Capítulo 99 Capítulo 99
Ethan
Não durmo. O carro está estacionado do outro lado da rua, motor desligado, faróis apagados. Só o som distante da cidade acordada enquanto a mansão dorme. No espelho retrovisor, vejo meu próprio rosto.
Olheiras fundas, maxilar travado, olhos que já viram sangue demais para ainda acreditar em redenção.
Sou o tipo de homem que mata por amor. E mesmo assim, toda noite me pergunto se mereço amar.
Acendo um cigarro, mas apago antes da primeira tragada. Ruby odeia o cheiro. Desde que comecei a ficar mais perto da mansão, tenho evitado fumar perto. Detalhes idiotas. Mas é assim que começa a perda de controle, quando o homem que domina cidades começa a se preocupar com cheiro de fumaça.
Olho novamente para a casa. A luz do escritório dela ainda está acesa. Ela está lá dentro.
Eu sei porque sei o jeito que ela anda agora. Mais devagar. Sempre com Dustyn no colo, como se o mundo fosse cair se ela soltasse. Às vezes, ela fala com ele baixinho. Às vezes, só anda de um lado pro outro, perdida nos próprios pensamentos. Andrew fazia isso também.
Esse pensamento me atravessa como faca. Vejo quando ela aparece no corredor envidraçado do segundo andar. Ela está com Dustyn encostado no peito, o cabelo preso num coque alto bagunçado e lindo, vestindo uma camisa branca larga demais. A maternidade deixou marcas novas nela. Não a deixou fraca. Deixou mais real.
Ela para perto da janela. Por um segundo, nossos olhares se cruzam através do vidro. Ela não sabe que estou aqui. Ou talvez saiba.
Ruby começa a sorrir de novo. Devagar. Não é aquele sorriso fácil que ela tinha antes de tudo. É um sorriso cauteloso, como quem pisa num chão que ainda pode ceder. Mas está ali. Vivo. Andrew teria amado ver isso.
E é aí que o orgulho vem junto com a culpa. Porque parte dessa força não é só dele. Parte é minha. E eu não sei se isso me faz herói ou desgraçado.
No dia seguinte, quando ela sai para almoçar, entro na mansão pelos fundos. A equipe de segurança já me conhece. Não perguntam mais nada. Apenas abrem caminho.
No escritório dela, sento na cadeira que era dele. Não gosto disso. Nunca gostei. Mas alguém precisa ocupar o espaço para que ninguém tente roubá-lo.
Abro os contratos que ela me autorizou a revisar. Reorganizo cláusulas, elimino brechas, reforço blindagens jurídicas. Andrew era brilhante, mas confiava demais em gente errada. Eu não confio em ninguém. Um dos seguranças aparece à porta.
— Senhor Storm… — ele hesita. — Só pra confirmar… seguimos ordens suas ou da senhora Sinclair?
Levanto os olhos lentamente.
— As dela. — respondo sem pensar. — Sempre as dela.
— Mesmo que conflitem com as suas?
Fecho a pasta.
— Especialmente se conflitem com as minhas.
Ele engole seco e assente.
Quando Ruby volta, eu já estou saindo do escritório. Não quero que ela me veja ali. Aquele lugar ainda é território sagrado demais para o que eu represento.
À noite, fico mais tempo na mansão do que planejava. O cansaço me vence no sofá da sala. Dustyn está comigo, dormindo pesado, o punho fechado agarrado à lapela do meu terno como se eu fosse âncora.
Não lembro da última vez que alguém confiou em mim assim. Acordo com passos leves.
— Eu acho que ele te ama. — a voz dela vem baixa, quase um sussurro.
Abro os olhos devagar. Ruby está parada à minha frente, os braços cruzados, me olhando como se estivesse vendo algo que não queria admitir.
— Então somos dois. — respondo, ainda meio sonolento.
Vejo o impacto da frase antes mesmo dela tentar esconder. Ela engole em seco.
— Não fala assim.
— Por quê? — pergunto, sentando devagar. — Não é verdade?
— Ele é um bebê, Ethan.
— E eu sou um homem que nunca foi amado por um pai. — respondo. — Então talvez eu reconheça isso melhor que você.
Ela se aproxima, pega Dustyn com cuidado e o leva para o berço. Quando volta, senta na poltrona em frente a mim.
— Você está aqui todos os dias. — ela diz. — Não sei se isso é certo.
Dou de ombros.
— Nunca fui conhecido por fazer o que é certo.
— Isso não é brincadeira. — Também nunca fui conhecido por brincar.
Ela me encara, cansada.
— Você tem poder demais agora.
— E mesmo assim, nunca me senti tão vulnerável.
O silêncio pesa.
— Ethan… — ela começa. — Eu ainda amo o Andrew.
— Eu sei. — respondo sem hesitar. — E nunca vou competir com um morto. Isso seria perder duas vezes.
— Então por que continua aqui?
Levanto, ficando à frente dela.
— Porque alguém precisa segurar tudo enquanto você aprende a viver de novo.
Ela fecha os olhos.
— E quando eu aprender?
— Aí você decide se ainda me quer por perto.
— E se eu disser não?
Sorrio de lado.
— Eu fico longe. Mas continuo protegendo.
— Mesmo assim?
— Especialmente assim.
Ruby se levanta, dá dois passos e para à minha frente.
— Você não tem medo de se destruir nisso?
Chego mais perto. Não toco.
— O inferno que se chama amor sempre foi minha casa.
Ela não responde. Mas quando passa por mim, sua mão roça na minha por um segundo a mais do que o necessário. E esse detalhe quase me quebra. Fico ali, sozinho, olhando o berço.
— Um dia… — falo. — Um dia você vai entender tudo isso, pequeno.
Saio da mansão quando o céu começa a clarear. No carro, encaro meu reflexo novamente. Não sou o homem que Andrew foi. Mas sou o homem que vai manter o mundo longe deles.
Mesmo que isso me custe tudo. Porque amar Ruby nunca foi escolha. Foi sentença. E eu cumpro sentenças até o fim.
