Capítulo 98 Capítulo 98

Ruby

Nunca pensei que pisaria numa delegacia para falar de morte. O cheiro do lugar me embrulha o estômago. Café fraco, papel, suor e tensão. Um policial me oferece água, mas minhas mãos tremem demais para segurar o copo.

Penso em Dustyn. Penso em Andrew. Repito mentalmente o que preciso dizer. Apenas a parte que não entrega ninguém.

— Senhora Sinclair, precisamos que conte exatamente como foi sua noite no prédio da empresa. — o investigador diz, sem levantar a voz.

Respiro fundo.

— Eu saí mais cedo. Estava cansada. Passei pelo diretor Harlan no corredor, apenas cumprimentei e fui embora. — digo, firme. — Não vi mais nada. Não ouvi nada. Não sei o que aconteceu depois.

Ele me observa por alguns segundos longos demais.

— Tem certeza?

— Absoluta. — respondo. — Tenho um filho pequeno. Eu não ficaria ali até tarde.

Ele anota algo, fecha a pasta e assente.

— Por enquanto é só isso. Se precisarmos, entraremos em contato.

Quando saio, minhas pernas quase cedem. Não porque menti. Mas porque sei a verdade.

Ethan.

A noite cai pesada quando chego em casa. Dustyn dorme no quarto, finalmente tranquilo. Eu deveria descansar, mas meu corpo não entende mais o que é descanso. Estou na sala quando sinto a presença dele antes mesmo de vê-lo.

— Eu disse que ia cuidar de você. — Ethan fala, encostado na porta.

Fecho os olhos por um segundo.

— E eu disse que não precisava de sangue pra isso.

Ele entra, lento, como um predador que não precisa correr.

— Às vezes, sangue é a única linguagem que eles entendem, Ruby.

— Não. — respondo, cansada. — Às vezes é só a linguagem que você conhece.

Ele me encara. Não com raiva. Com algo pior: convicção.

— Ele nunca mais vai encostar em ninguém.

— E agora a empresa está em risco por causa disso. — digo. — Você resolveu um problema criando outros dez.

— Eu resolvo todos. — ele responde. — Sempre resolvi.

Cruzo os braços, sentindo o peso do que estou prestes a pedir.

— Justamente por isso. — digo. — Quero uma procuração legal.

Ele franze o cenho.

— Como é?

— Uma autorização formal. Se algo acontecer comigo, se eu estiver impedida… você age. Legalmente. Em nome da empresa. Em nome da fundação. Em nome do Dustyn.

O silêncio cai entre nós como uma lâmina.

— Não vou assinar isso. — ele diz, seco.

— Vai sim. — respondo. — Ou não chega mais perto nem de mim nem do Dustyn.

Ele dá um passo à frente, os olhos escurecendo.

— Você sabe que está me ameaçando, né?

— Estou protegendo o que é nosso. — digo, sem baixar a voz.

Ele ri sem humor.

— Nosso?

— Andrew confiou em você. — continuo. — Eu também estou confiando. Mas confiança sem limite vira caos. E eu não vou criar meu filho dentro do caos.

Ele me encara por longos segundos. Vejo ali o homem que mata sem piscar… e o homem que embala meu filho com cuidado demais.

— Minha vida não tem mais sentido sem vocês. — ele diz, baixo.

Isso me atinge mais do que qualquer grito. Pego os papéis, coloco sobre a mesa e empurro na direção dele.

— Então prova que sabe ficar.

Ele assina. Sem drama. Sem discurso. Quando termina, devolve a caneta e respira fundo.

— Ele não é seu filho, Ethan. — digo, tentando aliviar o peso. — Lembre-se disso.

Ele se aproxima, segura meu rosto com cuidado, mas com firmeza suficiente para me obrigar a olhar nos olhos dele.

— Pode não ter o meu sangue. — ele diz. — Mas é meu filho. E eu morreria mil vezes por vocês dois.

