. — eu falei.
— Eu mandei mensagem. — ele retrucou.
— Eu estava em reunião. — respondi.
— Eu sei. Por isso eu não insisti. Eu só vim.
Eu ajeitei a mantinha de Dustyn.
— Obrigada por trazer ele.
— Não me agradece, ruiva. — Ethan falou, quase automático.
Eu respirei, encarando a rua.
— Você está mais quieto.
— Eu estou tentando não estragar tudo. — ele respondeu, simples.
A frase me atingiu de um jeito incômodo. Eu apertei Dustyn contra o peito.
— Você sabe que eu não estou pronta pra… nada além disso. — eu disse.
— Eu sei. — Ethan falou. — Eu não estou aqui pra tomar o lugar dele.
A dor veio junto com o alívio. Eu balancei a cabeça.
— Não existe lugar dele pra tomar.
Ele assentiu, sem discutir. Eu apontei pro meu peito, porque era mais fácil mostrar do que explicar.
— Mas tem espaço aqui… pra quem não desistiu de mim.
Ethan respirou fundo, como se segurasse uma tempestade.
— Ruby…
— Não transforma isso em promessa romântica. — eu cortei. — Eu estou falando de presença. De… não fugir.
Ele engoliu em seco.
— Então eu fico. — ele disse, baixo. — Até o fim, como prometi a ele.
Eu fechei os olhos por um segundo. Andrew. A promessa. O peso.
— E até o recomeço. — eu completei.
Ethan me olhou, cauteloso.
— Um passo de cada vez?
— Um passo de cada vez. — eu confirmei.
Entramos no carro. Ethan foi pro banco do motorista. Era estranho, mas não era invasivo. Era como se ele estivesse tentando ser útil sem ser dono.
Quando o carro saiu, eu olhei pro retrovisor. O reflexo mostrou nós três: Dustyn dormindo, eu com o rosto cansado e, ainda assim, com um pequeno sorriso, e Ethan olhando pra nós como quem finalmente tinha um motivo pra viver.
Na volta, o portão da mansão se abriu e eu senti o peso dos dias. Hellen veio apressada.
— A mamadeira já está pronta, senhora.
Eu assenti e levei Dustyn pro meu quarto. Ele acordou resmungando, e eu sentei na poltrona onde Andrew costumava ficar, com o braço apoiado.
— Tá tudo bem, meu amor. A mamãe tá aqui.
Na porta, Ethan esperou sem invadir. Quando o bebê pegou no sono de novo, ele falou baixo:
— Se você precisar de mim de madrugada, liga.
— Eu não vou te usar como muleta.
— Eu não me importo com o nome. Eu só quero você de pé.
Eu toquei o anel de casamento mais uma vez.
— Eu estou. — eu sussurrei, sem que Ethan ouvisse.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu não senti que estava mentindo.
