Capítulo 97 Capítulo 97
Ethan
Eu ainda estava dirigindo quando o silêncio começou a gritar dentro de mim.
As ruas passavam rápidas demais, os semáforos viravam manchas de cor, e eu só conseguia sentir a tensão no maxilar, travado como se relaxar fosse permitir que tudo desabasse de uma vez. As mãos apertavam o volante com força suficiente para doer. Eu não sentia a dor. Sentia outra coisa. Algo mais fundo.
Raiva.
Medo.
E um tipo de amor que não pede licença. Quando estacionei na mansão Storm, fiquei alguns minutos dentro do carro, o motor desligado, olhando para o nada. O cheiro de sangue ainda parecia grudado em mim, mesmo depois de lavar as mãos. Não era algo físico. Era memória.
Eu sabia que Ruby estava pensando. Ela sempre pensa demais quando algo foge do controle. Por isso, quando o telefone tocou, eu já esperava. Atendi no primeiro toque.
— “O que você realmente fez, Ethan?” — a voz dela veio baixa, trêmula, mas firme o suficiente para atravessar a linha.
Fechei os olhos.
— O que um homem faz quando alguém encosta no que é dele.
O silêncio do outro lado foi pesado. Eu quase consegui ouvi-la respirar fundo.
— “Pelo amor de Deus…” — ela disse. — “Nós não temos nada. Eu não sou sua.”
Abri os olhos. Ri sem humor.
— Não? Então por que eu senti meu corpo incendiar quando aquele desgraçado te tocou?
A imagem voltou inteira. O braço dele em torno do dela. O jeito como ela recuou. O medo contido nos olhos. Algo em mim quebrou naquele segundo. Algo que já estava rachado desde antes.
— “Isso é loucura.” — ela respondeu.
— É amor, ruiva. — falei, sem elevar a voz. — Do meu jeito, talvez doente, mas é.
Fiquei em silêncio depois disso. Não por falta do que dizer. Mas porque eu sabia que ela precisava escolher falar ou desligar. Eu não pressionaria. Não daquela vez. Alguns segundos passaram.
— “Não fala assim…” — ela falou. — “Nós não estamos na mesma página.”
Encostei a cabeça no encosto do banco.
— Mas estamos no mesmo livro. — respondi. — E eu vou seguir o caminho até o seu coração. Mesmo que demore. Mesmo que doa.
A ligação caiu.
Fiquei olhando para o celular por um tempo longo demais.
Ela desligou, mas não desligou o que existe entre nós. Eu sei reconhecer isso. Sempre soube. Ruby sempre foi assim. Corre quando sente demais.
Joguei o telefone no banco do passageiro e saí do carro.
A casa estava quieta. Grande demais para um homem sozinho. Tirei o paletó, joguei sobre a poltrona da sala e servi um uísque. O líquido queimou a garganta, mas não o suficiente para apagar o incêndio no peito.
Eu não me orgulho do que sou. Nunca me orgulhei.
Ser Ethan Storm nunca foi sobre luxo. Foi sobre sobreviver. Sobre ser mais cruel do que o mundo para não ser engolido por ele. Eu construí um império assim. Com medo alheio e sangue certo. Sempre o sangue certo.
Mas Ruby…
Ruby nunca fez parte desse mundo. Ela entrou na minha vida antes de tudo desandar. Antes de Andrew roubar o amor dela de mim. Antes de eu me perder completamente. Ela era o anjo quando eu já estava sujo demais para tocar o céu.
Andrew teve o que eu nunca soube oferecer: paz. E eu odiei isso nele por muito tempo. Agora, eu entendo. Ele confiou em mim quando estava morrendo. Confiou em mim o que tinha de mais precioso.
— “Cuida deles.” — a voz dele ainda ecoa na minha cabeça. — “Mesmo que ela nunca te perdoe.”
Dei outro gole no uísque.
— Eu estou cuidando, Sinclair. — falei para o vazio. — Do meu jeito torto… mas estou.
Subi para o quarto e encarei meu reflexo no espelho. Olhos cansados. Mandíbula marcada. Um homem dividido.
— Você está virando um fraco. — falei para mim mesmo.
O reflexo não respondeu. Porque não é fraqueza. É escolha. E isso é muito mais perigoso.
Peguei um cigarro, acendi e deixei a fumaça subir devagar. Ruby estava confusa. Eu senti isso na voz dela. Ela ainda ama Andrew. E sempre vai amar. Eu nunca competi com um morto. Nunca quis.
Mas o coração não obedece luto. Ele só bate. Ela sente quando estou perto. Quando falo. Quando protejo. Quando fico. Ela se odeia por isso.
Eu sei porque já me odiei por amar alguém que não era mais minha. Ou talvez nunca tenha sido. Sentei na beira da cama, passando a mão pelo rosto.
— Eu não vou te empurrar. — falei em voz baixa, como se ela pudesse ouvir. — Mas também não vou embora.
O celular vibrou. Mensagem dela. Curta.
— “Não me promete nada agora.”
Sorri de leve. Digitei de volta.
— Então não vou prometer. Vou fazer.
Coloquei o telefone de lado e deitei, encarando o teto. Eu sou a besta. Ela é o anjo. E talvez o castigo de ambos seja que um nunca consiga se livrar do outro.
Mas eu aceito.
Porque amar Ruby nunca foi seguro. Nunca foi simples. E nunca foi uma escolha. Foi destino.
O sonho veio como se fosse real demais para ser apenas um sonho. Eu reconheci Ruby antes mesmo de vê-la direito. Reconheci pelo cheiro, pela forma como meu corpo reagiu antes da razão. Ela estava diante de mim, calma, inteira, sem dor nos olhos. Não havia luto, não havia culpa. Só verdade.
— Você nunca deixou de ser meu primeiro amor. — ela disse, tocando meu rosto com cuidado. — Eu tentei te apagar, Ethan… mas nunca consegui.
Meu peito apertou forte, como se aquela frase tivesse sido guardada dentro de mim por anos.
— Eu esperei. — respondi. — Mesmo quando você não sabia. Mesmo quando não podia.
Nós nos beijamos sem pressa, como quem se encontra depois de sobreviver ao pior. Não era urgência. Era pertencimento. Quando ela encostou a testa na minha, sussurrou o que eu sempre temi ouvir:
— Eu ainda te amo.
Aquilo me desmontou.
No sonho, fomos para o banho juntos. A água caía morna, lavando tudo que doeu, tudo que sangrou por dentro. Eu a abracei pelas costas, não para tomar, mas para proteger. Ruby sorriu daquele jeito que só ela sabe, um sorriso que me lembra por que nunca consegui ir embora de verdade.
Depois, nos vestimos trocando beijos suaves. Lado a lado. Como se sempre tivesse sido assim. Entramos no quarto e vi o berço. Dustyn dormia tranquilo. Meu coração quase parou. Cheguei perto devagar e falei, com a voz embargada:
— Você é meu filho. Eu te amo… e sonho com o dia em que você vai me chamar de pai.
Ruby me abraçou por trás. Ficamos ali, olhando ele dormir, como uma família que não precisa se explicar para o mundo.
Eu acordei com o peito ardendo. Sentei na cama, ainda sentindo o cheiro dela no ar, e falei para mim mesmo:
— Vou reformar o quarto ao lado do meu. Esse vai ser o quarto do Dustyn. Não foi só um sonho. Foi um aviso. E eu não ignoro avisos.