Meu peito aperta. Não respondo. Porque naquele instante, eu sei, acabamos de selar algo que não tem volta. Um pacto. De amor. De proteção. E de consequências. E pela primeira vez desde que Andrew se foi, eu não me sinto completamente sozinha.

No dia seguinte, a empresa parecia mais quieta do que o normal. Ou talvez fosse eu que estivesse mais atenta. Entrei na minha sala cedo, antes da maioria dos diretores chegar. Gosto desse horário. É quando o prédio ainda não tenta me testar.

Stella chegou poucos minutos depois, com a pasta preta sempre colada ao corpo e o olhar atento demais para alguém que só veio trazer café.

— Ruby… — ela começa, fechando a porta com cuidado. — Precisamos conversar.

Levanto os olhos do notebook.

— Imagino que seja sobre a procuração.

Ela engole em seco.

— Já chegou ao jurídico. — diz. — E… isso me preocupa.

Cruzo os braços, esperando.

— Você deu poder demais a Ethan Storm. — continua. — Procurador legal, voz ativa em decisões estratégicas, autorização emergencial… isso não é pouca coisa. Um homem como ele pode usar isso contra você.

Solto um suspiro lento.

— Um homem como ele… segundo quem?

— Segundo tudo o que se sabe. — Stella responde. — Ele é instável, perigoso, tem histórico violento. Ruby, você acabou de assumir a empresa. Não pode colocar um homem perigoso no centro do poder.

Levanto da cadeira devagar.

— Stella… — digo, mantendo a voz calma. — Você trabalha comigo. Não contra mim. Então me escuta.

Ela assente, tensa.

— Você conhece relatórios, números e reputações. — continuo. — Mas não conhece o Ethan.

— E nem quero conhecer. — ela rebate.

— Pois eu conheço. — respondo. — Conheço o homem que ficou noites sem dormir porque ficou do lado de fora da minha casa cuidando da segurança da minha família pessoalmente. O homem que invadiu arquivos, colocou a própria cabeça a prêmio e derrubou diretores corruptos porque ousaram usar o nome da fundação do meu filho.

Ela fica em silêncio.

— Você acha que dei poder demais? — pergunto. — Eu dei poder a alguém que já o exercia sem papel nenhum. A diferença é que agora existe limite. Existe controle. Existe algo que o prende a mim de forma legal.

Stella franze a testa.

— E se ele se voltar contra você?

Dou um meio sorriso, cansado.

— Ele não vai.

— Ninguém é incapaz de trair poder, Ruby.

— Ele é incapaz de me trair. — respondo. — E isso é diferente.

Ela me encara, tentando medir se sou ingênua ou louca.

— Você confia tanto assim nele?

— Não. — digo, sincera. — Confiança é uma palavra fraca. Eu sei do que ele é capaz. Sei que ele não mede esforços quando se trata de mim, do Dustyn ou de tudo que leva o nome Sinclair.

Dou a volta na mesa e fico à frente dela.

— Andrew confiou nele quando estava morrendo. — digo, sentindo o nó na garganta. — Você acha mesmo que eu pisaria nessa linha sem pensar?

Stella baixa o olhar.

— Meu papel é te alertar.

— E eu agradeço. — respondo. — Mas meu papel agora é decidir. E eu decidi.

Ela respira fundo.

— Então… se alguém tentar te derrubar…

— Ethan vai chegar antes. — completo. — E não vai pedir licença.

O silêncio se instala. Stella finalmente assente.

— Eu vou estar ao seu lado. — diz. — Mesmo discordando.

— É tudo o que eu espero de você. — respondo.

Quando ela sai, volto para a cadeira e apoio as mãos na mesa. Não estou brincando de poder. Estou sobrevivendo.

E, gostem ou não, Ethan Storm é parte dessa sobrevivência.

Porque há homens que usam poder para dominar.

E há homens que usam poder para proteger.

E eu sei exatamente com qual deles estou lidando.

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