Capítulo 96 Capítulo 96

Ruby

A noite caiu sem que eu percebesse. Quando levantei os olhos do computador, o reflexo no vidro mostrava uma mulher diferente da que entrou ali pela manhã. O cabelo preso de qualquer jeito, olheiras fundas, o paletó jogado sobre a cadeira.

A empresa estava quase toda vazia. O silêncio do andar era pesado, interrompido apenas pelo som distante do ar-condicionado e pelo clique ritmado do teclado.

Eu podia ir embora. Mas não fui. Quando liberei Stella, ela insistiu em ficar comigo. Mas eu disse que não era justo com ela ficar sendo que seu horário já tinha passado.

Os papéis da nova filial estavam atrasados, os contratos precisavam ser revisados mais uma vez, e eu me recusava a entregar qualquer coisa incompleta. Andrew nunca aceitou “quase pronto”. Eu aprendi isso cedo demais.

— Só mais um pouco… — falei para mim mesma, esfregando os olhos.

O relógio marcava quase onze da noite quando ouvi passos no corredor. Levantei o olhar instintivamente.

A porta estava entreaberta quando o Sr. Harlan apareceu. Diretor financeiro. Um homem de cabelos grisalhos, terno caro demais para alguém que dizia viver apenas do salário. O sorriso que ele trazia não era cordial. Era o tipo de sorriso que se arrasta devagar, como quem mede terreno.

— Ainda trabalhando, senhora Sinclair? — ele perguntou, encostando no batente da porta.

Meu estômago se contraiu.

— Sim. — respondi, curta. — O relatório precisa estar pronto amanhã.

Ele entrou sem ser convidado. Fechou a porta atrás de si.

— Sempre admirei essa sua… dedicação — disse, caminhando lentamente até minha mesa. — Andrew também era assim. Incansável.

Continuei digitando, fingindo não notar a proximidade.

— Se não for sobre trabalho, prefiro continuar sozinha — falei, mantendo a voz firme.

Ele riu baixo.

— Trabalhar até tarde é perigoso, senhora Sinclair. Uma mulher sozinha… nunca se sabe.

Senti um arrepio subir pela nuca.

Ignorei.

Foi quando ele se apoiou na mesa e estendeu a mão, tocando uma mecha solta do meu cabelo. O corpo reagiu antes da mente.

— Me solta. — disse, afastando a mão dele com rapidez.

O sorriso dele mudou. Ficou mais fino. Mais duro.

— Calma. Eu só queria ajudar você a relaxar.

Levantei da cadeira.

— Não encosta em mim. — repeti.

Ele deu um passo à frente. Eu recuei. Foi rápido demais. A mão dele fechou em torno do meu braço, forte, apertando sem cuidado.

— Você devia agradecer por ter um homem interessado em você — disse, com a voz baixa e carregada. — Muitas mulheres dariam tudo para estar no seu lugar.

O coração disparou. A sala pareceu girar por um segundo.

— Me solta agora. — minha voz saiu mais firme do que eu me sentia.

Antes que eu pudesse reagir de verdade, a porta se abriu com violência. O impacto contra a parede ecoou pelo escritório.

Ethan.

Ele estava parado ali, terno escuro, expressão fria, os olhos mais escuros do que eu já tinha visto. Não havia surpresa no rosto dele. Havia certeza.

— Você nunca mais vai encostar nela. — disse, a voz baixa, controlada.

O Sr. Harlan soltou meu braço num reflexo, dando um passo para trás.

— Senhor Storm… — tentou rir, nervoso. — Acho que houve um mal-entendido.

Ethan entrou e fechou a porta com calma demais.

— O que faz aqui, senhor Storm? — Harlan perguntou, ajeitando o paletó.

— Esperando o momento certo pra isso. — respondeu.

Meu corpo inteiro entrou em alerta. Havia algo diferente no olhar de Ethan. Não era raiva descontrolada. Era decisão.

— Ethan… — chamei, sentindo o nó se formar na garganta. — Não.

Ele não me olhou. Os olhos dele estavam cravados em Harlan.

— Sai daqui, Ruby. Agora.

— Eu não vou deixar você…

— Agora. — repetiu, sem elevar a voz.

Harlan tentou falar alguma coisa.

— Isso é uma empresa respeitável, não um território seu…

Ethan avançou.

Segurou ele pelo colarinho e o empurrou contra a parede com força suficiente para calá-lo. Não foi rápido, nem teatral. Foi preciso. Meu corpo travou.

— Ruby. — ele disse, finalmente me olhando. — Confia em mim.

Engoli o choro. Saí.

As pernas tremiam enquanto eu caminhava pelo corredor vazio. O som do salto ecoava alto demais. Entrei no elevador com dificuldade para respirar.

Quando as portas se fecharam, o ar me faltou. No estacionamento, o silêncio era quase absoluto. Encostei no carro, tentando me recompor.

Foi então que ouvi. Um ruído seco. Abafado. Meu coração falhou uma batida. Minutos depois, Ethan surgiu da porta de emergência. A gravata estava solta, o paletó aberto. As mãos… sujas. Ele caminhou até mim como se nada tivesse acontecido.

— Vamos pra casa. — disse.

Abri a boca para perguntar. Para exigir. Para gritar. Ele me interrompeu com um olhar.

— Ele nunca mais vai tocar em ninguém.

Engoli em seco. Entramos no carro em silêncio.

Durante o trajeto, eu tremia. Não de medo dele. Mas da linha que havia sido cruzada por minha causa.

Quando chegamos à mansão, Ethan desligou o motor, mas não saiu imediatamente.

— Ruby. — chamou, baixo. — Olhei para ele. — O poder tem um preço. — disse. — E hoje você viu um deles.

— Eu não pedi isso. — minha voz falhou.

— Eu sei. — respondeu. — Mas eu prometi ao Andrew que cuidaria de vocês. E isso inclui não permitir que o mundo ache que pode te quebrar.

As lágrimas vieram sem aviso.

— Eu só queria trabalhar… — sussurrei. — Só queria fazer tudo certo.

Ele se inclinou um pouco, sem me tocar.

— Você está fazendo. — disse. — E é exatamente por isso que eles tentam te atingir.

Saí do carro.

Antes de entrar, olhei para trás. Ethan ainda estava ali, imóvel, como uma sombra que escolheu ficar.

Naquela noite, entendi algo que ninguém ensina quando se herda um império. Ser Ceo não é apenas liderar. É sobreviver. E, às vezes, pagar um preço alto demais por isso. Ethan ficou do lado de fora.

Vigiando. Como prometeu.

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