Capítulo 1 0

O homem ainda estava vivo quando Rebecca guardou a arma. Caído junto ao chafariz, apertava o próprio peito e tentava falar. Ela se abaixou para ouvi-lo, cuidando para que a barra do vestido não tocasse o sangue. Bruno Oliveira assistia a tudo do outro lado da praça, com uma sacola de pão de forma na mão e a certeza crescente de que escolher aquele atalho para casa tinha sido o último erro de sua vida.

O desconhecido segurou o pulso da assassina. Rebecca soltou os dedos dele um por um, levantou e esperou. Havia alguma coisa intolerável naquela paciência. Bruno recuou; a sola do tênis arrastou uma garrafa verde de Heineken vazia pelo calçamento. Quando ela voltou o rosto, encontrou os olhos dele sob a iluminação amarelada.

Bruno correu. Conseguiu chegar até mesmo à esquina antes que um homem saísse de um carro estacionado e o atingisse no estômago com a força de um touro. Dobrado sobre os próprios joelhos, perdeu a sacola, o ar e qualquer capacidade de gritar por socorro. O sujeito o segurou pela nuca enquanto Rebecca atravessava a praça.

— Viu alguma coisa? — O segurança apertou os dedos, obrigando Bruno a erguer o rosto. Rebecca parou diante dele. Sua expressão mudou tão depressa que Bruno chegou a acreditar que o reconhecia. Ela se aproximou, afastou o cabelo de sua testa e permaneceu olhando sua boca. — Gabriel?

— Bruno. Meu nome é Bruno. — Tentou respirar, mas a dor interrompeu a frase. Rebecca segurou seu queixo e examinou o rosto de ambos os lados. O segurança aguardava a ordem para descartar o lixo. Atrás dela, junto ao chafariz, o homem finalmente deixou de se mover para sempre.

— Coloque no carro. — Ela recolheu do chão o celular que caiu. — Descubra quem está esperando por ele em casa.

No banco traseiro, Bruno prometeu silêncio até ficar rouco. Explicou que morava sozinho, que não conhecia nenhum deles, que podia ir embora da cidade. Rebecca escutava com a arma sobre a coxa. Quando ele tentou alcançar a maçaneta, ela encostou o cano em suas costelas.

— Você viu meu rosto. Ouviu minha voz. Não vou passar os próximos anos esperando uma intimação quando posso resolver esse problema hoje.

Ele reconheceu o nome quando o segurança a chamou pelo sobrenome. Rebecca Von Stein. A CEO aparecia em revistas, entrevistas, anúncios de empreendimentos que Bruno jamais poderia comprar. Lembrou de uma fotografia enorme numa livraria: ela entregava um prêmio literário a um homem sorridente. Na ocasião, teve inveja do premiado.

O carro entrou numa garagem. Elevador, corredor silencioso, uma suíte maior que seu apartamento. Bruno procurou pessoas, janelas abertas, qualquer possibilidade de chamar atenção. Encontrou uma cama larga, duas poltronas e uma cidade inteira brilhando atrás de vidros fechados.

O segurança o derrubou sentado no tapete. Rebecca saiu por alguns minutos; quando voltou, trazia uma fotografia. Comparou o papel ao rosto dele enquanto o homem fechava uma tornozeleira de metal em seu pulso esquerdo. A corrente estava presa à estrutura da cama. Bruno só compreendeu o que faziam quando tentou levantar.

— Alcança o banheiro. — O segurança puxou o fecho para conferir. — A senhora tem certeza?

Rebecca dispensou o homem sem responder. Bruno atravessou o quarto até o ferro impedir o próximo passo. A porta estava a menos de um metro de sua mão. Tentou novamente, com uma insistência infantil que lhe arrancou pele do braço. Atrás dele, Rebecca colocou a fotografia sobre a cama.

— Olhe.

Uma moça abraçava um rapaz numa praia. Bruno reconheceu nela os olhos da mulher que o observava. No rapaz, encontrou o próprio sorriso, o desenho do nariz, a maneira desigual como uma sobrancelha se levantava. Segurou a fotografia com as duas mãos.

— Ele tinha a sua idade quando morreu. — Rebecca tocou a imagem. — Eu o conheci aos dezessete. Passei a juventude inteira acreditando que envelheceria ao lado dele.

Bruno devolveu o retrato. A mulher continuou perto, examinando seus ombros, o pescoço exposto pela camiseta esticada. Passou os dedos pela sua barba rala e demorou o polegar no lábio inferior. Bruno ficou imóvel, percebendo no desejo dela uma oportunidade que o envergonhou antes mesmo de saber como aproveitá-la.

— Você é igual. — Rebecca aproximou o rosto, mas parou antes de beijá-lo. A respiração dela alcançou sua boca. — E infelizmente eu preciso matar você.

Ele fechou os olhos. A corrente pesava sobre o braço; havia sangue secando no tecido de sua munheca. Pensou na mãe, no computador aberto, nas personagens que deixara esperando dentro de um arquivo. Quis oferecer qualquer coisa para aquela mulher poupar sua vida, mas só possuía histórias.

— Eu sou escritor! — Rebecca afastou a mão. Ele continuou antes que ela perdesse o interesse. — Tenho livros pra terminar. Histórias que ninguém ouviu. Você não pode me matar sem deixar que eu conte pelo menos uma!

— Todo mundo deixa alguma coisa por fazer...

— Mas você pode ouvir! — A urgência lhe deu coragem para encará-la. — Me dê esta noite. Se não gostar, amanhã me mata, ou faz o que quiser.

Rebecca sentou na poltrona. Durante alguns minutos, consultou o celular enquanto Bruno esperava de pé, sem saber se deveria insistir. Ele viu suas mãos pararem sobre a tela. Ela levantou os olhos e percorreu seu rosto outra vez. Um sorriso perverso encheu os lábios da mulher quando se lembrou de seu livro predileto na infância.

— Vamos fazer um trato: mil histórias, uma por noite. Se conseguir chegar ao fim, eu solto você e financio sua carreira. Publicação, divulgação, dinheiro para escrever. Tudo aquilo que mais sonhou.

Bruno olhou o ferro mortal. Quase três anos. A promessa abriu diante dele uma extensão de tempo que mal conseguia compreender. Rebecca acompanhava sua reação com interesse, desfrutando a possibilidade de conservar aquele rosto sem admitir que já havia adiado a execução por causa dele.

— E quem decide se a história foi boa? — Ele conhecia a resposta, mas precisava ouvir as regras.

— Se em uma única noite você me deixar entediada, eu mato você. — Rebecca colocou a arma na mesa e ajeitou a poltrona de frente para ele. — A liberdade vem depois da milésima. Até lá, você fica comigo. Ou morre, se me decepcionar, numa noite qualquer.

Do corredor veio o ruído de uma porta fechando. Bruno imaginou o segurança esperando a ordem e tomando café enquanto decidiam seu destino. Procurou no rosto de Rebecca alguma confirmação de que aquela oferta era séria. Ela sustentou seu olhar. A pequena chave pendia entre os dedos dela.

Bruno baixou os olhos para a fotografia. Aquele defunto tinha comprado alguns minutos para ele; teria de conseguir o resto sozinho. A boca estava seca, e todas as histórias pareciam ter desaparecido justamente quando precisava delas. Rebecca serviu água num copo e o entregou, acompanhando cada movimento de sua garganta enquanto bebia. Depois recolheu a fotografia, deixando a arma à vista.

— Comece, Bruno. Conte a primeira história. Ela decidirá se você vive mais uma noite.

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