Capítulo 2 PRIMEIRA NOITE
Bruno apoiou o copo no chão. Conhecia aquela história, era uma de suas melhores, com seus caminhos perversos e a crueldade escondida sob a beleza; mesmo assim, demorou a encontrar a voz. Rebecca observava sua boca. Ele precisava levá-la para longe da suíte, fazer com que esquecesse por alguns minutos a arma junto à poltrona. Escolheu começar pelo desejo, pois era a única coisa que até então pareceu capaz de distraí-la.
— Quando chegaram à Terra, vindos da inefável Cidade de Prata, eram seis centenas de anjos, divididos em doze legiões. Já havia anjos na Terra, é óbvio, a natureza jamais poderia se administrar sozinha, pelo acaso. Sua missão era simples: observar a evolução humana, ministrando sortilégios favoráveis à redenção dos filhos de Adamá para que regressassem ao Jardim, uma vez que restaurassem suas virtudes morais.
Rebecca tirou os olhos dele para verificar uma mensagem. Bruno sentiu a garganta apertar, mas continuou.
— Eram Sentinelas da Santidade, e nunca antes um celestial havia tido permissão de ser tão íntimo do dia a dia dos homens, na ótica de sua temporalidade, até então. Nem mesmo a Morte. Foi onde tropeçaram: eles estavam próximos demais. Próximos demais para resistir à tentação que era saborear suas virtudes. A princípio, foi o cheiro. A perfumada e delicada fragrância que exalava de seus frágeis corpos era algo... magnético. Ingênuos e confusos, os Sentinelas continuaram suas observações, sem perceber o quanto viciados já estavam no cheiro de terra molhada evaporando que a humanidade tinha. Era opiáceo. Depois, foi o gosto. O som de suas palavras, murmúrios, gemidos e suspiros começou a causar em alguns anjos uma inquietante vontade de ouvi-los em todos os momentos.
Rebecca se ajeitou no sofá, claramente interessada nos gemidos e sussurros que atraíam os anjos. O escritor continuou:
— Quando dormiam, o sabor que os dominava mudava para o som que seus corpos faziam em restauração das forças gastas ao longo do árduo dia de vivências. Tamiel gostava particularmente do som do sangue pulsando por baixo de suas peles quentes, o líquido vermelho da vida bombeado de seus corações. Aquilo o nutria. Quando se aperceberam, já estavam perdidamente apaixonados pela humanidade.
— Apaixonados? — Rebecca deixou o celular sobre a mesa. Bruno encontrou nela uma atenção desconfiada.
— Pelo que podiam sentir perto deles. Ainda não sabiam a diferença.
Ela apoiou o queixo na mão, esperando que continuasse. Bruno respirou melhor, embora reconhecesse o risco da resposta. Voltou aos anjos antes que a mulher resolvesse discutir o assunto.
—No praia do Arpoador, mulheres se banhavam tirando o suor do trabalho. Araciel tinha os olhos fixos nelas: suas curvas, seus risos, a maneira como se moviam. Da perspectiva dos anjos, o tempo passava preguiçoso, magistral, capturado pelos olhos e sentidos espirituais, ávidos por mais daquela maravilha inigualável em câmera lenta. Segundos demoravam horas, onde cada nuance e detalhe eram vorazmente absorvidos pelos observadores sobrenaturais. Azazyel era quem não se continha. Já vinha nutrindo uma tristeza oculta e profunda, um desespero avassalador em não ser ele o afortunado a experimentar aquela proximidade. Poderia ter apenas tocado uma nuca com a ponta dos dedos, ou mesmo a provado com seus lábios. Mas desejava que soubessem de sua presença. Naquela manhã, entrou no mar e revelou seu esplendor. As mulheres se afastaram, assustadas com o surgimento daquele aparente surfista esculpido no Olimpo; depois, algumas se aproximaram. Pela primeira vez, um Sentinela abandonou a contemplação para ser contemplado.
Todas as legiões foram atraídas pela queda de Azazyel, um grito de sua antiga pureza bradando por socorro; voaram em um farfalhar de majestades até onde a transgressão acontecia, chocados com o que presenciavam. Todavia, cerca de duzentos ficaram verdadeiramente maravilhados em saber que praticar aquilo era uma possibilidade real. A maioria se foi. Um terço ficou. E os que ficaram tomaram mulheres, geraram filhos e ensinaram seus descendentes a governar.
Yomiah, porém, desejava mais do que a companhia das mulheres. Sua imensa admiração por elas transcendia a compreensão dos irmãos: não queria apenas ter, queria ser como elas. Zavebe zombava daquela ambição. Queria tanto ser mulher que gerava mulheres divinais e incomparáveis. Que acreditasse em sua arte.
Samyazah refletia sobre sua própria depravação e sobre como as coisas haviam inquestionavelmente saído do controle desde então. Podia fingir que Azazyel era o culpado, o corruptor, mas sabia que não era verdade. Ele apenas admitiu primeiro o que já ventilava no interior de cada Sentinela que havia se entregue ao desejo de tomar para si as filhas dos homens. Na verdade, surpreendia-lhe lembrar que tantos conseguiram ir embora.
Quando veio o anúncio do dilúvio, os anjos discutiram o destino de seus filhos. Azazyel não queria saber de nada disso. Estava viciado em mulheres e não dava a mínima para o Plano ou as consequências. Samyazah o chamou à razão: se toda a humanidade fosse exterminada, quem geraria mulheres com quem pudessem se extasiar? Não esperava por aquilo. A lógica do seu Capitão era, como de costume, estratégica e impecável. Admitiu, carrancudo, que não tinha pensado nisso.
As águas vieram. Desesperados pelo mundo que se perdia, os Sentinelas viram desaparecer os rostos que julgavam amar. Com o passar dos anos, os sobreviventes repovoaram a terra, e os anjos aprenderam com seu líder o valor da paciência. Voltaram a produzir nephilins. Estes se tornaram poderosos governantes das civilizações do mundo desde então. Lendas foram erigidas sobre semideuses e linhagens sagradas. Quanto a Azazyel, durante a longa espera, descobriu novos desejos entre seus iguais. Até a ausência das mulheres lhe ensinou outras maneiras de continuar caindo cada vez mais fundo em sua depravação, que, de fato, nunca foi culpa da humanidade.
Bruno se calou. A corrente tocou a cadeira quando tentou se acomodar. Rebecca permanecia imóvel, olhando para ele. O silêncio se prolongou até que ela recolheu a arma. Bruno apertou os dedos contra o assento, mas a mulher abriu a gaveta e a guardou.
— Então eles aprenderam a preservar aquilo que queriam consumir... — Rebecca se levantou, interessada. — Amanhã você me contará outra. Quero saber se consegue fazer alguma coisa além de condenar seus personagens.
Apagou a luz da poltrona. Bruno continuou sentado, escutando os movimentos dela no banheiro, até compreender que aquela noite lhe pertencia. A porta permanecia fechada, a corrente estava intacta, mas ainda havia ar entrando em seus pulmões.
Por enquanto.
