Capítulo 2 2

O desespero tomou conta do meu corpo e eu só podia sentir minhas pernas bambearem e minha respiração, que antes estava tranquila, se descompassar. O coração batia tão forte que doía no peito. As mãos suavam. O lençol parecia insuficiente para esconder qualquer coisa. Não sabia mais o que esperar. Caí sentada na cama quando meus pais entraram pela porta do quarto e pegaram Mateo sem camisa, suado e com medo, e eu tentando esconder meu corpo com um lençol.

Realmente aquilo não poderia ficar pior do que já estava. Eu não sabia onde enfiar minha cara. Queria muito ser um avestruz e poder esconder minha cabeça no chão. O silêncio que se instalou no quarto parecia eterno. Eu mal conseguia olhar para eles. Mateo ficou parado, sem saber se vestia a camisa ou se permanecia quieto. Meus pais fizeram uma cara de “isso era segredo para quem?” e me tranquilizaram quando se sentaram ao meu lado na cama e chamaram Mateo a se sentar também. Então já esperei por um sermão.

— Hope, Mateo... Não precisam ficar com medo, não estamos aqui para brigar com vocês. — minha mãe disse. — Na verdade, nós já sabíamos. Só estávamos esperando a atitude de vocês vir nos contar. Eu realmente não queria ter pegado vocês nessa situação, afinal não é uma situação muito boa para descobrir que seus pais sabem do seu namorinho de infância. Mas enfim, não vamos brigar. Eu gosto do Mateo, assim como seu pai também e espero que vocês saibam o que estão fazendo. E que tenham usado camisinha.

Minha mãe me deixou completamente sem graça falando comigo daquele jeito. Ainda mais na frente do meu pai. Senti o rosto queimar. Queria que o chão se abrisse. Mas, por um lado, foi bom saber que podia contar com ela daquela maneira. E que ela não ficou super, mega chocada sobre meu relacionamento com Mateo. Até porque eu sabia que não seria coisa de momento. O alívio veio devagar, misturado com a vergonha ainda quente na pele. Meu pai só balançou a cabeça, sério, mas sem raiva. Foi como se um peso enorme tivesse sido tirado dos meus ombros, mesmo que naquele instante eu ainda não conseguisse respirar direito.

Pelo menos foi assim que eu pensei durante quase oito anos estando junto a ele. Foi tudo uma maravilha, um verdadeiro mar de rosas. Mateo é um príncipe e isso causava inveja em qualquer uma que olhasse. Meu pai o adorava, assim como todos os vizinhos e parentes. Diziam que tínhamos que nos casar e que éramos feitos um para o outro. Mas aquilo não era mais suficiente para mim. Era sempre a mesma coisa.

Hope e Mateo indo ao cinema. Hope e Mateo de mãozinhas dadas. Hope e Mateo assistindo algum filme em casa. Hope e Mateo dormindo de conchinha.

Hope e Mateo.

Hope e Mateo.

Hope e Mateo...

Aquilo foi incrível para mim enquanto eu era uma adolescente, mas agora que me tornei uma mulher, eu tinha desejo por coisas novas, anseio por pessoas novas, ares novos, e Mateo não pode me dar isso. Me vejo presa em um relacionamento que não me satisfaz apenas por comodismo. Estava empurrando com a barriga, como dizem por aí. Me sinto presa pela pressão que todos colocam em cima do nosso relacionamento. Todos têm tanto amor por nós dois juntos que não sei como seria a reação de todos ao saber que eu já não sinto o mesmo de antes.

Eu tenho medo da solidão, tenho medo de não encontrar alguém que goste de mim tanto quanto Mateo gosta, mas ainda assim, quero me arriscar. O medo e o desejo brigam dentro de mim todas as noites, quando o silêncio da casa pesa mais do que qualquer conversa.

[...]

Quando o dia amanheceu, eu já me sentia exausta por lembrar da rotina que me seguiria por mais um dia. Me levantar, escovar os dentes, preparar o café, acordar Mateo, esperar ele vir de grude para cima de mim, lavar a louça e pensar no que fazer de almoço e talvez ir ao supermercado. Os mesmos gestos, na mesma ordem, com a mesma previsibilidade. Até o cheiro do café já parecia cansado.

Todos os dias, enquanto me lamento da vida rotineira que estava vivendo, eu vivia lembrando de como era quando começamos a morar juntos. Estar ao lado de Mateo era perfeito. Mesmo quando deixou de ser proibido, ainda assim não era o suficiente. Então, quando começamos a dividir o mesmo teto, poder estar com ele dessa maneira, dormir com ele, cozinhar com ele... Estava tudo perfeito. Cada manhã parecia uma conquista. Cada toque ainda carregava a novidade de quem finalmente podia se mostrar sem medo.

Em uma manhã, eu me levantei e fui preparar aquele café da manhã especial. Eu estava sexy, usando minha camisola de seda e renda branca, com um leve decote, o cabelo solto e levemente bagunçado. O sol entrava pela janela da cozinha, iluminando o chão de madeira. Estava de costas para a sala, então fui surpreendida pelo meu moreno apenas de cueca, me abraçando por trás. O calor do corpo dele contra o meu ainda me fazia tremer. O cheiro da pele dele, misturado ao café que começava a subir, era quase embriagante.

Não podíamos fazer nada que nos dava choque, quase que literalmente, tudo nos dava tesão. A casa era a típica casa de recém-casados. Bagunçada, mas ainda assim organizada. Não podia pegar na vassoura que Mateo já vinha me beijando, até que eu cedesse e fosse para o quarto com ele. Naqueles dias, até as tarefas mais banais viravam pretexto. Qualquer desculpa bastava para que os corpos se encontrassem de novo, como se o tempo ainda estivesse a nosso favor.

No quarto rolava de tudo. Desde o oral com sua barba rala e sexy por fazer, roçando em minhas coxas, até o sexo em si, no meio das cobertas recém-arrumadas. O cheiro da pele dele ainda quente, o som baixo dos gemidos, a sensação de liberdade de não precisar se esconder de ninguém. Depois almoçamos juntos e, quando eu tentava arrumar qualquer coisa, Mateo vinha até mim e praticamente me jogava em cima da mesa, para que pudéssemos desfrutar da maravilha que é morar junto com quem se ama. O riso saía fácil. O desejo também.

Estava tomando banho e ele aparecia para me fazer companhia. Arrumava o quarto e Mateo me jogava na cama, desarrumando tudo de novo. Cozinhava e Mateo me puxava pelo avental porque achava sexy e acabava queimando a comida. Cada gesto parecia carregado de intenção. Cada canto da casa virava desculpa para se tocar.

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